segunda-feira, 14 de julho de 2014

Schopenhauer e o Idealismo Alemão - Parte XII - o Extase Religioso


Schopenhauer teve pouquíssimo contato com a religião durante a sua infância, mocidade e parte da maturidade. Em consequência, a sua visão acerca da igreja e do clero resumia-se na severa censura que ele fazia ao dogmatismo da doutrina e ao parasitismo dos religiosos. Tornou-se, célebre, aliás, a sua afirmação de que “nos teólogos, encontramos, em muitas nações, o poste em são amarrados os condenados a serem queimados vivos”. Posteriormente, disse que a religião seria uma “reles metafísica das massas”.
Contudo, ao acumular anos e sabedoria a sua visão crítica foi sendo abrandada e ele passou a ver certa semelhança entre o êxtase propiciado pelas Artes e aquele proporcionado pela prática religiosa.
A partir de então, ele começou a ver um sentido mais profundo nos rituais eclesiásticos e começou a desenvolver estudos sobre o tema, concluindo, por fim, que a Religião nada mais é que o Pessimismo filosófico.
Embora seja uma simples cópia mal elaborada dos ensinamentos de Platão (os quais, por sua vez, são uma adaptação bem feita do Hinduísmo) o Cristianismo, por exemplo, prima em “negar a vida” em prol da “salvação”. É o caso do “Pecado Original”, onde a afirmação da vida ou da Vontade, por intermédio da reprodução, é execrada com rigor, enquanto se louva a “negação da vida” através da abstinência sexual. Noutro trecho vê-se semelhante negação com a pregação dos jejuns ou martírios físicos, cujo objetivo é enfraquecer o corpo e conseguintemente o Desejo.
E essa aproximação entre as doutrinas religiosas e a Filosofia Pessimista mais se evidência nas religiões originais, ou seja, no Hinduísmo com as suas derivações.
Dessa maneira, pode-se ver que o Budismo é mais incisivo que o Cristianismo porque nele a destruição da Vontade é o cerne principal da crença. E que o Jainismo supera a ambos, chegando ao ponto de considerar o suicídio por inanição como um dos atos religiosos mais louváveis, já que com a morte, cessa todo Querer. Caracteristicamente, o Hinduísmo e as outras religiões orientais diferem das ocidentais por serem mais profundas, intuitivas e honestas em sua interpretação do mundo; e graças a isso elas podem tratar desses temas sem os subterfúgios hipócritas do Cristianismo que escolheu um indivíduo apenas para “negar a vida” ao morrer na cruz. E também graças a essas características, elas podem conviver pacificamente com a certeza de que a individualidade é uma tola ilusão, já que, na verdade, “tudo é um”. Podem aceitar que o Céu e o Inferno estão dentro de cada mente, sendo o Paraíso o estado de Nirvana, constituído pela redução ao máximo possível de todo desejar, enquanto que o Inferno é exatamente o oposto, ou seja, o paroxismo da escravidão à Vontade, ao Desejo e ao Tédio.
E como são apenas as pessoas geniais, no sentido anteriormente descrito, que conseguem atingir o Nirvana, apenas elas desfrutam da paz que um objeto artístico pode proporcionar aos homens comuns; levando, é claro, a vantagem de viverem essa pacificação interior por longos períodos, ao passo que os demais, experimentam-na apenas enquanto estão sob a influência da Arte.
Desse modo, Schopenhauer resgatou aquele que talvez tenha sido o objetivo original do sentimento religioso, isto é, fazer o homem compreender que os Desejos egoístas são a causa de sua infelicidade perene.

Produção e divulgação de Pat Tavares, lettre, l´art et la culture, assessora de Imprensa e de RP., do Rio de Janeiro em Junho de 2014.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Schopenhauer e o Idealismo Alemão - Parte XI - A Arte





A Arte

A princípio, pode parecer uma pergunta tola, mas, afinal, para que serve a Arte?
Muitos, certamente, responderão que serve para “elevar o espírito”. É uma resposta clássica e quase sempre oriunda da pura intuição, pois, a Arte efetiva, que não deve ser confundida com seus indigentes arremedos*, quase nunca está presente na vida do homem comum, fato indicativo de que a resposta não foi dada após alguma reflexão. Outros, com alguma cultura a mais, responderão que a sua serventia está em manter em nossa mente a lembrança do “Mundo das Ideias”, revelado por Platão, de onde viemos.
Mas, não obstante a origem que lhe seja atribuída, a Arte é um componente das sociedades humanas e pode-se afirmar que nela está aquilo que, realmente, pode nos qualificar como uma espécie superior, embora, como dissemos, a sua apreciação e difusão esteja restrita a poucos.
Para Schopenhauer a função da Arte é nos libertar da escravidão dos Desejos; do jugo inexorável da Vontade; do querer egoísta de bens materiais e do horror tenebroso do Tédio que advém da satisfação da tirana vontade.
Para ele, a contemplação da Verdade (da essência) que está incrustada em todo objeto artístico é a única coisa que nos liberta do Querer, pois só quando estamos admirando um quadro, uma escultura ou quando ouvimos uma sinfonia, um poema, um romance etc. é que nos cessa o Desejo e o Tédio.Apenas quando desfrutamos desses êxtases é que conseguimos voar para outras dimensões que sequer imaginávamos existir.
Podemos observar que o objetivo da Ciência é o especifico, o individual em suas múltiplas formas, enquanto que a Arte visa o universal que está oculto naquele individual. Observa-se, por exemplo, que um poema busca contar e cantar um sentimento que seja sentido de forma semelhante por todos, ainda que resguardadas as individualidades. Winckelmann disse a respeito: “Até mesmo o retrato deveria ser o Ideal do individuo”; ou seja, deveria retratar a Ideia, a essência do fotografado.
E vários outros Pensadores compartilharam dessa tese, pois, em uma gravura de animais, por exemplo, considera-se o mais bonito, justamente aquele que for o mais característico, porque é ele que representa toda a sua espécie. A obra de arte, na verdade, obtém mais sucesso quanto maior for a sua proximidade com a Universalidade ou Generalidade do elemento que expõe. Os grandes mestres ao retratarem um sujeito não visam reproduzi-lo fotograficamente, mas buscam mostrar, ao máximo possível, as características nele existentes, que sejam as mesmas do restante. O célebre sorriso da Monalisa de Leonardo da Vinci demonstra sobejamente essa constatação.
Por isso, para muitos, a Arte é superior à Ciência na medida em que esta progride através do acúmulo de informações intelectuais, enquanto que a Arte atinge a sua finalidade de modo direto e imediato por intermédio da Intuição, ou das Reminiscências que Platão afirmou.
Se para a Ciência basta o esforço e algum talento, para a Arte é imperioso que exista a genialidade, a qual, aliás, não fica restrita ao artista executor, sendo, também, um requisito indispensável para quem degusta o objeto artístico. O encontro entre o gênio que produz e o indivíduo genial que aprecia a obra artística é o que proporciona a beleza da mesma, seja ela avistada dentro de um palácio ou de um casebre. O prazer sentido provém dessa contemplação sem a influência da Vontade, do Desejo.
Para o artista que pinta a “Enseada de Botafogo” e para quem é capaz de apreciar a sua pintura, os acidentes geográficos ali desenhados são mais que simples acidentes materiais; são, na realidade, evocativos de uma beleza que dispensa posses para ser desfrutada.
E dentro desse contexto, até os acontecimentos trágicos ganham outra dimensão, como se observa, por exemplo, em “Guernica” do genial Pablo Picasso. Ante o horror da cidade bombardeada durante a Guerra Civil Espanhola, ergue-se a trágica beleza pintada pelo Mestre, como uma reafirmação de que nem toda a humanidade é composta por aquelas feras que se esfacelam. Levanta-se como um grito de que sempre haverá uma esperança.
De alguma maneira, a Arte suaviza a fealdade da vida e da servidão a que o homem é submetido, ao mostrar o que existe de Universal por trás da bestialidade individual. A propósito, disse Espinosa:
“Na medida em que a mente vê as coisas em seu aspecto eterno, participa da eternidade”.
Assim sendo, não é difícil aceitar a explicação de que por isso a Arte, em seu sentido efetivo, seja um privilegio para poucos, já que a Natureza produz apenas os poucos gênios que são necessários para o desenvolvimento da humanidade, que, ao cabo, é ela mesma. Para a Vontade, a essência do mundo e da vida, é necessária apenas a maioria da população, pois é nessa massa, sequiosa em se reproduzir, que está a sua garantia de vitória contra a morte.
E, segundo Schopenhauer, esse poder que a Arte possui está mais explícito na Música, já que ela não é como as outras expressões artísticas, que se constituem em cópias da Ideia (platônica). A Música, ao contrário, é cópia da própria Vontade, mostrando-a em seu eterno movimento, em sua luta perpétua, vagando sem nunca sossegar.
E ela também difere das demais porque não se refere às sombras, aos reflexos (também no sentido platônico), já que fala de si mesma; afetando diretamente os nossos sentimentos; e não através de ideias que precisamos construir a partir de um estímulo, como acontece, por exemplo, quando contemplamos um quadro, uma escultura, um texto etc. Sua mensagem ultrapassa o intelecto.
...
Na sequência veremos a proximidade que Schopenhauer encontrou entre o êxtase propiciado pela contemplação de obras de Arte e o êxtase religioso.
 
Produção e divulgação de Pat Tavares, lettre, l´art et la culture, assessora de Imprensa e de RP., do Rio de Janeiro em Junho de 2014.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Schopenhauer e o Iluminismo Alemão - Parte X - O individuo genial.


Neste capitulo Schopenhauer aborda com muita propriedade os indivíduos que se situam acima da média e que por isso chocam os demais por apresentarem um comportamento inusual, que, geralmente, é classificado pejorativamente como “estranho”, “maluco”, “tolo”, “acomodado” etc.
Afinal, para o homem comum, mero escravo da Vontade e vitima do Tédio, como seria possível compreender um indivíduo que paira acima dessas cadeias? Como poderia entender, por exemplo, um indivíduo como o príncipe indiano chamado Sidharta (posteriormente classificado como um Buda, isto é, como um “Iluminado”) que num belo dia abandona os luxos de sua vida nababesca para encontrar a paz interior no seio do despojamento?
Esse tratado de Schopenhauer é, certamente, um dos mais esclarecedores sobre o tema, sendo a base para que vários autores modernos, nele apoiem as suas teses psicológicas, de autoajuda e religiosas.
Vale à pena conhecê-lo, pois, enquanto ele nos ajuda a compreender as atitudes de pessoas geniais – e dentro do possível, seguir-lhes o exemplo - também nos mostra que existe sim uma força capaz de vencer a cadeia dos Desejos e o horror do Tédio.
Nesse contexto, gênio não é, claro, o cientista brilhante, a soprano divina, o maratonista de escol, o biliardário que faz fortunas imensas e outros tipos que normalmente são associados ao sucesso e à felicidade.
Aqui, genial é o indivíduo que detém no nível mais alto a Sabedoria, pois não é preciso muito esforço para observar que quanto mais baixa for a forma de vida, mais ela é regida pela Vontade. Entre os seres humanos não é diferente, pois quanto mais embrutecido for o indivíduo, mais ele se sujeita à escravidão dos Desejos. São aqueles que buscam desesperadamente a posse, porque intuem que só existem por terem algo e não por serem uma pessoa que possa ser querida, estimada, amada.
E, infelizmente, em sua maioria a humanidade é composta por essas pessoas, cuja Vontade é imensa e cuja Sabedoria é mínima. Justamente o oposto do indivíduo genial que essencialmente prima pelo Saber em detrimento do Desejo. Segundo Schopenhauer “o gênio consiste no seguinte: a faculdade de Saber recebeu um desenvolvimento consideravelmente maior do que o serviço da Vontade exige”.
E para que essa Sabedoria aconteça é imperioso que haja uma transferência da força despendida na atividade reprodutora para o exercício intelectual, já que a reprodução é onde a Vontade se manifesta com maior intensidade, porque só através da mesma é que ela consegue vencer sua inimiga perpétua, a morte. Nesse ponto, aliás, é possível citar um exemplo que embora peque por ser extremado, presta-se muito bem como ilustração: “alguns indivíduos são tão acossados pelo instinto sexual que são capazes de cometerem estupros e outras violências sem qualquer peso na consciência, mas são incapazes de sentirem ou de despertarem uma afeição sincera, porque as suas sensibilidades perderam-se ante a dominância da Vontade que os subjuga”. Schopenhauer afirma ser essa a causa da aversão que geralmente existe entre o indivíduo dotado de gênio e a mulher, já que para ele, o gênero feminino representa a reprodução e a submissão do intelecto à Vontade (de viver) e de fazer viver. Para elas, tudo é subjetivo, pessoal e considerado como um simples meio para fins pessoais. Óbvio que essa visão negativa que o filósofo tinha sobre o universo feminino não se escora na realidade dos fatos. Também é óbvio que foi fortemente influenciada por sua péssima relação com a mãe. Contudo, sem qualquer intuito discriminatório ou chauvinista, deve-se admitir que a atenção dada pela mulher comum aos aspectos materiais (traduzida pela característica vaidade feminina), é um elemento que apoia parcialmente a afirmativa do filósofo.
Mas, voltando à corrente principal do tema, vemos que o gênio, já liberto da Vontade, pode ver o objeto (as coisas) em sua real dimensão, tal como ele é. Como se o seu pensamento fosse um raio de sol que atravessa uma nuvem deixando para trás a mera aparência, a casca, e avançando até a essência, a realidade última daquele fenômeno. É o que acontece, por exemplo, com os grandes pintores que veem nas pessoas que retratam, não só as suas características individuais, mas, também, aquilo de universal, de real, de permanente que nelas existem. O gênio percebe clara e imparcialmente aquilo que é objetivo, ou seja, essencial.
E é esse afastamento do prisma subjetivo, pessoal, que faz o indivíduo genial ser mal adaptado ao mundo dos homens comuns, governados pela Vontade. Não é falso, portanto, o estereotipo do gênio que por mirar uma estrela cai numa poça de lama. Por enxergar tão longe, ele não consegue ver aquilo que o rodeia, o que dá margem para aqueles adjetivos que expusemos anteriormente acerca de sua pessoa, ou seja, esquisito, lunático, estranho etc. e que o torna isolado das outras pessoas.
Afinal, a sua atenção se fixa na essência, no fundamental, no eterno, no universal; enquanto que a da grande massa atenta apenas para o superficial, específico, temporário etc. São dois tipos de mentes totalmente diferentes, sem nenhuma área em comum que possibilite a simpatia mutua. Quando muito, existe apenas a tolerância dos vulgares, talvez acrescida de uma admiração cerimoniosa, e a condescendência do erudito com a ignorância daqueles. Segundo Schopenhauer: “em geral o homem só é sociável na medida em que for intelectualmente pobre e ordinariamente vulgar”.
Contudo, o homem dotado de genialidade não se ressente muito da exclusão social, porque ele não depende de companhia como as pessoas comuns já que a riqueza de sua vida interior satisfaz as suas necessidades. Segundo o filósofo:
“O prazer que ele recebe de toda a beleza, o consolo que a Arte proporciona, o entusiasmo do artista (...) habilitam-no a esquecer as preocupações da vida e o recompensam pelo sofrimento que aumenta em proporção à clareza da consciência e pela sua solidão desértica entre uma raça diferente de homens”. 
A dor aumentada que ele sente, por conta de enxergar com mais clareza as atrocidades da vida, e a própria solidão a que sua genialidade o condenou, em alguns casos, podem fazer com que o homem genial leve uma vida melancólica e essa tristeza, em extremos, pode levá-lo às raias da insanidade, como acontecido com o poeta Byron, o escritor Rousseau e tantos outros.
Todavia, ainda que esses indivíduos geniais possam sofrer a melancolia e a insanidade é forçoso admitir que neles está o exemplo a ser seguido para que o homem consiga alçar o voo a que talvez algum deus o tenha destinado.

Nota do Autor – é certo que os conceitos de Insanidade, de Normalidade e de Dor são relativos, mas para não alongar a questão e não fugirmos ao escopo da obra, aqui se adjetivou como “normal” aquilo que é concernente à maioria dos casos.
 
Produção e divulgação de Pat Tavares, lettre, l´art et la culture, assessora de Imprensa e de RP., do Rio de Janeiro em Junho de 2014.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Schopenhauer e o Idealismo Alemão - Parte IX - A Sabedoria da Vida


Antes de tudo, façamos a seguinte reflexão: aqueles que são muitos ricos conseguem satisfazer inteiramente à “Vontade” e viver livre do tédio?
Não! É claro que não, pois, ainda que o dinheiro possa trazer inegável conforto e muitas facilidades, ele é impotente para vencer a essência do homem comum.
Se assim não fosse, como explicar, por exemplo, a vida do bilionário que se mata nos negócios apenas para aumentar aquilo que já lhe sobra. Apenas para cumprir o que lhe ordena a sua Senhora, a Vontade insaciável. Ou aquele outro bilionário que se entrega a hobbies extravagantes ou a meritórias ações filantrópicas para fugir do tédio que a sua saciedade lhe impõe?
E muitos outros exemplos seriam possíveis. Para alguns, tantos quantos são os domingos e feriados...
Vê-se, portanto, o quanto é absurdo o desejo ganancioso pelos bens materiais que rege a vida do homem, pois se é correto lutar por boas condições e usar a Vontade como plataforma de impulsão para as lutas diárias, a excessiva sujeição aos ditames do Querer torna o homem uma simples peça na engrenagem da vida, incapaz de perceber a grandeza que existe em outras coisas que não são diretamente associadas à moeda.
A obsessão pela fortuna mostra o quão tolo é o homem que, dela, espera a libertação do jugo da Vontade. Tolice que se revela mais atuante nos indivíduos de intelectualidade e cultura prejudicadas e que veem a posse como a substituta perfeita para as outras qualidades que lhe faltam. São pobres diabos que vivem em círculo vicioso, já que são continuamente pressionados para aumentarem suas rendas e a isso se dedicam com tal intensidade que não lhes sobre tempo nem vigor para adquirirem outras qualificações, outros saberes. No fim, morrem sem terem aproveitado as suas posses e sem sequer suspeitarem que não está na riqueza o caminho para a alforria e para a paz de espírito, mas sim na Sabedoria, a qual, mesmo tendo nascido por obra da Vontade, é a única coisa que pode dominá-la.
Nas palavras de Schopenhauer:

“O homem é ao mesmo tempo um impetuoso esforço da Vontade (cujo foco está no sistema reprodutivo) e um eterno, livre, sereno súdito do Conhecimento Puro (do qual o foco é o cérebro)”.

O inicio da independência do Saber em relação à Vontade pode ser observado quando, por exemplo, o intelecto se recusa a obedecer ao comando da Vontade, isto é, quando se recusa a agir apenas por algum instinto. Ou, então, quando não fixa na mente aquilo que a Vontade lhe ordena; ou quando a memória se nega a atender a uma ordem de busca determinada pelo Desejo.
E desse inicio titubeante o caminho vai sendo aplainado à medida que os tratores da Sabedoria –fortalecida pela contínua aquisição de Cultura real e efetiva – agem contra o cipoal primitivo dos instintos brutos. Uma vez que o poder da Razão esteja consolidado, o Desejo se mostra moderado e modelado para servir apenas como um indispensável estímulo ao individuo e não mais como o seu algoz terrível.
Para alguns eruditos, essa teoria é apenas outra apresentação do Determinismo; e Schopenhauer não nega que seja, já que para ele o livre arbítrio estará sempre condicionado aos limites impostos pela essência do mundo e da vida, ou seja, a Vontade. Porém, a seu ver, quando o homem compreende que tudo que lhe atinge é apenas o resultado de causas anteriores e não por obra de sinistros azares ou terríveis desígnios divinos, ele passa de vitima a agente, vez que controlando os seus atos presentes, evitará resultados nocivos no futuro. Em suas palavras:

“De dez coisas que nos perturbam, nove não teriam como fazê-lo se as compreendêssemos perfeitamente no que se referisse a suas causas, conhecendo, portanto, sua necessidade e sua verdadeira natureza. (...) Porque aquilo que a brida e o freio são para um cavalo indócil, o intelecto é para a vontade de um homem”.

Assim, dono de si porque a Filosofia refinou-lhe a Vontade, cabe ao homem tomar o cuidado de viver efetivamente esse aprendizado e não considerá-lo apenas como uma leitura agradável ou voltar a se prostrar passivamente, porque a absorção do Pensamento de terceiros, sem a devida reflexão e experimentação, de nada adianta na luta contra o desejo incontrolável. Cabe-lhe, também, seguir os ensinamentos dos grandes sábios, que através do despojamento dos luxos supérfluos, fortaleceram a riqueza pessoal; e buscar nos textos reconhecidamente valiosos o recheio da mente, porque só dessa maneira é que se forma a certeza de que a paz de espírito e a felicidade possível dependem mais do conteúdo da cabeça que do da carteira.
Com efeito, para Schopenhauer, a maneira de se fugir do mal desencadeado pelo desejo insaciável é a contemplação sábia* da vida e que o altruísmo sincero o único caminho eficaz para se escapar do tédio tenebroso, já que ao se promover o bem estar alheio, é a própria satisfação que aumenta. Para ele:

“Quando uma causa externa ou disposição interna nos tira de repente da interminável corrente do querer, e livra o conhecimento da escravidão da Vontade, a atenção já não é mais dirigida para os motivos do querer, mas compreende as coisas livres das suas relações com a vontade e, assim, as observa sem interesse pessoal, sem subjetividade, de forma puramente objetiva – entrega-se inteiramente a elas desde que sejam ideias, mas não na medida em que sejam motivos. Então, de repente, a paz que sempre procuramos, mas que sempre nos escapou no antigo caminho dos desejos, vem até nós por sua livre vontade e para nós é bom. É o estado sem sofrimento que Epicuro considerava o maior dos bens e o estado dos deuses; porque ficamos, por enquanto, livres da infeliz luta da vontade; respeitamos o Sabath da pena de trabalhos forçados do querer; a roda de Ixíon fica parada”.


Nota do Autor – não confundir esse tipo de Sabedoria* com a inteligência erudita ou inteligência prática.

Produção e divulgação de Pat Tavares, lettre, l´art et la culture, assessora de Imprensa e de relações com o público. Rio de Janeiro, no inverno de 2014.

domingo, 6 de julho de 2014

Com muito orgulho, com muito amor.



Não foi, menino, a primeiro golpe
que nos atingiu pelas costas.
Vários outros já nos atingiram
e outros ainda virão.
E que venham!

Saberemos, como sempre soubemos,
encontrar o caminho da volta.
Por isso, menino da camisa dez,
se agora o covarde dos Andes te atingiu,
não lamentes. Ele foi só mais um.

Esteja certo de que haveremos de buscar
em tua arte, em tua coragem, a força para seguir.
Se o covarde dos Andes tentou parar o Brasil,
saiba que não conseguiu.

A tua dor, agora de todos nós
reafirmou-nos como brasileiros.
E, ganhando ou perdendo,
com muito amor e com muito orgulho.


Homenagem pouca ao menino do Brasil, Neymar.

Produção e divulgação de Pat Tavares, lettre, la a´rt et la culture, assessora de Imprensa e de Relações com o público. Rio de Janeiro, no inverno de 2014.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Elos


Elos

E assim os elos vão se rompendo
e cada vez mais
a vida perde os seus antigos portos.

Frágeis, já se mostram as âncoras
e sinto que as lembranças vagam vazias
como as tantas ruas em que andei.

Onde estarão as mãos que me guiaram,
as mãos que me ensinaram a alquimia das letras,
as mãos, que eu sabia, sempre a me esperar?

Em qual montanha, agora, afagam a terra?
Em que Céu, agora pintam
a esperança que nos preenchia?



Produção e divulgação de Pri Guilhen, lettre, l´art et la culture, assessoria de Imprensa e de RP., no Rio de Janeiro, no inverno de 2014

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Schopenhauer e o Idealismo Alemão - O Suicidio - Parte VIII


O Suicídio
Vimos que a demência senil e a insanidade atuam como esconderijos contra os sofrimentos causados pela alternância de luta, frustração e tédio de que se constitui a vida. Porém, existem circunstâncias em que nem esses refúgios são suficientes e só resta ao indivíduo buscar o esconderijo derradeiro: a morte autoinfringida.
O suicídio é execrado em praticamente todo o Ocidente, tanto pelo aspecto religioso, quanto pelo ético. Nalgumas religiões*, como no Judaísmo, por exemplo, não se hesita em tratar o falecido como um desertor execrável, um pária, cujo espírito será destinado às amarguras do Inferno (Seol) e o corpo físico aos mais remotos cantos dos cemitérios.
No aspecto ético, a pecha de covarde é automaticamente colocada no suicida e o seu gesto extremo, além da perplexidade e da dor natural aos casos fatais, causa uma série adicional de sofrimentos às suas relações familiares, profissionais, comerciais e de amizade pela culpa que pode ocasionar, seja ela indevida ou não.
Mas, segundo Schopenhauer, essa rejeição, na verdade, é apenas um reflexo invertido da “Vontade de Viver”, expressa pelas suas formas individuais, isto é, os homens e suas instituições. Afinal, o Instinto de Sobrevivência é tão imperativo que lhes soa como uma terrível blasfêmia qualquer ato contrário a ele.
Contudo, a aversão expressa pelos humanos não é avalizada, sequer sentida, pela “Vontade Geral”, já que para a “Essência de Tudo” a morte deliberada de uma de suas expressões é larga e prontamente compensada por vários nascimentos não desejados, o que torna o balanço final ainda mais positivo para si.
Assim, se for certo vermos no suicida um indivíduo que derrotou o Instinto de Viver, é preciso, também, que vejamos que a sua vitória foi um mero triunfo individual, pois a “Vontade” continua na espécie, como, aliás, comprova-se pela reação da mesma ao indivíduo que se matou.
Nas palavras de Schopenhauer:

“O suicídio, a voluntariosa destruição da existência fenomenal isolada, é um ato fútil e tolo, porque “a coisa em si mesma” – a espécie, a vida e a vontade em geral – continua inalterada por ele, assim como o arco-íris dura, por maior que seja a velocidade com que os pingos que o sustentam venham a cair”.

A constante necessidade, a quase eterna frustração e o tédio ameaçador continuam depois da morte do indivíduo; e continuarão enquanto a Vontade dominar o homem. Não poderá haver paz nem felicidade enquanto essa mesma Essência não for subordinada ao Conhecimento e à Inteligência. Não haverá vitória efetiva sobre os males da vida enquanto o homem não souber “Viver com Sabedoria”.
A seguir detalharemos o pensamento de Schopenhauer sobre este tema.

Nota do Autor – sobre as censuras religiosas e éticas* que são feitas ao suicida será preciso registrar que é um comportamento associado às religiões que predominam no Ocidente, o Judaísmo e o Cristianismo, e o oriental Islã. Outras culturas orientais não o veem de forma tão negativa, sendo que algumas religiões da Índia, como o Jainismo, por exemplo, adotam-no como caminho para ascensão espiritual, principalmente através da inanição com o consequente esgotamento do corpo físico e de seus desejos. Noutros lugares, como no Japão, por exemplo, para muitos, o suicídio é uma alternativa válida ante o fracasso e a derrota. Posturas que podem chocar as mentes ocidentais, mas que devem ser vistas dentro do contexto em que acontecem.


Produção e divulgação de Pat Tavares, lettre, l´art et la culture, assessora de Imprensa e de RP., do Rio de Janeiro em Junho de 2014.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Schopenhauer e o Idealismo Alemão - Parte VI


O Espaço, o Tempo e a Individuação
Vimos então, segundo Schopenhauer, que tudo que fazemos e sentimos está previamente programado e que somos apenas mais uma das tantas expressões com que a Vontade se manifesta, sendo que só no Espaço e no Tempo parecemos Seres independentes e separados do Todo.
Espaço e Tempo que constituem o “principio da individuação”, o qual divide a “Vida” em organismos distintos que surgem em diferentes lugares e épocas.
Espaço e Tempo que são como o célebre “véu de Maya”, ou seja, a ilusão que esconde a unidade de tudo, pois, em verdade, existe apenas a vida e, portanto, a Vontade, que é a sua essência.

A Continuidade de Tudo

Em sua obra “Conversa com Goethe”, Schopenhauer diz que “compreender claramente que o indivíduo é apenas o fenômeno e não a ‘coisa em si mesma’ e ver na constante mudança da matéria a permanência fixa da forma, é entender a essência da Filosofia”. Na sequência ele afirma que:

“Aquele para quem os homens e todas as coisas não tenham parecido, o tempo todo, meros fantasmas ou ilusões, não tem capacidade para a Filosofia. (...) A verdadeira Filosofia da história está em perceber que em todas as intermináveis mudanças e heterogênea complexidade de eventos, é apenas o mesmíssimo ser inalterável que está diante de nós, que hoje persegue os mesmos fins que perseguia ontem e perseguirá sempre. O filósofo histórico tem, por isso, de reconhecer o caráter idêntico em todos os eventos (...) e, apesar de toda a variedade de circunstâncias especiais, de trajes, condutas e costumes, ver em toda parte a mesma Humanidade. (...) Ter lido Heródoto é, do ponto de vista filosófico, ter estudado bastante história. (...) O tempo todo e em toda parte o verdadeiro símbolo da natureza é o circulo, porque ele é o plano ou tipo de recorrência”.

A Vontade e o Determinismo

Entre tantas, tornou-se a célebre a sentença de Voltaire que diz: “deixaremos o mundo tão tolo e depravado quanto o encontramos”.
Mas, ainda assim, gostamos de pensar que a historia foi um reles preparativo para as “glórias” de nossa Era. Porém, essa ideia de progresso, tanto material quanto ético, não passa de uma mera estultice da nossa vaidade, pois, em essência, o homem continua a ser como sempre foi e essa constatação nos remete para a sinistra possibilidade do Determinismo ser tão hegemônico que o nosso decantado livre-arbítrio não seria nada além de uma quimera.
Em sua “Epístola 62”, o filósofo Spinoza diz que se uma pedra lançada no espaço tivesse consciência, ela certamente pensaria que estaria voando por vontade própria. Não seremos iguais a essa pedra? Movidos por uma força que desconhecemos e iludidos que comandamos os nossos voos, não seremos tão títeres quanto todo o resto?
Para Schopenhauer, sim! Todavia, ao contrário da pedra, podemos reconhecer a força que nos impulsiona como sendo a “Vontade” e através desse conhecimento podemos buscar a felicidade que nos for possível; cônscios das limitações que o Determinismo nos permitir e de acordo com as condições impostas pela realidade do mundo, que é “Mal”.

O Mundo e o Mal

Nesse trecho o leitor (a) perceberá o maior ponto de aproximação entre o Hinduísmo e a Filosofia schopenhauriana. Na verdade, é quase que uma adaptação ao estilo literário do Ocidente, daquela ancestral sabedoria dos “sadus” indianos.
Não foi Schopenhauer o primeiro filosofo ocidental a levantar essa questão, pois já na Grécia clássica o assunto veio à baila através dos Cínicos* e, também, de Aristóteles*, mas, deve-se a ele a popularização do tema pelos motivos já citados.
Segundo ele, se o mundo é a Vontade, consequentemente, é um mundo de sofrimentos, pois a Vontade indica necessidade, a qual é de tal magnitude que quase nunca pode ser satisfeita. O desejo é infinito, mas a realização é limitada.
Por isso, estando submetidos ao império dos desejos nunca podemos ter a paz, já que a satisfação de uma querência abre caminho para a seguinte.
Ademais, a própria satisfação do desejo quase sempre acarreta um novo sofrimento, que pode ser causado pela decepção com aquilo que foi conquistado e/ou pelas exigências que o resultado obtido impõe, como, por exemplo, o caso do indivíduo que conquistou um cargo político e se sente incomodado pelos rituais a que tem que comparecer, pressionado pelas cobranças de quem o ajudou na conquista, angustiado pelas responsabilidades que passou a ter etc.
E esse conjunto de frustrações, decepções e angústias levam a novos desejos, inclusive ao de poder renunciar aquilo que conseguido. E mesmo que o resultado seja satisfatório, em pouco tempo novos desejos afloram, incluindo-se o de que a conquista seja ampliada e mantida.

É a essência do mundo.

A Vontade tem de viver dela mesma, porque nada existe, realmente, além dela. Nas palavras de Schopenhauer:

“Em cada indivíduo, a medida do sofrimento que lhe é essencial foi determinada, de uma vez por todas, pela natureza; uma medida que não pode ficar vazia nem ser cheia em excesso. (...) Se uma grande e premente preocupação nos é tirada do peito (...), imediatamente é substituída por outra, cuja matéria-prima já se encontrava lá, mas não podia ser percebida pela consciência como preocupação porque não havia lugar para ela. (...) Mas agora que há espaço, ela vem ocupar o trono”.

E além desses fatos, ainda é preciso considerar que pairam no horizonte humano as eternas ameaças das forças da natureza, como os vulcões, os furacões, as secas, as inundações etc. cujo poder inelutável é capar de arrasar em segundos as obras, as quimeras e utopias que geralmente custaram anos de trabalho, penosos sacrifícios e até mesmo esforços mortais.
Dessa sorte, diante de tudo isso, para Schopenhauer “o otimismo é uma zombaria amarga das desgraças do homem”, sendo a “Teodicéia” de Leibniz, que louva uma suposta bondade divina, uma obra cujo único mérito foi ter servido para que Voltaire escrevesse a irônica antítese da mesma em seu imortal “Candido ou o Otimismo”, no qual, a sua fina ironia, destroi qualquer ilusão de que se “vive no melhor dos mundos”.

Nota do Autor* - Aristóteles disse ser sábio o homem que não busca o prazer, mas libertar-se da dor e da preocupação (ou do Eterno Querer). Os Cínicos repudiavam o prazer pelo mesmo motivo, ficando célebre a situação de Diógenes que habitava em uma barrica. Sabiam que junto do prazer, sempre está a dor (do desejo insaciável).

O Tédio

Mas a taça dos sofrimentos não se esgota na Vontade infinda nem na ameaça dos cataclismos, pois ainda que seja quase impossível satisfazer todos os desejos, se isso acontecesse, em breve chegaria o tédio. O horror de não se ter um objetivo. O terror da inutilidade e do tempo vago que nos permite sentir a nossa mais absoluta dispensabilidade.
E o emergir desse novo sofrer reforça a tese de que a Vida é essencialmente “má”, porquanto tão logo cessa a angústia dos desejos insaciados e a frustração disso decorrente, sobrevém o tédio que pressiona o homem com tamanha intensidade que ele busca com a urgência do desespero desejar alguma outra coisa para escapar daquela opressão tenebrosa.
É o caso, por exemplo, do indivíduo que anseia desesperadamente aposentar-se para fugir de um trabalho e de uma rotina massacrante, mas que tão logo consegue o repouso remunerado busca incontinenti uma nova ocupação*, para fugir do tédio que obsolência acarreta, sob a pena de se afundar na tristeza caso não encontre outra ocupação. Ou, então, o milionário que busca incessantemente aumentar a sua fortuna sem que exista qualquer necessidade ou que exerce uma série de atividades pseudos filantrópicas, culturais e semelhantes apenas para ocupar o tempo.
O fato é que não podemos fugir do que somos em essência: uma das expressões da Vontade.

Nota do Autor* – é claro que aqui não se considerou as questões financeiras por fugir do escopo do assunto.

A Dor e o Conhecimento

E a malignidade da Vida não diminui com o aumento do saber. Ao contrário, pois quanto mais instruído for o indivíduo, maior será o seu sofrimento. Por outro lado, quanto mais estúpido for o sujeito, menores serão os seus desejos e, portanto, a sua dor e o seu tédio, já que dele é possível escapar graças a qualquer tipo de diversão e, também, pelo falacioso consolo que a religião oferece. Segundo Schopenhauer:

“Porque, à medida que o fenômeno da Vontade se torna mais completo, o sofrimento se torna cada vez mais aparente. Na planta ainda não há sensibilidade, não havendo, portanto, dor. Um certo grau muito pequeno de sofrimento é experimentado pelas espécies mais baixas da vida animal. (...). Ele aparece, primeiro, em alto grau, com o completo sistema nervoso dos animais vertebrados**, e sempre em grau mais elevado quanto mais a inteligência se desenvolve. Assim, na proporção que o conhecimento atinge a distinção, que a consciência ascende, a dor também aumenta e chega ao seu ponto máximo no homem. E então, outra vez, mais distintamente o homem sabe – quanto mais inteligente ele for –, mais dor ele terá; o homem dotado de gênio sofre mais do que todos os outros”.

Ademais, aqueles que são mais bem dotados intelectualmente e por isso possuem maior acervo na memória e maior capacidade de antevisão, tem o seu sofrimento aumentado, já que as maiores dores estão nas lembranças e na antecipação dos fatos, quer pelas frustrações dos desejos não realizados, quer pelo temor de não satisfazer os futuros.
Dessa forma, não há como escapar da sinistra constatação de que a Vida se resume no eterno pêndulo de desejo insaciável e tédio avassalador, cabendo ao homem o triste papel de um joguete a serviço da Vontade. Por isso, segundo Schopenhauer, em sua obra magnífica “A Divina Comédia”, Dante só conseguiu descrever corretamente o Inferno, bastando-lhe copiar o que é o mundo; porém, quando tentou descrever o Céu, a Vida não lhe ofereceu nenhum exemplo de paz e felicidade.

Nota do Autor **– atualmente se sabe que a dor nos animais superiores como os cães, os elefantes, golfinhos etc. não se limita apenas aos aspectos concretos, mas, também, provém de fatores abstratos como a saudade, o trauma pela morte de um dos membros da manada etc.

Os Jovens e a Felicidade
Para Schopenhauer a ilusão da felicidade só é possível para a ignorância dos jovens, haja vista que a mocidade acredita ser um prazer estar sob o jugo da Vontade e por isso viver sob a alternância de luta e tédio*.
Apenas com a maturidade** se percebe o peso dessa escravidão e a inevitabilidade da derrota. Segundo Schopenhauer:
“A alegria e a vivacidade da juventude são devidas, em parte, ao fato de que, quando estamos subindo a montanha da vida, a morte não está visível; ela se encontra lá embaixo, no outro lado. (...) Cada dia que vivemos nos dá o mesmo tipo de sensação que o criminoso experimenta a cada passo rumo ao cadafalso”.

Nota do Autor* - essa alternância entre necessidade de lutar continuamente e de ser acossado pelo tédio talvez seja uma das explicações para o consumo de drogas que se verifica nessa fase da vida. Primeiro, droga-se para aumentar a capacidade de combater pelos objetivos e, depois, para tolerar o vazio do tédio.

Nota do Autor** - é possível que o horror que se sente pelo amadurecimento e pela velhice venha da constatação de que nessas idades as ilusões terminam. Quer-se, a todo custo, conservar-se as utopias da juventude, mais do que a própria.

O Medo da Morte
E no fim, resta ao homem encontrar-se com o seu destino: a morte. Justamente quando a experiência se consolida e se transforma em sabedoria, o cérebro inicia o processo de degeneração e, então, até aquele tesouro que se julgava seguro, o saber, começa a perder o seu valor.
E essa perda, somada às outras que se multiplicam por todo o corpo, reforça o medo da morte, que, se antes era apenas instintivo, passa a ser racional, ainda que essa seja a última centelha do raciocínio.
O homem comum não consegue resignar-se com o fim absoluto e por isso cria inúmeras quimeras filosóficas e religiosas para se consolar, mas essa própria crença, especialmente a na imortalidade da alma, é sinal inequívoco do horror que sente. E ante tamanha aflição, não é incomum que ele recorra à demência para fugir dessa funérea perspectiva.


Produção e divulgação de Pat Tavares, lettre, l´art et la culture, assessora de Imprensa e de RP. no Rio de Janeiro, no inverno de 2014