segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Óperas, guia para iniciantes - A Ópera no Ocidente - Parte IV - Uma breve história - A ópera italiana.


Ainda que não haja registro oficial, arrisco dizer que a Ópera chegou ao Ocidente através do incremento no comércio internacional, resultante do avanço tecnológico nas embarcações e nas técnicas de navegação que ocorreu na época do chamado Renascimento.

E como se sabe, nesse campo brilhou a “República de Veneza”, que à época não tinha vínculos formais com a atual Itália.

Através de seus mercadores, vários costumes foram importados das terras distantes e, provavelmente, dentre eles chegou da China, junto com a seda, o papiro, a pólvora etc., um tipo de representação que unia o Canto, a Dança e o Teatro para contar uma história. Uma manifestação perfeitamente adequada para contar as “Tragédias Gregas” que renasceram no período, no bojo da revalorização de toda a antiga cultura clássica, que havia sido solapada pela ignorância supersticiosa e religiosa da Idade Média.

E por ter chegado primeiramente em uma Cidade Estado que estava informalmente associada com outras de origem e natureza símiles, acabou ficando com a Itália a honra de ter sido o berço da Ópera ocidental.

Mas não foram apenas os italianos que se ocuparam do gênero, pois também os franceses e os alemães criaram obras magníficas, secundados por outros povos que também participaram do movimento.

Na sequência, falaremos do desenvolvimento do gênero nessas nações, iniciando, obviamente, pela Itália em face de sua importância.
A Ópera italiana.

O termo “Ópera” provém do latim e significa: “trabalho”. É o plural de “Opus” que, por sua vez, significa: “obras”.

Como já se disse, surgiu por volta do início do século XVII, na época conhecida como Renascimento por ser o tempo em que “renasceu” a cultura clássica, especialmente a grega, após as trevas medievais.

Na região da atual Itália, as peças de teatro musical como os “dramma per música” e/ou as “favola in música (fábula musical)” já contavam com rústicos Canto, Dança e Encenação; e com o advento das novas informações, essas Artes desenvolveram-se rapidamente para atenderem a suntuosidade que os enredos exigiam, já que tratavam prioritariamente das Tragédias Gregas e, em menor escala, de alguns temas regionais, que também eram aludidos nos Carnavais venezianos da ocasião.

O primeiro espetáculo considerado realmente uma Ópera, aconteceu por volta de 1594, em Florença, com o título de “Dafne”, de autoria de Jacopo Peri e de Rinuccini, em suposto atendimento a uma encomenda feita por um círculo de humanistas florentinos, conhecido como “A Camerata”.

Porém, para alguns estudiosos, a Ópera foi composta para um grupo de teóricos da música, liderados por Jacopo Corsi, para confrontar a Camerata, que eles julgavam ser reacionária. Participavam do grupo os compositores Jacopo Peri, Caccini, Gagliano e Cavalieri, unidos pelos objetivos de promover o ressurgimento da Tragédia Grega e combater a insistência conservadora de instituições como a Camerata que preconizavam a manutenção do estilo altamente polifônico do então hegemônico “madrigal dramático”, em detrimento da grandiosidade literária do enredo.

Apesar de alguns equívocos, a posição do grupo de Corsi prevaleceu e como característica do novo gênero ficou estabelecido que a sua música teria que se subordinar ao conjunto do enredo, deixando de ocupar a posição central do espetáculo.

Mas, polêmicas à parte, o que mais se lamenta atualmente é o desaparecimento da obra pioneira. Por isso, coube à obra seguinte, também de Jacopo Peri, composta em c. de 1600 com o título de “Eurídice (feita para o casamento de Henrique IV e Maria de Medicis)” a honra de ser a primeira Ópera a ter chegado aos nossos dias.

A seguir, veremos com mais detalhes o desenvolvimento da Ópera na Itália.

Lettré, l´art et la Culture. Rio de Janeiro, Verão de 2015.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Ópera, guia para iniciantes - Parte III - Apêndice "O estilo Kunqu"


Ópera, guia para iniciantes - Parte III -
Apêndice "O estilo Kunqu".
No fim do século XIII, na Província de Zhejiang, surgiu a chamada Ópera do Sul ou Ópera de Wenzhou ou Ópera de Variedades de Yongjia, cuja criação deveu-se à mescla de entonações e melodias de todo o território, graças à unificação realizada pela Dinastia Yuan.

A Ópera Kunqu foi um dos vários estilos que se abrigaram na denominação “Ópera de Variedades” e a sua grande aceitação pelo povo embasou a moderna Ópera Nacional.

Segundo registros confiáveis, foi criada no século XIV por Gu Jian, habitante das montanhas de Kun, na atual Qian Deng, que desde a primeira infância havia sido educado pela tia, na arte do Canto.

Gu Jian (ou Feng Yue Sanren seu nome artístico) escreveu uma obra com oito atos que é considerada a primeira do gênero.

Para compor a sua obra, ele utilizou o padrão vocal do sul e o estilo Chuanqi (com vários atores, muitos músicos e fartos recursos cenográficos), que contava longas histórias, as quais, às vezes, demandavam vários dias de apresentação, com muitas histórias, melodias, declamações, encenações etc.

Um estilo dispendioso e que contrastava com o modelo que fora criado no norte do país, durante as Dinastias Song (960-1279) e Yuan (1279-1368), cujas características principais eram o feitio em apenas quatro atos e com um único cantor, que apresentava de modo conciso e sóbrio apenas uma história. E devido a esse custo elevado, não demorou a que o estilo Chuanqi fosse desmembrado, sendo pinçadas partes estanques de um enredo para apresentações mais leves e despojadas.

Graças a essa simplificação, o povo mais humilde pôde aproximar-se dessa forma de Arte e isso a tornou uma forma de lazer e de aprendizado muito identificada com os valores tradicionais da Sociedade chinesa.

Mas a popularização da Ópera não a deixou menos atraente para a Elite, que passou a admirar-lhe cada vez mais. Dessa sorte, já em meados do século XIV, no tempo da Dinastia Ming, os extratos mais influentes da Sociedade passaram a estudar-lhe e a introduzir-lhe modificações com o objetivo de refinar a sonoridade, a representação, a cenografia e a própria literatura que a embasava. De certo modo, foi uma volta ao estilo Chuanqi, embora com mais parcimônia.

Dentre os nobres que se envolveram no processo de refinamento, destacaram-se Wei Lianfu (1489-1566) e Liang Chenyu (c.1521-1594) que contribuíram enormemente para que a Ópera atingisse elevados patamares artísticos. Todavia, foi apenas durante o reinado do Imperador Jiajing (1522-1566) que a “Ópera Kunqu” atingiu o seu mais alto grau, graças à reforma no padrão tonal “kun”.

Então, com a sua qualidade já reconhecida, a Ópera Kunqu espalhou-se rapidamente e fomentou a criação de novos grupos operísticos, bem como o surgimento de novas histórias, enredos etc. E essa expansão levou-a a Corte Imperial em Pequim, por ocasião das celebrações do aniversário do Imperador Qianlong (1735-1795). Para a efeméride vários grupos de todo o país haviam sido convocados e essa reunião de artistas propiciou o câmbio de influências, do qual resultou a incorporação de elementos das óperas Anhui e Hubei ao estilo Kunqu, originando-se a chamada “Ópera de Pequim”.

A partir de então e até o reinado do Imperador Jiaqing (1796-1820), na contemporaneidade, o estilo Kunqu tornou-se hegemônico, sendo-lhe introduzidos novos e melhores poemas, músicas, danças, encenações, figurinos etc.

Um aprimoramento constante que além de lhe solidificar como expressão nacional, também fez com que se tornasse a matriz de outras formas de óperas, como, por exemplo, a* que surgiu no século XVIII e que se voltava mais para o homem mais humilde e menos dotado intelectual e culturalmente.

Atualmente, o prestígio da chamada “Mãe da Ópera Chinesa” pode ser conferido pelo seu vasto repertório com mais de quatrocentas peças e pelo grande público que assiste às suas apresentações, as quais, geralmente, são compostas por três personagens e por um cenário simples, se comparado com o esplendor de seus iguais no Ocidente.

Foi, como se viu, uma longa marcha a que percorreu o estilo Kunqu, cabendo aos seus protagonistas e seguidores o mérito de terem dado ao homem essa magnífica expressão artística. Um retrato maravilhoso da grandeza da alma humana.
Brasília, 16 de janeiro de 2015.

Nota do Autor* - essa Ópera passou por um longo período de declínio e só ressurgiu em 1921, no século passado, graças à abertura de uma escola para o ensino de Kunju, na localidade de Suzhou, que iniciou o vitorio processo de restauração da mesma. Posteriormente, por volta de 1956, alguns de seus mestres formaram o “Grupo Kunju” de Zhejiang que obteve enorme sucesso com a apresentação de peças como “Quinze cordas de dinheiro”, que se reaproximavam do antigo classicismo Kunqu.

Lettré, l´art et la Culture. Rio de Janeiro, Verão de 2015.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Óperas, guia para iniciantes - Parte II - A história da ópera. A Ópera Chinesa.


Um gênero musical, uma nova forma teatral, um novo modelo de balé etc. não são frutos de um acontecimento único, de uma causa exclusiva.

Em verdade, pode-se dizer que todo nascimento é o resultado de uma série de acontecimentos e com a Ópera não foi diferente. Uma ideia aqui, um acréscimo ali, um aperfeiçoamento acolá etc. produziram o espetáculo que para muitos é a mais completa demonstração da genialidade do espírito humano.

Assim sendo, seria equivocado contar a história da Ópera partindo apenas de sua gênese ocidental, pois desde muito antes essa manifestação cultural já existia no Oriente, principalmente na China, onde servia como divertimento, instrumento educativo e até como veículo de crítica aos governantes.

Foi, seguramente, um dos principais elementos que asseguraram a identidade nacional e ainda hoje é vista como uma poderosa ferramenta para a preservação da autêntica arte chinesa, bem como dos valores tradicionais, sempre ameaçados pelas hordas do capitalismo ocidental que avança velozmente em seu território.

Por isso, existe atualmente um vigoroso movimento de revalorização dessa expressão cultural; porém, como também acontece com as suas irmãs ocidentais, ela é mais conhecida indiretamente, que por contar com a efetiva aclamação popular. Usando-se uma gíria ocidental, passou a ser “descolado” dizer-se apreciador do gênero, mas, infelizmente, é uma admiração que não se concretiza realmente.

A popularidade de que já desfrutou, agora é apenas uma recordação, pois o estrago que a famigerada “Revolução Cultural” maoista causou, não pôde ser amenizado entre uma juventude cada vez mais ligada em outras formas culturais, ou melhor, em outros entretenimentos. Todavia, apesar desse afastamento com o grande público, alguns abnegados continuam a despender os melhores esforços para manter a chama acesa, até que novos tempos a recoloquem em seu devido lugar.

Para nós, que vivemos nessa outra metade do mundo, resta torcer para que tenham êxito e buscar conhecê-la melhor, já que nela está a matriz da nossa própria Ópera, ainda que muito eruditos não admitam essa associação entre ambas.

Por ser o espetáculo mais antigo da genuína e tradicional cultura chinesa, alguns estudiosos estimam que por causa dessa longevidade e, também, em razão da vastidão do território nacional, existam mais de três centenas de estilos de óperas, os quais são compostos de elementos comuns a todos e particularidades regionais, sempre com ênfase no respeito às tradições e no culto aos antepassados.

Consensualmente se aceita que antecedeu à Ópera atual, a expressão artística chamada de Quinqiang que já mesclava danças e músicas folclóricas com narrativas singelas e toscas encenações teatrais.

A primeira descoberta do Quinqiang data de c. século II AEC, na localidade de Shaanxi, às margens do famoso “Rio Amarelo” ou Yangtze. O reconhecimento oficial dessa manifestação cultural ocorreu por volta de 1279-1368, durante a Dinastia Yuan, ocasião em que lhe foi acrescentada formas musicais mais refinadas e poesia e mímica.

Após esse período e com a ascensão da Dinastia Ming (1368-1944 DEC) desenvolveu-se um novo estilo que se tornou conhecido como Kunqu*, composto por músicas, danças e representações bem mais elaboradas. Esse requintado modelo reinou quase que absoluto por cerca de duzentos anos**.

Após esses dois séculos, embora já não fosse hegemônico, a sua popularidade ainda aumentou, graças aos novos adeptos das camadas mais populares que se encantaram com a nova modalidade de representação introduzida no estilo, chamada de Jingiu. A conquista seguinte foi a benção e o apoio que passou a receber da Corte Imperial, quando, então, passou a ser chamada de Ópera de Pequim.

Acomodando as influências que recebeu de suas antecessoras, Quinqiang e Kunqu, esse novo estilo tornou-se mais leve e simples e a adoção da acrobacia deixou-o mais dinâmico, bem ao gosto das massas menos cultas. A partir daí foi rebatizada como a Ópera Nacional da China.

Desde então, em linhas gerais, os seus enredos são compostos por quatro personagens, cujas performances adéquam-se à história que contam. São elas:

Sheng – o herói

Jing – a mulher

Representante do Mal – que pode ser de três formas: vocal, atuação teatral, acrobacia.

Palhaço – que pode ser sombrio, cômico ou espirituoso.

Através desse quarteto os Enredos, geralmente vinculados aos sentimentos humanos, são contados, cantados, dançados e representados acrobaticamente. Dentre várias, quatro histórias foram eleitas as mais populares. A saber:

Romance for the West chamber
The peony pavillon, que originalmente era encenada em cinquenta e cinco atos com mais de vinte horas de duração. Atualmente foi reduzida para se enquadrar às exigências da contemporaneidade.

The peach bloss fan – que demorou uma década para ser escrita.

The palace of eternal Youth – baseada na história real do imperador que se apaixonou por uma concubina. Aliás, a temática do “amor impossível” é recorrente no gênero.

Outro ponto que merece destaque na Ópera Chinesa são as maquiagens e as máscaras dos atores e atrizes.

A troca das máscaras, por exemplo, é feita com tamanha rapidez que, por si só, torna-se um espetáculo muito apreciado. Ademais a beleza e o colorido das mesmas, bem como a das pinturas corporais e faciais, criam uma atmosfera mágica que causa encantamento em todos os espectadores.

Essas máscaras e maquiagens seguem um padrão de cores que está intimamente ligado à crença sobre as propriedades das mesmas, significando, portanto, os vários aspectos emocionais e éticos que se quer representar. Tem-se, então:

Branco – é sinistro, diabólico, suspeito. Quem usa máscaras com essa cor é geralmente o interprete do vilão.

Verde – impulsivo, violento e sem autocontrole, o que é um defeito gravíssimo para os padrões de comportamento chinês.

Vermelho – nobre, valente, virtuoso. Em termos ocidentais, seria o “herói”, o “galã”.

Preto – imparcial, feroz, rude. Contudo, não é necessariamente um Ser maléfico, pois a sua brutalidade não é intencional.

Amarelo – ambicioso e nem sempre preocupado com as questões éticas.

Azul – inabalável, firme e leal.

Por tudo isso, é inegável o valor dessa manifestação cultural que o Oriente oferta ao mundo. Saibamos valorizá-la devidamente, pois é no resgate de nossas melhores criações que encontramos o próprio sentido da existência.

Nota do Autor* - aos interessados, oferecemos no final da obra um apêndice sobre o desenvolvimento do estilo Kunqu. A leitura do mesmo é opcional, não interferindo no desenrolar da obra geral.

Nota do Autor** - em 2001 a UNESCO declarou o Kunqu uma “Obra-Prima oral e intocável da humanidade”.
§§§
No próximo capítulo, veremos a história da Ópera no Ocidente e faremos um curto glossário com os termos mais utilizados no universo operístico.


Lettré, l´art et la Culture. Rio de Janeiro, Verão de 2015.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Óperas, guia para iniciantes - Parte I - Sinopse




- Filha, se eu gostasse de mulher gritando, ficaria em casa com a sua mãe...
- Talvez, Deus tenha se arrependido por ter criado o Mal e, então, deu a Ópera aos homens.

Apesar de vulgares, as sentenças em epigrafe resumem com perfeição o sentimento de amor e ódio que sempre permeou as relações dos homens com essa expressão artística. Posições visceralmente antagônicas, sem qualquer tipo de concessão: ou se ama ou se detesta.

A maioria que não lhe tem apreço diz que é um espetáculo complexo, ultrapassado, enfadonho e elitista. Em contraponto, a minoria que lhe admira diz que a ópera é um espetáculo atualizadíssimo, pois o que canta e encena são os temas que sempre habitaram o coração humano, como a morte, a vida, a paz, a guerra, a coragem a tibieza, a lealdade, a inveja e os outros assuntos que permeiam a vida e o mundo. Também rebatem a pecha de “complexa” ou “confusa”, citando o acompanhamento pari passu que é possível fazer através do “libreto” e rechaçam a crítica de “enfadonha”, com a grandiosidade da mise-em-scène e do esplendor das músicas que a compõe.

São argumentos válidos, é certo, porém, no quesito do distanciamento entre a população mais humilde e os espetáculos, o bom senso os obriga a reconhecer que o mesmo é real, tanto pelo preço dos bilhetes, quanto pela exigência tácita de luxuosas toilette’s, as quais, obviamente, não estão nos armários das pessoas comuns.

Mas tais empecilhos serão inelutáveis? Poderão ser revertidos?

Como se sabe, a ópera nasceu na antiga China (e com algumas variantes na Índia ancestral), mas só floresceu na Europa, e por extensão no Ocidente, após a Idade Média com a chegada do Renascimento que resgatou a grandiosidade dos temas da Mitologia grega, cuja apresentação exigia a suntuosidade de um espetáculo que reunisse a encenação teatral, a musicalidade superior e a beleza superlativa dos grandes balés, devidamente valorizados pelo esplendor das luzes, dos cenários, dos figurinos e dos demais elementos teatrais que não tardaram em acompanhar a evolução das composições, após terem apenas engatinhado nos toscos “Autos” medievais, de cunho religioso.
E com o tempo, essa mescla aprimorou-se e a fusão de música e encenação resultou nas formas magníficas que conhecemos.

Porém, nos países que sofreram a colonização europeia, a ópera trouxe a discriminação a reboque e desde então ela ficou destinada às “elites”, a uns poucos diletantes sinceros e aos muitos aspirantes à escalada social, que fingem apreciá-la apenas para poderem frequentar os espaços destinados aos “poderosos”, a quem prestam vassalagem em busca de eventuais mimos.

Todavia, não obstante essa discriminação absurda, o povo mais humilde encontrou meios de apreciar espetáculos que se assemelham à ópera tradicional como é caso, no Brasil, dos desfiles das escolas de samba no Rio de Janeiro, das danças em Parintins e doutras manifestações, que reúnem os elementos operísticos como a dança, o canto, os figurinos, os adereços etc.

São exemplos que demonstram que a suposta repulsa popular é muito mais motivada pelo pedantismo pseudointelectual e pelo esnobismo social e financeiro, de que por verdadeira aversão cultural.
Ademais, a existência de esporádicas apresentações em São Paulo e no Rio de Janeiro, que sempre contam com lotação máxima, e, principalmente, a existência do Festival Anual de Óperas em Manaus e em Belém (esse, com menor divulgação) com sucessivos recordes de assistência, comprovam a afeição popular ao gênero.

Por tudo isso é que nos propusemos a executar esse trabalho de divulgação, trazendo em linguagem clara as considerações pertinentes a essa magnífica expressão cultural.

Para tanto, faremos um breve relato de seu histórico e na sequência resenharemos as óperas mais conhecidas. Não entraremos em questões técnicas, tanto pela subjetividade de qualquer julgamento, quanto por não ser esse o intuito dessa obra, já que a nossa proposta, limita-se a ser uma “porta de entrada” que permita ao público leigo adentrar esse universo fabuloso.

É claro que não temos a pretensão de esgotar o assunto, mas atingiremos o nosso real objetivo se conseguirmos desmistificar as supostas inacessibilidades do gênero, dando a oportunidade para que o leitor e ouvinte comum possa conhecer o verdadeiro tesouro que nos foi legado por homens e mulheres especiais. Oxalá essa modesta contribuição renda frutos e acrescente momentos prazerosos nas vidas de todos que nos honram com a sua leitura.

Brasília, 14 de Janeiro de 2015.


Lettré, l´art et la Culture. Rio de Janeiro, Verão de 2015

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Tempos



QUARTOS

O silêncio da poesia que falta
preenche esse quarto estranho.
Tantos caminhos andei,
tantos corpos viajei
e em tão poucas almas fiquei
que agora só resta esperar
que outro anjo, embriagado de vida,
ensine-me a esquecer
os momentos vividos,
pois assim como tu,
o tempo não volta.


Lettré, l´art et la Culture. Rio de Janeiro, Verão de 2015.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Bertrand Livreiros, Lisboa

Comunico aos amigos (as) que meus livros agora já podem ser encontrados na Bertrand Livreiros, Lisboa, Portugal.

Convido a todos a conhecerem o meu trabalho.


quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Descartes e o Racionalismo - Parte XIV - Apêndice, o Empirismo - segunda parte



Descartes e o Racionalismo - Parte XIV -
Apêndice, o Empirismo - segunda parte

Após esse breve passeio pela história do Empirismo, veremos na sequência as suas diferenças mais importantes com a Filosofia da Razão.

O Racionalismo e o Empirismo modernos são duas correntes filosóficas que tem em comum a origem europeia, sendo o primeiro na França e o segundo na Grã Bretanha, e a época de nascimento, por volta dos séculos XVII e XVIII, na chamada Idade Moderna, a qual ficou caracterizada como a época em que se sacudiu o jugo obscurantista medieval através do resgate da antiga cultura helênica e persa, o que permitiu o florescimento nos campos das Artes, da Política e da Filosofia. Uma espécie de avant première do futuro Iluminismo que, posteriormente, rompeu em definitivo com algumas das mais sombrias práticas da Idade Média.

E nesses poucos aspectos resumem-se as convergências entre os dois Sistemas, pois as suas diferenças são de tal importância que ambas as tendências devem ser vistas como paralelas, sem qualquer ponto de contato. Contudo, o diferencial que representam deve ser compreendido mais como uma complementação de que como um simples antagonismo, pois essas diferenças tornaram-se a base para importantes avanços na seara do Pensamento.

Isto dito, passaremos a citar as principais visões de cada doutrina sobre o mesmo tema:

- A diferença mais aguda e visível entre os Sistemas é referente à importância que se dá aos Sentidos (tato, visão, audição, paladar e olfato), enquanto órgão de captação de informações. Para os Racionalistas os “Sentidos” não são confiáveis, por serem facilmente ludibriados e, portanto, as informações que carreiam não podem ser consideradas corretas ou verdadeiras, o que causa um saber deficiente e até equivocado. Para os Empiristas a questão da inconfiabilidade pode ser solucionada com o uso de “filtros mentais” que analisem a veracidade das informações obtidas. Ademais, sem as informações que as experiências sensoriais captam e transportam, torna-se impossível a obtenção de novos saberes, haja vista que para os adeptos do Empirismo as ideias inatas inexistem e as tradições, costumes etc. são meras reproduções de ideias anteriores.

- Partindo-se dessa primeira divergência, chega-se à questão do “a priori” e “a posteriori”. Ambos são termos latinos que designam a consciência de um fato antes e depois de ter havido uma experiência que o detecte. Os Racionalistas privilegiam o “a priori”, como nos casos do saber matemático (sabe-se que 2+2=4, independentemente de qualquer experiência anterior), enquanto que os Empiristas valorizam o “a posteriori”; ou seja, a posterior observação metódica dos “efeitos” que foram produzidos por uma determinada “causa”, como sucede, por exemplo, nos estudos sobre a Mecânica.

- Outra divergência importante é relativa à questão do “fenômeno”, pois, embora ambos concordem que o homem não consegue conhecer a essência da coisa, a “coisa em si mesma”, mas apenas o seu fenômeno (ie. aquilo que é perceptível, captável); para os Racionalistas esse conhecimento parcial acontece sobre o Intelecto do indivíduo e para os Empiristas, sobre os Sentidos do mesmo.

- Desse modo, em face das divergências apontadas, para os Racionalistas a Razão é o único órgão adequando e completo do Saber e isso implica que todo Conhecimento só pode ser considerado verdadeiro, válido, ser resultar do raciocínio. E para que essa racionalização seja inquestionável é preciso que tudo, absolutamente tudo, seja submetido ao crivo da “dúvida sistemática”, em conformidade com o “Método Cartesiano”. É, certamente, uma forma de tornar “racional” a própria realidade. Já para o Empirismo, cujo cerne é a crença de que todo Conhecimento provém da experiência (empeiria, latim), o Saber ou o “conhecimento do mundo” é mais um elemento psicológico, subjetivo, individual, sem vínculos necessários com a realidade objetiva, pois a sua aquisição provém da experiência externa e interna e não só da Razão individual.

- Por fim, observa-se que o Racionalismo ao admitir a existência efetiva de “ideias inatas”, de “intuições diretas”, de “deduções puramente intelectuais” e doutros elementos, digamos, “abstratos”, abarca com mais amplitude as questões metafísicas, subjetivas etc. Em contrapartida, o Empirismo vincula-se mais com as “Ciências Naturais”, com as questões práticas e políticas do homem e de sua Sociedade.
§§§

Como se disse antes, as divergências entre os dois Sistemas devem ser vistas mais como complementação de que antagonismo, pois se o estudo das questões mais elevadas é sempre um exercício indispensável, naquela quadra da história a contribuição do Empirismo foi decisiva, tanto por apresentar uma alternativa ao hegemônico Racionalismo, quanto por ter deitado as sementes para as futuras reformas políticas, religiosas e sociais que os pósteros lograram alcançar.
FIM

Lettré, l´art ET la Culture. Rio de Janeiro, Verão de 2015.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Descartes e o Racionalismo - Parte XIII - Apêndice "O Empirismo", parte 1


O Empirismo – Apêndice “O Empirismo”
Histórico
Primeiramente será oportuno desfazer um equívoco que é comum e que consiste em apontar a origem desse sistema filosófico na Idade Moderna (séculos XVII e XVIII), nos domínios da Grã Bretanha.
O fato de ser frequentemente associado aos filósofos empiristas britânicos decorre do fato de que foi naquela nação que aconteceu o seu apogeu, pois ao se oporem ao Racionalismo de Descartes, esses pensadores elevaram-no ao patamar dos contraditórios que fazem com que a Filosofia seja superior a qualquer outra disciplina, justamente por permitir a multiplicidade de pontos de vista sobre um mesmo tema.
Na verdade, essa corrente de pensamento (vinculada a Epistemologia, os estudos sobre como acontece o processo de conhecimento humano) teve início nos primórdios da Filosofia, na Grécia clássica, onde, entre outros, encontrou em Aristóteles um ardoroso defensor. E o seu desenvolvimento através de homens geniais como Avicena, Ockham, Francis Bacon, Hobbes, Berkeley, Locke, Hume, Maquiavel, Stuart Mill e vários outros, consolidou-a como uma das mais valiosas ferramentas para a solução das questões filosóficas.
Como se sabe, o Empirismo é a tendência filosófica que afirma serem os Sentidos (tato, visão, audição, paladar e olfato) o principal – e talvez o único – meio utilizado pelo Ser humano para adquirir conhecimentos.
Por consequência, os empiristas negam a existência de ideias inatas, de tradições, de costumes etc. sob o argumento de que essa classe de pensamentos é apenas o resultado de experiências sensoriais anteriores. Alguns, como Hume, negam inclusive a existência da “Lei da Causalidade (ou de Causa e Efeito), afirmando que só por hábito é que se afirma que determinado efeito sucederá a determinada causa. Veja-se o seguinte exemplo:
“Afirma-se com convicção que o Sol nascerá amanhã... mas essa afirmativa baseia-se apenas no fato de que isso aconteceu nos dias anteriores e não em provas lógicas e irrefutáveis de que o mesmo ocorrerá no futuro... o homem acostumou-se ao nascente diário e por isso pressupõe que ele se repetirá eternamente.”.
Outro sábio destacado, Locke (considerado o fundador do “Empirismo Moderno” e o principal opositor ao “Racionalismo Cartesiano”), afirmou em uma de suas obras, “Ensaio sobre o entendimento humano”, que a mente do homem é como uma “tábula rasa (literalmente: ardósia em branco) aonde vão sendo gravadas as ideias1, por meio das experiências sensoriais.
E o Empirismo ganhou sofisticação e um grande número de adeptos, dentre os quais se destacou o Bispo irlandês, Berkeley que resumiu a sua teoria – chamada posteriormente de “Idealismo Subjetivo” – com a conhecida máxima: “ser é ser percebido”.
O religioso admirava profundamente o trabalho de Locke, mas não concordava com a ideia de que a mente registrava diretamente o objeto material que os Sentidos haviam percebido. A seu ver, a “coisa, o objeto” não pode ser conhecido em si mesmo e, por isso, o homem só conhece a “ideia” que fez do mesmo.
Conhece as qualidades e propriedades do objeto (cor, tamanho, peso etc.) através das revelações que acontecem durante o processo de percebimento, mas não pode conhecer a “essência” da coisa ou, como diria Kant, a “coisa em si mesma”.
Por isso, para ele, “ser é ser percebido” já que aquilo que não estimula ou provoca as sensações não existe, não é. O que existe para o homem, portanto, é apenas “um feixe de sensações”.
Contudo, Berkeley não caiu em um individualismo inócuo, em uma tola “subjetividade individualista”, pois se assim fizesse teria que admitir que “tudo só existiria para a mente de cada observador”; uma situação que a simples observação da realidade material diz ser impossível, haja vista as similaridades existentes no mundo.
E para não cair nesse abismo, ele retomou a sua fé e afirmou que existe uma “consciência ou mente cósmica” a quem se chama de Deus. Dessa sorte, tudo é percebido por “Ele”, fazendo com que o mundo exterior (tudo aquilo que está fora do homem) exista concretamente, ainda que a sua essência não possa ser conhecida pelo Ser humano.
Paralelamente, David Hume diferenciou os tipos de Conhecimentos em duas vertentes:
a)      Matérias de Fato
b)      Relação de Ideias.
O primeiro tipo relaciona-se com a “Percepção Direta ou Imediata”, sendo, portanto, a única forma de conhecimento verdadeiro.
O segundo tipo é uma dedução feita a partir das ideias resultantes de experiências sensoriais acontecidas. A “nova ideia” é verdadeira e necessária (no sentido filosófico) porque foi originada por um Raciocino lógico, dedutivo e demonstrativo; porém nada acrescenta ao conjunto de saberes já existentes, haja vista ser uma mera reelaboração de ideias anteriores.
Essa diferenciação permitiu-lhe questionar uma série de “Verdades”, de “Leis (como a citada Causalidade)” etc. e, principalmente, concluir que as informações produzidas a partir dos Sentidos (tato, visão, audição, paladar e olfato) são indispensáveis para a aquisição de novos conhecimentos.
Ademais, com essa valorização das Percepções ele ofereceu um valioso contraponto ao descrédito que as Sensações recebiam dos Racionalistas.
No correr do tempo, o Empirismo foi adotado por outros Pensadores e modificado pelos mesmos de acordo com as suas teorias. É o caso, por exemplo, do Positivismo de Comte (Auguste, 1798-1857, França) que apesar de sua amplitude, não oculta que há em sua base generosas porções de ideias empiristas.
Atualmente o “Empirismo Lógico” é também chamado de “Neo Positivismo” em consonância com os elementos-chave da doutrina pregada pelos sábios do “Círculo de Viena” que o criaram; e com o seu uso nas ciências, haja vista ser consensual que as teorias cientificas devem ser baseadas na observação “Positivista, Empírica” do mundo, em vez de se lastrear com elementos da intuição ou de fé, de credulidade.
O Empirismo é uma doutrina que encontrou e que ainda encontra vigorosas resistências, mas o certo é que o “Método Empírico” influenciou toda uma geração de estudiosos, particularmente na Grã Bretanha e nas regiões que sofriam a sua dominação ou influência, como é o caso dos Estados Unidos onde, tempos depois, embasou, direta ou indiretamente, doutrinas como o Pragmatismo, o Utilitarismo e similares.
Além disso, foi a antítese necessária para que o Racionalismo não solapasse qualquer outra forma de pensar, criando uma perigosa ditadura intelectual. São motivos, portanto, que o fazem merecedor do prestígio e do respeito de que desfruta.
§§§
Na segunda parte desse apêndice abordaremos as diferenças entre o Empirismo e o Racionalismo.
Nota do Autor1 – para Locke as ideias são de duas categorias: Ideias Simples como, por exemplo, “amarelo”, “ouro” etc. Ideias Complexas, as associações feitas com as “ideias simples” como, por exemplo, “ouro” que é um material “amarelo”.
Lettré, l´art ET la Culture. Rio de Janeiro, Verão de 2015.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Um milhão de amigos


Agradeço aos editores e aos patrocinadores pela oportunidade e pelo espaço concedido e, sobretudo, aos amigos (as) leitores pela honra que me deram com as vossas leituras. Muito obrigado.


Fabio Renato Villela - Lettré, l´art et la Culture.


Rio de Janeiro, Janeiro de 2015.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Descartes e o Racionalismo - Parte XII - A Metafísica



Como dissemos anteriormente, o “Método Cartesiano” foi elaborado muito mais para atender as questões cientificas, materiais, que para os assuntos classificados como “metafísicos”, “espirituais”, “abstratos” etc.

Assim, para melhor se degustar o ideário de Descartes acerca desses temas é preciso estudar a sua obra “Metafísica”, a qual, obviamente, serve de base para as digressões que seguem.

Antes de tudo será oportuno alertar ao leitor para esteja aberto para a mudança nos conceitos que serão observados, pois a genialidade do filósofo conseguiu abarcar com a mesma eficiência todo o conjunto da mente humana.

Desse modo, observa-se primeiramente que a célebre sentença “Cogito, ergo, sun” ou “Penso, logo, existo” deixa de ser tratada como um produto do raciocínio e passa a ser vista como uma intuição; ou seja, aquele tipo superior de sabedoria que habita a alma ou a mente do homem. O conhecimento que está além da reflexão, do aprendizado e que para os crédulos é uma dádiva divina e para os incrédulos é a resultante da “memória da espécie” e/ou de propriedades ainda ignoradas do sistema nervoso, do cérebro etc.

Mas, independentemente da crença sobre a sua origem, o fato é que a intuição é uma realidade. Uma forma de Saber que todos utilizam em momentos determinados, ainda que de modo inconsciente ou involuntário. E foi, pois, a intuição o elemento chave que Descartes utilizou para montar o seu Sistema Metafísico, sem abdicar, é claro, de sua principal ferramenta: a “dúvida sistemática”, a qual ele transformou em “instrumento auxiliar” para a sua investigação, haja vista que nessa quadra o “ato de duvidar de tudo” tem um alcance muito maior de que aquela “dúvida metodológica” que os cientistas usam em suas reflexões. O filósofo utilizou-o para questionar sistematicamente absolutamente tudo que seja concreto e abstrato, mesmo que o motivo para duvidar fosse insignificante.

Ele iniciou seus estudos, duvidando dos próprios Sentidos (1) (tato, visão, audição, paladar e olfato), os quais, a seu ver “nos enganam frequentemente”. Em suas palavras:

“Duvidemos dos sentidos, uma vez que eles frequentemente nos enganam, pois, nunca tenho certeza de estar sonhando ou de estar desperto! (...) Quantas vezes acreditei-me vestido com o robe de chambre, ocupado em escrever algo junto à lareira; (e) na verdade, estava despido em meu leito”.

Na sequência as suas dúvidas voltaram-se para as “Certezas Cientificas (2)” e para as próprias “Evidências Matemáticas (2)” sob o argumento de que “um gênio do mal ou a até mesmo a divindade poderia estar enganando-o por simples galhofa ou por motivos desconhecidos”.

Um argumento que à primeira vista pode soar como bizarro, pois, afinal, do chamado “Pai do Racionalismo” não se esperaria essa aproximação com crenças religiosas, ou míticas ou mitológicas. Todavia, novamente se faz necessário recordar que Descartes tratava a existência de Deus como um fato consumado, sobre o qual não se admitia sequer que fosse questionado, tanto por crença genuína, quanto por temer as represálias dos Católicos, já que o poder da Igreja não podia ser subestimado.

Seria preciso fazer algumas concessões para que se pudesse preservar o conjunto. Um comportamento, aliás, que não nos é distante, como se pode ver na história verídica que se conta abaixo, a qual serve para exemplificar algumas contradições aparentes nos pensamentos dos grandes sábios.

“Há cerca de quarenta anos, no Brasil, corria-se o risco de se ter confiscada uma obra de arte da Escola Cubista (de gênio como Picasso, por exemplo), porque os Ditadores burgueses e militares que usurparam o poder no País imaginavam que tais obras “Cubistas” traziam mensagens subversivas da Ilha de Cuba (sic). A concessão feita por marchands, proprietários e apreciadores daquele tipo de pintura foi a de classificá-las genericamente como Arte Moderna”.

Ademais, é preciso reconhecer o acerto do filósofo em duvidar das “Certezas Cientificas”, pois como se sabe, cada avanço na tecnologia implica na negação de “verdades” que até então eram absolutas. As recentes descobertas dos “exo-planetas” é um belo exemplo disso, haja vista que enterra as crenças absurdas a respeito da exclusividade de vida na Terra, que só vigoravam graças à ignorância a que o “gênio do mal” da desinformação condenava a humanidade. E o mesmo acontece na Matemática, embora de forma menos aparente, que frequentemente é confrontada pelas “Ciências Quânticas”; o que leva as mentes superiores a concordarem que os seus pilares não são tão graníticos como sempre se acreditou.

Dessa sorte, vê-se a grandiosidade mental de Descartes ao eleger a dúvida como a única ponte confiável para a verdade, pois se de tudo se pode (e se deve) duvidar; é impossível questionar essa mesma “capacidade de duvidar” e, por consequência, a existência do proprietário dessa capacidade.

Mesmo que o citado “gênio do mal” colocasse falsidade em todas as outras conclusões, nessa, ele não lograria êxito.

Assim sendo, considerando-se a sua amplitude, o célebre “Cogito” ultrapassa o “reino das ideias” e não deve ser considerado como a origem (2) do chamado “Idealismo Filosófico”, cujo cerne é o sujeito que pensa e as suas ideias, como a base de todo conhecimento.

Na verdade, a sua associação é com a Ontologia, já que ele comprova a efetividade de Ser, de Existir; para além das simples aparências, do mero conjunto de “pensamentos e homem que pensa”.

Nesse nível mais “espiritual”, mais “essencial”, Descartes assumiu uma face, digamos, mais Solipsista (3), pois a “sua certeza” restringia-se a si mesmo, ao seu próprio existir, ser. Ele só tinha a certeza de que o seu “ser pensante” existia indubitavelmente, mas não poderia ter a mesma convicção em relação aos demais. Em suas palavras:

“Pois, sempre duvido desse objeto que é (o) meu corpo; a alma é mais fácil de ser conhecida que o corpo”.

E como o Solipsismo remete à solidão, foi através do aprofundamento da mesma que ele conseguiu escapar-lhe, pois, surgiu-lhe, então, a extraordinária ideia da “Perfeição”, do “Infinito” e de Deus. A partir daí a sua solidão termina, já que outro Ser passa a ter a sua existência reconhecida como absolutamente certa. No mínimo, “dois Seres” existiriam de forma inquestionável: ele mesmo e Deus.

Mas como ele conseguiu deduzir essa segunda existência comprovada, usando apenas o raciocínio? Vejamos:

(Peço licença ao leitor (a) para usar a “primeira pessoa” nesse trecho com o objetivo de facilitar a exposição)

“Mesmo sendo finito e imperfeito, ainda assim tenho a clara noção de que existe um Ser perfeito e infinito e por isso eu tenho que admitir que foi ‘Ele’ quem colocou esta noção sobre ‘Si’ em minha mente, logo, ‘Ele’ existe indubitavelmente. E, note-se, que sendo um “Ser Perfeito” é um “Ser Bondoso” e que por isso não colocaria falsas ideias em minha mente, o que me garante que elas são verdadeiras. Assim sendo, eu posso crer na efetiva existência de tudo”.

Perceba-se que Descartes fez o caminho inverso ao de Santo Tomaz, que pretendeu comprovar a existência divina através da existência do Universo que os Sentidos (tato, visão, audição, paladar e olfato) captam; enquanto que Descartes abdicou das Sensações, por saber de suas fragilidades, e se utilizou apenas do exercício reflexivo para escorar a sua conclusão. Em suas palavras:

“Compreenda-se que, para tanto, não tenho o direito de guiar-me pelos sentidos (cujas mensagens permanecem confusas e que só tem um valor de sinal para os instintos do ser vivo). Só posso crer no que me é claro e distinto (por exemplo: na matéria, o que existe verdadeiramente “é” o que é claramente pensável, isto é, a extensão e o movimento)”.

Contudo, como não poderia deixar de ser, a argumentação de Descartes encontrou oposições e alguns o criticam sob a alegação de que ele se limitou a um círculo vicioso, onde: A evidência me conduz a Deus e Deus me garante a evidência. Porém, os seus adeptos logo rebateram, dizendo que a “evidência” cartesiana seria de outra natureza; seria a “evidência ontológica” que através do “cogito” – da dúvida sistemática –também fundamenta os objetos matemáticos (2+2=4, sempre) graças ao seu rigor.

Ainda sobre essa questão, na “5ª Meditação”, Descartes atualiza com cores mais claras e nítidas o famoso “argumento ontológico” de Santo Anselmo (Anselmo de Aosta ou da Cantuária, Itália atual, 1033-1109) ao afirmar que:

“Não mais se trata de partir de mim, que tenho a ideia de Deus, mas antes da ideia de Deus que há em mim. (...) Apreender (ou captar) a ideia de perfeição e afirmar a existência do Ser perfeito é a mesma coisa. (...) Pois uma perfeição não existente não seria uma perfeição”.

§§§

Aqui chegados, damos por findas as considerações sobre Descartes e o Racionalismo, registrando nossa profunda admiração por esse genial Pensador que contribuiu vigorosamente para que o homem se libertasse das amarras do obscurantismo e vislumbrasse a realidade com mais veracidade.

Na sequência, convidamos o amigo leitor (a) para nos acompanhar no apêndice que segue e que trata do Empirismo, o sistema filosófico desenvolvido em oposição ao Racionalismo e que por muito tempo balizou as concepções do Pensamento moderno do Ocidente.


Rio de Janeiro, 29 de Dezembro de 2014.

Nota do Autor 1 – ao contrário dos “Empiristas” que lhe foram antagônicos incensavam como a fonte exclusiva do Saber. Veja apêndice sobre o Empirismo, que segue.

Nota do autor 2 – e também porque o Idealismo tem a sua origem nos primórdios da Filosofia grega, sendo as suas versões “modernas”, a rigor, uma atualização daqueles postulados.

Nota do Autor 3 – Solipsista – a situação ou o indivíduo que se volta completamente para o seu interior, desprezando qualquer contato externo.


Lettré, l´art ET la Culture. Rio de Janeiro, Verão de 2014.

Descartes e o Racionalismo - Parte XI - O Método


Ao desenvolver o seu “método”, Descartes visou mais aos assuntos científicos que aos metafísicos e, por isso, algumas questões não foram contempladas pelo mesmo, as quais, no entanto, estão soberbamente tratadas no livro “Metafísica”.

Como já se disse, o livro que contém essas suas considerações, “Discurso sobre o Método”, foi alvo de variados elogios e ainda hoje é visto e consultado com regularidade por todos que buscam meios de pesquisas e de estudos que estejam isentos de elementos questionáveis.

Inicialmente exporemos de forma sintética os quatro pontos em que se baseiam a metodologia e logo adiante voltaremos aos mesmos para complementar as observações. A saber:

1) Verificar
2) Analisar
3) Sintetizar
4) Enumerar

O célebre “método cartesiano”, a princípio, pode parecer óbvio tal é o nosso costume com ele. Geralmente esquecemos que essa maneira de analisar e de se chegar a conclusões seguras praticamente inexistia antes de Descartes, cabendo-lhe, portanto, o mérito de ter organizado na Filosofia Moderna as funções racionais, colocando-as a serviço da “Verdade”.

Ao criar o seu “método”, o filósofo pretendeu estabelecer uma metodologia universal que pudesse ser utilizada em qualquer assunto. Que fosse capaz de provar com rigor as teses que vão da “existência de Deus”, do “primado da alma sobre o corpo” até o “mecanismo da corrente sanguínea”.

Ele buscava, desse modo, preparar os seus contemporâneos para que aceitassem os novos fatos que as Ciências demonstravam e que, à época, eram verdadeiros tabus, como, por exemplo, “o movimento da Terra girando ao redor do Sol”.

E por serem temas tabus, ele sabia que o seu sistema só poderia ser inspirado pela Matemática para que o rigor que nela se observa, pudesse predominar no mesmo. Sabia da necessidade de que ao seu sistema, nenhuma objeção real ou irracional pudesse ser contraposta. Seria, portanto, imperioso que o presidisse “as longas cadeias da Razão”.

A partir dessa necessidade, ele propôs que (voltando às quatro regras):

a) A primeira regra seria a Evidência; ou seja, só admitir como “verdadeiro” aquilo que for evidentemente indubitável. Consequentemente não admitir que “nenhuma coisa, ou fato, seja considerada verdadeira se não puder ser reconhecida como tal”; e, para tanto, deve-se evitar toda precipitação de julgamento, bem como toda prevenção e todo preconceito ou pré-julgamento, pois tais atitudes poderiam induzir ao erro.

b) A segunda regra é a análise que deverá ser feita em cada uma das partes que formam o “Todo”, previamente desmembrado.

c) A terceira regra é a da síntese, organizando a reflexão a partir das partes mais simples e fáceis de conhecer e progredir conforme o grau de dificuldade até se conseguir analisar o “todo” reagrupado.

d) Por fim, a quarta regra, que consiste em catalogar minuciosamente os princípios e as conclusões para se ter a certeza de que nada foi omitido ou esquecido.

Com essas quatro regras, Descartes legou ao mundo uma forma de se buscar a “Verdade” que é reconhecida como válida e importante, até nos dias atuais.

Para muitos, nela está a mais pura manifestação do “Racionalismo”, pois, se antes, sentenças do tipo: “Aristóteles afirmou que...” eram consideradas absolutamente exatas, apenas por terem sido proferidas pelo estagiarita, partir da assunção de sua Filosofia, estabeleceu-se que nem Aristóteles poderia ter a pretensão da infabilidade, não obstante o respeito devido aos grandes mestres.

Tudo, absolutamente tudo, para ser considerado verdadeiro e válido, deveria passar pelo crivo da racionalidade.

A ele, pois, se deve o “direito” de se questionar o que era inquestionável.

Contudo, seus críticos não deixaram de notar que ele excluiu dessa obrigatoriedade dois assuntos da maior importância: a Política e a Religião, que só foram submetidos ao julgamento da Razão através dos Filósofos posteriores, como Voltaire, por exemplo.

É, certamente, uma omissão grave e que provavelmente decorreu de sua posição conservadora em Política e de sua firme convicção religiosa.

Porém, ainda assim, o seu Sistema conservou todo o seu valor, pois ao descartar as informações oriundas das Sensações (captadas pelos Sentidos [tato, visão, audição, paladar e olfato]) ele livrou o homem dos enganos que são típicos das falsas percepções.

As evidências sensíveis e empíricas (captadas pelos Sentidos e só depois racionalizadas) não são, realmente, confiáveis, haja vista o quanto os Sentidos podem ser ludibriados.

Apenas as “ideias da Razão (ie. os pensamentos racionais)” são claras e seguras. O ato de racionalizar1 é a única maneira de se chegar à “Verdade essencial ou primeira”.

No próximo capítulo falaremos sobre Metafísica de Descartes e sondaremos as suas opiniões acerca das questões mais fundamentais do homem.

Nota do Autor-1 – o “ato de racionalizar” se inicia quando a Intuição percebe diretamente os “princípios primeiros” e a Dedução veicula a evidência da “natureza simples (ie. da essência)” de algo ou de um fato.


Lettré, l´art et la Culture. Rio de Janeiro. Verão de 2014.

Descartes e o Racionalismo - Parte X - A Geometria Analítica



Desde a primeira infância, Descartes já dava mostras de seu apego às coisas da matemática. Não era raro encontrá-lo absorvido em atividades lúdicas com jogos aritméticos, em montagem de conjuntos, em adições, subtrações etc.

Posteriormente, no colégio em La Flèche, esse gosto progrediu e se consolidou, mas, então, a afeição pela Matemática já não era apenas pela matéria em si, mas, principalmente, por ser a mesma um tipo de espelho no qual a Filosofia deveria se mirar para produzir respostas tão exatas e passíveis de comprovação quanto são as matemáticas.

E o seu interesse não se esgotou na vida escolar, por isso, ao entrar na casa dos vinte anos, frequentou várias “Sociedades de Matemática” em Paris e noutras localidades, além de manter o mesmo entusiasmo enquanto servia na vida militar.

Depois, em 1637, num pequeno texto chamado de “Geometria”, inserido no livro “Discurso sobre o Método”, ele deu à humanidade a célebre “Geometria Analítica”, cuja importância ainda hoje é reconhecida.

No próximo capítulo abordaremos o “O Método”, que para muitos é marco inicial da Filosofia Moderna.


Lettré, l´art et la Culture. Rio de Janeiro. Primavera de 2014.

Descartes e o Racionalismo - Parte IX O primeiro filósofo moderno - Cogito Ergo Sun



Como já foi dito em várias ocasiões, o significado original do termo “filósofo” remete ao conceito de “amigo do saber, dos estudos” e é desse modo que o título dado a Descartes deve ser entendido, pois a sua genialidade não ficou limitada à Filosofia teórica, abstrata, voltada para as questões metafísicas, elementares, primeiras, essenciais etc.; embora, a sua contribuição nesse campo tenha sido de tal magnitude que fica difícil imaginar o desenvolvimento da disciplina sem a sua participação.

Antes, porém, de falarmos sobre a sua enorme contribuição à disciplina do pensamento, falaremos de seu trabalho no campo das ciências, onde ele imperou absoluto até a chegada de Sir Isaac Newton (Grã Bretanha, 1643-1727) com suas geniais descobertas e soluções.

Para Descartes, o universo seria completamente preenchido, inexistindo, portanto, qualquer forma de vazio. Tese, aliás, que atualmente é defendida pelos adeptos da “matéria escura”, que permearia todos os espaços existentes entre os corpos luminosos e os iluminados.

E fiel às suas convicções religiosas, ele afirmava ser o cosmo uma criação de Deus, dotado de mecanismos capazes de controlá-lo perpetuamente, sem a necessidade de Sua intervenção direta. Argumento que posteriormente serviu de base para que Spinoza desenvolvesse seu magistral ideário.

Outra contribuição importante no campo das ciências foi a atualização que ele fez do conceito platônico de divisão da realidade em:

Res Cogitans – relativa à mente (cogito, cogitar), à consciência, ao espírito, à alma.

Res extensa – relativa à matéria, ao físico, ao concreto.

E foi no terreno da matemática que o seu contributo atingiu o máximo, tanto que os antigos e atuais próceres do assunto não hesitam em reconhecer a importância de sua “Geometria Analítica”, já que antes de sua descoberta, a álgebra e a geometria eram consideradas ramos totalmente separados, impossibilitando a resolução de vários problemas teóricos e de várias questões práticas, como as de engenharia, por exemplo.

Ao ensinar como transpor os problemas da geometria para a álgebra, através de um sistema de coordenadas, ele, seguramente, proporcionou inumeráveis avanços nas ciências, como bem comprova o fato de que seu sistema serviu de base para as pesquisas de homens como Leibniz e o próprio Newton.

E a grandiosidade de sua inteligência fica ainda mais evidente quando se recorda que essas descobertas foram citadas por ele sem qualquer vaidade, cerimônia ou pompa, sendo colocadas em sua obra “Discurso sobre o método”, apenas como simples “exemplos”.

Por fim, retomando a Filosofia teórica, veremos que o seu “ceticismo metodológico”, vai além do embasamento científico e se constitui em poderosa ferramenta para as investigações metafísicas, filosóficas.

O seu sistema (totalmente diferente do antigo sistema dos céticos) parte do pressuposto de que o “ato de duvidar” existe realmente; mas, o restante só pode ser considerado efetivamente existente se puder ser comprovado de maneira absoluta, por intemédio de reflexões e de deduções lógicas, racionais. 

Baseado nessa premissa, o filósofo buscou provar a efetiva existência do próprio “eu” através do exercício da dúvida, dando origem ao famoso: Cogito, ergo Sun; ou seja, porque eu tenho a capacidade de duvidar, eu sou (eu existo).

Contudo, a “dúvida sistemática” não foi a sua única ferramenta e, por isso, em relação à efetiva existência de Deus, ele partiu da constatação de que há naturalmente na mente do homem a ideia de um “Ser perfeito”, mesmo sendo ele, o homem, um Ser imperfeito. Esse reconhecimento de que existe uma “perfeição” já seria, a seu ver, a comprovação suficiente da existência da divindade. Uma conclusão absolutamente crível por ser oriunda de uma dedução racional e lógica e não uma ideia imposta com base apenas em suposições religiosas. 

Aqui importa notar que mesmo que se discorde dessa sua conclusão, há que se louvar o fato dele buscar essa comprovação racional, o que foi um considerável avanço para a época. Uma respeitável ruptura de paradigma que apenas por si justifica o epíteto de “Pai da Filosofia moderna” que lhe foi conferido.

No próximo capítulo trataremos de outra de suas grandes contribuições ao saber do homem, a geometria.


Lettré, l´art et la Culture. Rio de Janeiro. Primavera de 2014.