quarta-feira, 16 de julho de 2014

Schopenhauer e o Idealismo Alemão - Parte XIII - A Sobrevida da Espécie



A Sobrevida da Espécie
Nesse trecho Schopenhauer lança severas críticas às mulheres. Como já se disse a sua misoginia teve inicio na conturbada relação com a mãe e prosseguiu graças aos seus insucessos no campo amoroso. Obviamente que suas opiniões não encontram acolhida no autor, que por uma questão de honestidade literária decidiu mantê-las para não ferir a linha de raciocínio do filósofo. Assim sendo, conto com a compreensão das amáveis leitoras.
Vimos que a escravidão do Desejo e do Tédio pode ser vencida pelo indivíduo através dos êxtases proporcionados pela contemplação e degustação dos objetos artísticos e por algumas práticas religiosas.
Porém, essa libertação só ocorre individualmente, pessoa por pessoa, pois a Vida vai além do homem, quer por intermédio de sua própria descendência, quer pela descendência alheia. A Vida, isto é, a Vontade, pode ser vista como um sistema de infindáveis rios, cuja seca de um, logo é compensada pelo aparecimento de outro.
Portanto, como o gênero humano, no geral, poderia ser libertado? Haveria meios de se chegar a um “Nirvana” para a espécie?
Para Schopenhauer, sim!
Mas, para que houvesse; e para que a Vontade fosse aniquilada, seria preciso que a morte não fosse compensada por novos nascimentos. Seria imperioso que o indivíduo morto, não fosse substituído por outrem. Seria preciso, ao cabo, que a humanidade se abstivesse* do sexo e da reprodução que lhe é consequente.
Uma medida radical e impossível por culpa exclusiva da mulher, já que os seus encantos despertam instintos que superam qualquer racionalidade; e a geração das crias lhes garante o sustento para quando esses encantos findarem.
Segundo Schopenhauer, a juventude masculina não compreende como esses encantos são breves e maquiavelicamente utilizados e quanto lhes chega a maturidade e com ela a sabedoria, a reposição indevida já aconteceu. Os rapazes que escrevem poemas às suas Musas, dificilmente as olhariam se elas tivessem nascido dezoito anos antes.
Nas palavras de Schopenhauer, em sua obra “Ensaio sobre as Mulheres”:

“Com as moças, a Natureza parece ter tido em vista o que, na linguagem do teatro, é chamado de efeito de impacto; uma vez que durante alguns anos, ela as dota de uma abundância de beleza e é pródiga na distribuição de encantos, à custa de todo o resto da vida delas, para que durante aqueles anos elas possam captar a simpatia de algum homem a ponto de fazer com que ele se apresse a assumir o honrado dever de cuidar delas (...) enquanto viverem – um passo para o qual não pareceria haver uma justificativa suficiente, se ao menos a Razão dirigisse os pensamentos do homem. (...) Aqui, como em outra parte qualquer, a Natureza age com a economia usual; porque assim como a fêmea das formigas depois da fecundação perde as asas, que então são supérfluas, ou mais, um perigo para a atividade reprodutora, a mulher, depois de dar à luz um ou mais filhos, em geral perde a beleza; provavelmente, mesmo, por idênticas razões”.

A veneração à mulher não é natural, sendo, na verdade, apenas uma convenção oriunda do Cristianismo e do Romantismo. Porém, mesmo nessas origens, a veneração é obliqua, sendo que no primeiro caso o que se louva é a mulher virgem, intocada e, portanto, não geradora de outro individuo; e no segundo, louva-se o amor platônico, dissociado do sexo. Por isso, para o filósofo, estariam certos os orientais** que não reconhecem a igualdade entre os gêneros, tratando as mulheres como seres inferiores.
Dessa sorte e graças à manipulação feita pela Vontade, através da natureza, para o filósofo, seria quimérico acreditar em uma libertação da espécie humana. A condição natural do homem é a servidão. Somos apenas peças de uma engrenagem e é essa condição que modela o seu “Pessimismo Filosófico”, cujas cores sombrias foram depois adotadas e adaptadas por outras correntes, das quais, destaca-se o Existencialismo do século XX.
Na sequência, findando o capitulo sobre Schopenhauer, faremos uma breve reflexão de seu Pensamento.

Nota do Autor* – claro que ao exarar essa afirmativa Schopenhauer não considerou os métodos contraceptivos, os quais, em sua época, eram rudimentares e altamente ineficazes.

Nota do Autor** – é interessante notar que ainda hoje, em pleno século XXI, as mulheres orientais são tratadas dessa maneira, variando, contudo, a intensidade da discriminação nos diversos países da região.

Produção e divulgação de Pat Tavares, lettre, l´art et la culture, assessora de Imprensa e de RP., do Rio de Janeiro em Junho de 2014.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Lamento

L

Lamenta-me o querubim,
pois sabe
da tristeza que comporta
a poesia natimorta.


Para Wesley, que hoje completaria 10 anos. Descanse da dor.


Produção e divulgação de Pat Tavares, lettre, l´art et la culture, assessora de Imprensa e de Relações com o Público. Rio de Janeiro, inverno de 2014.


segunda-feira, 14 de julho de 2014

Com mais amor. Com mais orgulho.


“O Brasil merece um chute no traseiro...”- Jérôme Valcke

“O Brasil não foi uma escolha acertada...” Joseph Blatter

“O movimento Black Block se unirá ao PCC para impedir a Copa”- Manchete do jornal O Estado de São Paulo.

“Será o caos. Passaremos uma vergonha enorme”. Pessimistas de plantão e aduladores servis de estrangeiros.

Por um estranho movimento quântico no Tempo e no Espaço, seis minutos seriam repetidos continuamente por trinta dias e o horror que o time (time?) apresentou naquela tarde fatídica seria apenas mais um dos vexames que a terra de Pindorama apresentaria ao mundo. Aquela vergonhosa e humilhante tragédia seria o espelho de todo o caos que os brutos silvícolas de Vera Cruz promoveriam, pois o time (time?) e o povo do Brasil são a mesma coisa.
Ou não?
Para espanto geral, em 12 de junho, o metrô e o trem que partem da Estação da Luz com destino a Arena Corinthians funcionaram com uma precisão inacreditável e o mais estranho é que ao chegarem os torcedores encontraram um estádio pronto e em perfeito funcionamento. Até o time (time?) ganhou naquele dia, embora, todos disseram, graças a um pênalti roubado; fato que lhe custaria muito caro, como prometeram os próceres da FIFA, tão logo eles acabaram de se desculpar pelas suas falhas no tocante ao serviço de alimentação.
Mas o espanto pela perfeição ocorrida logo findaria, todos profetizaram, pois o pandemônio nos aeroportos se incumbiria de mostrar que o Brasil não passa mesmo de uma “Republica de bananas (insisto no de)”. Ademais, os protestos comunistas ou fascistas (talvez Kardecista, umbandistas, sabe-se lá) e a delinquência descontrolada explodiriam e milhares de turistas seriam roubados, estuprados e assassinados. Assim eles veriam como a FIFA e as suas embaixadas e as suas imprensas tinham razão ao alertá-los sobre o perigo de virem ao país dos mestiços.
Contudo, o movimento quântico que fora previsto e as próprias profecias, não se sabe por que, não aconteceram e os malditos trens, metrôs, hotéis, aeroportos, estádios e policiamentos funcionaram admiravelmente bem. Tudo tão bom, que ficou difícil convencer aos turistas sobre os riscos que eles corriam, pois aonde iam era calorosa e educadamente recebidos em amistosa e pacífica convivência com os nativos mulatos e com os turistas de outras nacionalidades. Pacífica e tolerante convivência até mesmo com os mal-educados bárbaros, que estando na casa alheia não hesitavam em provocar os anfitriões com seus berros de “Su Papá” e com a sua incivilidade patente.
E o diabo é que esse conjunto de positividades foi se avolumando de tal maneira, que transbordou das arquibancadas e chegou aos campos, onde os craques se viram na obrigação de retribuir e com isso o que se viu foram muitos gols, jogadas maravilhosas, partidas eletrizantes e, principalmente, o inesquecível espetáculo de um estádio lotado cantando o hino do país anfitrião de forma tão apaixonada e vibrante, que nem o protocolo da FIFA conseguia impedir a sua completa execução. Uma exaltação de amor e de patriotismo que deixou bem claro que o Brasil é quem o faz e não quem tem a petulância de se proclamar seu dirigente. Amor e patriotismo, diga-se, que em nada diminuiu quando aquele bando de homens de chuteiras caiu na vala da vergonha e da humilhação. Novamente ficou claro que o Brasil não é representado por aquele tipo de gente, mas, é, sim, pelo operário que construiu o estádio, pelo condutor do trem da Estação da Luz, pela camareira do hotel e por todos nós que pagamos pelas obras com que recebemos os amigos que cá vieram. Enquanto o time (time?) era surrado sem piedade, emergiu o brasileiro em todo o seu esplendor. Que afundassem os jogadores (jogadores?), que afundassem os ditos técnicos (técnicos?), pois eles não arrastariam os brasileiros, já que no buraco em que caíram, não cabe o Brasil.
E o espetáculo continuou de modo tão bonito, que ontem, 13 de julho, os deuses do futebol fizeram da Alemanha a grande campeã. Aos seus torcedores, juntaram-se os brasileiros, pois era a hora de lhes agradecer pela educação e pelo respeito com que sempre nos trataram; principalmente, após terem goleado aquele bando que indevidamente vestiu-se com a camisa da Seleção Pentacampeã do mundo. E, generosos, quiseram os deuses que os brasileiros tivessem a doce alegria de ver “Su Papá” em sofridas lágrimas, enquanto ficam na fila com o seu único titulo (sim, porque o de 1978 foi uma tramoia tão sórdida que envergonha a todos ainda hoje). Quiseram os deuses e nós vimos o triunfo da esportividade, da civilidade, da boa educação e do respeito, numa tarde em que a beleza do Rio de Janeiro mostrou-se por inteira.
Um torneio quase perfeito, pois a perfeição só não pôde ser alcançada porque uma quadrilha de larápios estelionatários foi desbaratada pela polícia do Brasil. Mas como esses larápios, ladrões e estelionatários são diretamente vinculados à FIFA, achamos melhor não nos estendermos no assunto, pois poderia parecer indelicado dizer que os Srs Joseph Blatter e Jérôme Valcke, enquanto representantes da Entidade, são os culpados pelo único grande incidente do mundial.
É melhor apenas reafirmar que nós, brasileiros, construímos estádios esplêndidos, sistemas de transportes e de comunicações de última geração, sistemas de segurança perfeitos etc. além de recebermos fidalgamente a todos que aqui estiveram; sem perdermos a noção de que ainda há tanto a ser feito, como bem mostrou a desvinculação existente entre o povo e suas autoridades. Não restaram dúvidas de que sabemos, sim, separar o futebol, a festa, a comemoração, da política. Que sabemos mostrar o que somos realmente: brasileiros, com muito amor e com muito orgulho.

Aos brasileiros e brasileiras que fizeram a melhor de todas as Copas.


Produção e divulgação de Pat Tavares, lettré l´art et la culture, assessoria de Imprensa e de Relações com o Público. Rio de Janeiro, no inverno de 2014.

Schopenhauer e o Idealismo Alemão - Parte XII - o Extase Religioso


Schopenhauer teve pouquíssimo contato com a religião durante a sua infância, mocidade e parte da maturidade. Em consequência, a sua visão acerca da igreja e do clero resumia-se na severa censura que ele fazia ao dogmatismo da doutrina e ao parasitismo dos religiosos. Tornou-se, célebre, aliás, a sua afirmação de que “nos teólogos, encontramos, em muitas nações, o poste em são amarrados os condenados a serem queimados vivos”. Posteriormente, disse que a religião seria uma “reles metafísica das massas”.
Contudo, ao acumular anos e sabedoria a sua visão crítica foi sendo abrandada e ele passou a ver certa semelhança entre o êxtase propiciado pelas Artes e aquele proporcionado pela prática religiosa.
A partir de então, ele começou a ver um sentido mais profundo nos rituais eclesiásticos e começou a desenvolver estudos sobre o tema, concluindo, por fim, que a Religião nada mais é que o Pessimismo filosófico.
Embora seja uma simples cópia mal elaborada dos ensinamentos de Platão (os quais, por sua vez, são uma adaptação bem feita do Hinduísmo) o Cristianismo, por exemplo, prima em “negar a vida” em prol da “salvação”. É o caso do “Pecado Original”, onde a afirmação da vida ou da Vontade, por intermédio da reprodução, é execrada com rigor, enquanto se louva a “negação da vida” através da abstinência sexual. Noutro trecho vê-se semelhante negação com a pregação dos jejuns ou martírios físicos, cujo objetivo é enfraquecer o corpo e conseguintemente o Desejo.
E essa aproximação entre as doutrinas religiosas e a Filosofia Pessimista mais se evidência nas religiões originais, ou seja, no Hinduísmo com as suas derivações.
Dessa maneira, pode-se ver que o Budismo é mais incisivo que o Cristianismo porque nele a destruição da Vontade é o cerne principal da crença. E que o Jainismo supera a ambos, chegando ao ponto de considerar o suicídio por inanição como um dos atos religiosos mais louváveis, já que com a morte, cessa todo Querer. Caracteristicamente, o Hinduísmo e as outras religiões orientais diferem das ocidentais por serem mais profundas, intuitivas e honestas em sua interpretação do mundo; e graças a isso elas podem tratar desses temas sem os subterfúgios hipócritas do Cristianismo que escolheu um indivíduo apenas para “negar a vida” ao morrer na cruz. E também graças a essas características, elas podem conviver pacificamente com a certeza de que a individualidade é uma tola ilusão, já que, na verdade, “tudo é um”. Podem aceitar que o Céu e o Inferno estão dentro de cada mente, sendo o Paraíso o estado de Nirvana, constituído pela redução ao máximo possível de todo desejar, enquanto que o Inferno é exatamente o oposto, ou seja, o paroxismo da escravidão à Vontade, ao Desejo e ao Tédio.
E como são apenas as pessoas geniais, no sentido anteriormente descrito, que conseguem atingir o Nirvana, apenas elas desfrutam da paz que um objeto artístico pode proporcionar aos homens comuns; levando, é claro, a vantagem de viverem essa pacificação interior por longos períodos, ao passo que os demais, experimentam-na apenas enquanto estão sob a influência da Arte.
Desse modo, Schopenhauer resgatou aquele que talvez tenha sido o objetivo original do sentimento religioso, isto é, fazer o homem compreender que os Desejos egoístas são a causa de sua infelicidade perene.

Produção e divulgação de Pat Tavares, lettre, l´art et la culture, assessora de Imprensa e de RP., do Rio de Janeiro em Junho de 2014.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Schopenhauer e o Idealismo Alemão - Parte XI - A Arte





A Arte

A princípio, pode parecer uma pergunta tola, mas, afinal, para que serve a Arte?
Muitos, certamente, responderão que serve para “elevar o espírito”. É uma resposta clássica e quase sempre oriunda da pura intuição, pois, a Arte efetiva, que não deve ser confundida com seus indigentes arremedos*, quase nunca está presente na vida do homem comum, fato indicativo de que a resposta não foi dada após alguma reflexão. Outros, com alguma cultura a mais, responderão que a sua serventia está em manter em nossa mente a lembrança do “Mundo das Ideias”, revelado por Platão, de onde viemos.
Mas, não obstante a origem que lhe seja atribuída, a Arte é um componente das sociedades humanas e pode-se afirmar que nela está aquilo que, realmente, pode nos qualificar como uma espécie superior, embora, como dissemos, a sua apreciação e difusão esteja restrita a poucos.
Para Schopenhauer a função da Arte é nos libertar da escravidão dos Desejos; do jugo inexorável da Vontade; do querer egoísta de bens materiais e do horror tenebroso do Tédio que advém da satisfação da tirana vontade.
Para ele, a contemplação da Verdade (da essência) que está incrustada em todo objeto artístico é a única coisa que nos liberta do Querer, pois só quando estamos admirando um quadro, uma escultura ou quando ouvimos uma sinfonia, um poema, um romance etc. é que nos cessa o Desejo e o Tédio.Apenas quando desfrutamos desses êxtases é que conseguimos voar para outras dimensões que sequer imaginávamos existir.
Podemos observar que o objetivo da Ciência é o especifico, o individual em suas múltiplas formas, enquanto que a Arte visa o universal que está oculto naquele individual. Observa-se, por exemplo, que um poema busca contar e cantar um sentimento que seja sentido de forma semelhante por todos, ainda que resguardadas as individualidades. Winckelmann disse a respeito: “Até mesmo o retrato deveria ser o Ideal do individuo”; ou seja, deveria retratar a Ideia, a essência do fotografado.
E vários outros Pensadores compartilharam dessa tese, pois, em uma gravura de animais, por exemplo, considera-se o mais bonito, justamente aquele que for o mais característico, porque é ele que representa toda a sua espécie. A obra de arte, na verdade, obtém mais sucesso quanto maior for a sua proximidade com a Universalidade ou Generalidade do elemento que expõe. Os grandes mestres ao retratarem um sujeito não visam reproduzi-lo fotograficamente, mas buscam mostrar, ao máximo possível, as características nele existentes, que sejam as mesmas do restante. O célebre sorriso da Monalisa de Leonardo da Vinci demonstra sobejamente essa constatação.
Por isso, para muitos, a Arte é superior à Ciência na medida em que esta progride através do acúmulo de informações intelectuais, enquanto que a Arte atinge a sua finalidade de modo direto e imediato por intermédio da Intuição, ou das Reminiscências que Platão afirmou.
Se para a Ciência basta o esforço e algum talento, para a Arte é imperioso que exista a genialidade, a qual, aliás, não fica restrita ao artista executor, sendo, também, um requisito indispensável para quem degusta o objeto artístico. O encontro entre o gênio que produz e o indivíduo genial que aprecia a obra artística é o que proporciona a beleza da mesma, seja ela avistada dentro de um palácio ou de um casebre. O prazer sentido provém dessa contemplação sem a influência da Vontade, do Desejo.
Para o artista que pinta a “Enseada de Botafogo” e para quem é capaz de apreciar a sua pintura, os acidentes geográficos ali desenhados são mais que simples acidentes materiais; são, na realidade, evocativos de uma beleza que dispensa posses para ser desfrutada.
E dentro desse contexto, até os acontecimentos trágicos ganham outra dimensão, como se observa, por exemplo, em “Guernica” do genial Pablo Picasso. Ante o horror da cidade bombardeada durante a Guerra Civil Espanhola, ergue-se a trágica beleza pintada pelo Mestre, como uma reafirmação de que nem toda a humanidade é composta por aquelas feras que se esfacelam. Levanta-se como um grito de que sempre haverá uma esperança.
De alguma maneira, a Arte suaviza a fealdade da vida e da servidão a que o homem é submetido, ao mostrar o que existe de Universal por trás da bestialidade individual. A propósito, disse Espinosa:
“Na medida em que a mente vê as coisas em seu aspecto eterno, participa da eternidade”.
Assim sendo, não é difícil aceitar a explicação de que por isso a Arte, em seu sentido efetivo, seja um privilegio para poucos, já que a Natureza produz apenas os poucos gênios que são necessários para o desenvolvimento da humanidade, que, ao cabo, é ela mesma. Para a Vontade, a essência do mundo e da vida, é necessária apenas a maioria da população, pois é nessa massa, sequiosa em se reproduzir, que está a sua garantia de vitória contra a morte.
E, segundo Schopenhauer, esse poder que a Arte possui está mais explícito na Música, já que ela não é como as outras expressões artísticas, que se constituem em cópias da Ideia (platônica). A Música, ao contrário, é cópia da própria Vontade, mostrando-a em seu eterno movimento, em sua luta perpétua, vagando sem nunca sossegar.
E ela também difere das demais porque não se refere às sombras, aos reflexos (também no sentido platônico), já que fala de si mesma; afetando diretamente os nossos sentimentos; e não através de ideias que precisamos construir a partir de um estímulo, como acontece, por exemplo, quando contemplamos um quadro, uma escultura, um texto etc. Sua mensagem ultrapassa o intelecto.
...
Na sequência veremos a proximidade que Schopenhauer encontrou entre o êxtase propiciado pela contemplação de obras de Arte e o êxtase religioso.
 
Produção e divulgação de Pat Tavares, lettre, l´art et la culture, assessora de Imprensa e de RP., do Rio de Janeiro em Junho de 2014.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Schopenhauer e o Iluminismo Alemão - Parte X - O individuo genial.


Neste capitulo Schopenhauer aborda com muita propriedade os indivíduos que se situam acima da média e que por isso chocam os demais por apresentarem um comportamento inusual, que, geralmente, é classificado pejorativamente como “estranho”, “maluco”, “tolo”, “acomodado” etc.
Afinal, para o homem comum, mero escravo da Vontade e vitima do Tédio, como seria possível compreender um indivíduo que paira acima dessas cadeias? Como poderia entender, por exemplo, um indivíduo como o príncipe indiano chamado Sidharta (posteriormente classificado como um Buda, isto é, como um “Iluminado”) que num belo dia abandona os luxos de sua vida nababesca para encontrar a paz interior no seio do despojamento?
Esse tratado de Schopenhauer é, certamente, um dos mais esclarecedores sobre o tema, sendo a base para que vários autores modernos, nele apoiem as suas teses psicológicas, de autoajuda e religiosas.
Vale à pena conhecê-lo, pois, enquanto ele nos ajuda a compreender as atitudes de pessoas geniais – e dentro do possível, seguir-lhes o exemplo - também nos mostra que existe sim uma força capaz de vencer a cadeia dos Desejos e o horror do Tédio.
Nesse contexto, gênio não é, claro, o cientista brilhante, a soprano divina, o maratonista de escol, o biliardário que faz fortunas imensas e outros tipos que normalmente são associados ao sucesso e à felicidade.
Aqui, genial é o indivíduo que detém no nível mais alto a Sabedoria, pois não é preciso muito esforço para observar que quanto mais baixa for a forma de vida, mais ela é regida pela Vontade. Entre os seres humanos não é diferente, pois quanto mais embrutecido for o indivíduo, mais ele se sujeita à escravidão dos Desejos. São aqueles que buscam desesperadamente a posse, porque intuem que só existem por terem algo e não por serem uma pessoa que possa ser querida, estimada, amada.
E, infelizmente, em sua maioria a humanidade é composta por essas pessoas, cuja Vontade é imensa e cuja Sabedoria é mínima. Justamente o oposto do indivíduo genial que essencialmente prima pelo Saber em detrimento do Desejo. Segundo Schopenhauer “o gênio consiste no seguinte: a faculdade de Saber recebeu um desenvolvimento consideravelmente maior do que o serviço da Vontade exige”.
E para que essa Sabedoria aconteça é imperioso que haja uma transferência da força despendida na atividade reprodutora para o exercício intelectual, já que a reprodução é onde a Vontade se manifesta com maior intensidade, porque só através da mesma é que ela consegue vencer sua inimiga perpétua, a morte. Nesse ponto, aliás, é possível citar um exemplo que embora peque por ser extremado, presta-se muito bem como ilustração: “alguns indivíduos são tão acossados pelo instinto sexual que são capazes de cometerem estupros e outras violências sem qualquer peso na consciência, mas são incapazes de sentirem ou de despertarem uma afeição sincera, porque as suas sensibilidades perderam-se ante a dominância da Vontade que os subjuga”. Schopenhauer afirma ser essa a causa da aversão que geralmente existe entre o indivíduo dotado de gênio e a mulher, já que para ele, o gênero feminino representa a reprodução e a submissão do intelecto à Vontade (de viver) e de fazer viver. Para elas, tudo é subjetivo, pessoal e considerado como um simples meio para fins pessoais. Óbvio que essa visão negativa que o filósofo tinha sobre o universo feminino não se escora na realidade dos fatos. Também é óbvio que foi fortemente influenciada por sua péssima relação com a mãe. Contudo, sem qualquer intuito discriminatório ou chauvinista, deve-se admitir que a atenção dada pela mulher comum aos aspectos materiais (traduzida pela característica vaidade feminina), é um elemento que apoia parcialmente a afirmativa do filósofo.
Mas, voltando à corrente principal do tema, vemos que o gênio, já liberto da Vontade, pode ver o objeto (as coisas) em sua real dimensão, tal como ele é. Como se o seu pensamento fosse um raio de sol que atravessa uma nuvem deixando para trás a mera aparência, a casca, e avançando até a essência, a realidade última daquele fenômeno. É o que acontece, por exemplo, com os grandes pintores que veem nas pessoas que retratam, não só as suas características individuais, mas, também, aquilo de universal, de real, de permanente que nelas existem. O gênio percebe clara e imparcialmente aquilo que é objetivo, ou seja, essencial.
E é esse afastamento do prisma subjetivo, pessoal, que faz o indivíduo genial ser mal adaptado ao mundo dos homens comuns, governados pela Vontade. Não é falso, portanto, o estereotipo do gênio que por mirar uma estrela cai numa poça de lama. Por enxergar tão longe, ele não consegue ver aquilo que o rodeia, o que dá margem para aqueles adjetivos que expusemos anteriormente acerca de sua pessoa, ou seja, esquisito, lunático, estranho etc. e que o torna isolado das outras pessoas.
Afinal, a sua atenção se fixa na essência, no fundamental, no eterno, no universal; enquanto que a da grande massa atenta apenas para o superficial, específico, temporário etc. São dois tipos de mentes totalmente diferentes, sem nenhuma área em comum que possibilite a simpatia mutua. Quando muito, existe apenas a tolerância dos vulgares, talvez acrescida de uma admiração cerimoniosa, e a condescendência do erudito com a ignorância daqueles. Segundo Schopenhauer: “em geral o homem só é sociável na medida em que for intelectualmente pobre e ordinariamente vulgar”.
Contudo, o homem dotado de genialidade não se ressente muito da exclusão social, porque ele não depende de companhia como as pessoas comuns já que a riqueza de sua vida interior satisfaz as suas necessidades. Segundo o filósofo:
“O prazer que ele recebe de toda a beleza, o consolo que a Arte proporciona, o entusiasmo do artista (...) habilitam-no a esquecer as preocupações da vida e o recompensam pelo sofrimento que aumenta em proporção à clareza da consciência e pela sua solidão desértica entre uma raça diferente de homens”. 
A dor aumentada que ele sente, por conta de enxergar com mais clareza as atrocidades da vida, e a própria solidão a que sua genialidade o condenou, em alguns casos, podem fazer com que o homem genial leve uma vida melancólica e essa tristeza, em extremos, pode levá-lo às raias da insanidade, como acontecido com o poeta Byron, o escritor Rousseau e tantos outros.
Todavia, ainda que esses indivíduos geniais possam sofrer a melancolia e a insanidade é forçoso admitir que neles está o exemplo a ser seguido para que o homem consiga alçar o voo a que talvez algum deus o tenha destinado.

Nota do Autor – é certo que os conceitos de Insanidade, de Normalidade e de Dor são relativos, mas para não alongar a questão e não fugirmos ao escopo da obra, aqui se adjetivou como “normal” aquilo que é concernente à maioria dos casos.
 
Produção e divulgação de Pat Tavares, lettre, l´art et la culture, assessora de Imprensa e de RP., do Rio de Janeiro em Junho de 2014.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Schopenhauer e o Idealismo Alemão - Parte IX - A Sabedoria da Vida


Antes de tudo, façamos a seguinte reflexão: aqueles que são muitos ricos conseguem satisfazer inteiramente à “Vontade” e viver livre do tédio?
Não! É claro que não, pois, ainda que o dinheiro possa trazer inegável conforto e muitas facilidades, ele é impotente para vencer a essência do homem comum.
Se assim não fosse, como explicar, por exemplo, a vida do bilionário que se mata nos negócios apenas para aumentar aquilo que já lhe sobra. Apenas para cumprir o que lhe ordena a sua Senhora, a Vontade insaciável. Ou aquele outro bilionário que se entrega a hobbies extravagantes ou a meritórias ações filantrópicas para fugir do tédio que a sua saciedade lhe impõe?
E muitos outros exemplos seriam possíveis. Para alguns, tantos quantos são os domingos e feriados...
Vê-se, portanto, o quanto é absurdo o desejo ganancioso pelos bens materiais que rege a vida do homem, pois se é correto lutar por boas condições e usar a Vontade como plataforma de impulsão para as lutas diárias, a excessiva sujeição aos ditames do Querer torna o homem uma simples peça na engrenagem da vida, incapaz de perceber a grandeza que existe em outras coisas que não são diretamente associadas à moeda.
A obsessão pela fortuna mostra o quão tolo é o homem que, dela, espera a libertação do jugo da Vontade. Tolice que se revela mais atuante nos indivíduos de intelectualidade e cultura prejudicadas e que veem a posse como a substituta perfeita para as outras qualidades que lhe faltam. São pobres diabos que vivem em círculo vicioso, já que são continuamente pressionados para aumentarem suas rendas e a isso se dedicam com tal intensidade que não lhes sobre tempo nem vigor para adquirirem outras qualificações, outros saberes. No fim, morrem sem terem aproveitado as suas posses e sem sequer suspeitarem que não está na riqueza o caminho para a alforria e para a paz de espírito, mas sim na Sabedoria, a qual, mesmo tendo nascido por obra da Vontade, é a única coisa que pode dominá-la.
Nas palavras de Schopenhauer:

“O homem é ao mesmo tempo um impetuoso esforço da Vontade (cujo foco está no sistema reprodutivo) e um eterno, livre, sereno súdito do Conhecimento Puro (do qual o foco é o cérebro)”.

O inicio da independência do Saber em relação à Vontade pode ser observado quando, por exemplo, o intelecto se recusa a obedecer ao comando da Vontade, isto é, quando se recusa a agir apenas por algum instinto. Ou, então, quando não fixa na mente aquilo que a Vontade lhe ordena; ou quando a memória se nega a atender a uma ordem de busca determinada pelo Desejo.
E desse inicio titubeante o caminho vai sendo aplainado à medida que os tratores da Sabedoria –fortalecida pela contínua aquisição de Cultura real e efetiva – agem contra o cipoal primitivo dos instintos brutos. Uma vez que o poder da Razão esteja consolidado, o Desejo se mostra moderado e modelado para servir apenas como um indispensável estímulo ao individuo e não mais como o seu algoz terrível.
Para alguns eruditos, essa teoria é apenas outra apresentação do Determinismo; e Schopenhauer não nega que seja, já que para ele o livre arbítrio estará sempre condicionado aos limites impostos pela essência do mundo e da vida, ou seja, a Vontade. Porém, a seu ver, quando o homem compreende que tudo que lhe atinge é apenas o resultado de causas anteriores e não por obra de sinistros azares ou terríveis desígnios divinos, ele passa de vitima a agente, vez que controlando os seus atos presentes, evitará resultados nocivos no futuro. Em suas palavras:

“De dez coisas que nos perturbam, nove não teriam como fazê-lo se as compreendêssemos perfeitamente no que se referisse a suas causas, conhecendo, portanto, sua necessidade e sua verdadeira natureza. (...) Porque aquilo que a brida e o freio são para um cavalo indócil, o intelecto é para a vontade de um homem”.

Assim, dono de si porque a Filosofia refinou-lhe a Vontade, cabe ao homem tomar o cuidado de viver efetivamente esse aprendizado e não considerá-lo apenas como uma leitura agradável ou voltar a se prostrar passivamente, porque a absorção do Pensamento de terceiros, sem a devida reflexão e experimentação, de nada adianta na luta contra o desejo incontrolável. Cabe-lhe, também, seguir os ensinamentos dos grandes sábios, que através do despojamento dos luxos supérfluos, fortaleceram a riqueza pessoal; e buscar nos textos reconhecidamente valiosos o recheio da mente, porque só dessa maneira é que se forma a certeza de que a paz de espírito e a felicidade possível dependem mais do conteúdo da cabeça que do da carteira.
Com efeito, para Schopenhauer, a maneira de se fugir do mal desencadeado pelo desejo insaciável é a contemplação sábia* da vida e que o altruísmo sincero o único caminho eficaz para se escapar do tédio tenebroso, já que ao se promover o bem estar alheio, é a própria satisfação que aumenta. Para ele:

“Quando uma causa externa ou disposição interna nos tira de repente da interminável corrente do querer, e livra o conhecimento da escravidão da Vontade, a atenção já não é mais dirigida para os motivos do querer, mas compreende as coisas livres das suas relações com a vontade e, assim, as observa sem interesse pessoal, sem subjetividade, de forma puramente objetiva – entrega-se inteiramente a elas desde que sejam ideias, mas não na medida em que sejam motivos. Então, de repente, a paz que sempre procuramos, mas que sempre nos escapou no antigo caminho dos desejos, vem até nós por sua livre vontade e para nós é bom. É o estado sem sofrimento que Epicuro considerava o maior dos bens e o estado dos deuses; porque ficamos, por enquanto, livres da infeliz luta da vontade; respeitamos o Sabath da pena de trabalhos forçados do querer; a roda de Ixíon fica parada”.


Nota do Autor – não confundir esse tipo de Sabedoria* com a inteligência erudita ou inteligência prática.

Produção e divulgação de Pat Tavares, lettre, l´art et la culture, assessora de Imprensa e de relações com o público. Rio de Janeiro, no inverno de 2014.

domingo, 6 de julho de 2014

Com muito orgulho, com muito amor.



Não foi, menino, a primeiro golpe
que nos atingiu pelas costas.
Vários outros já nos atingiram
e outros ainda virão.
E que venham!

Saberemos, como sempre soubemos,
encontrar o caminho da volta.
Por isso, menino da camisa dez,
se agora o covarde dos Andes te atingiu,
não lamentes. Ele foi só mais um.

Esteja certo de que haveremos de buscar
em tua arte, em tua coragem, a força para seguir.
Se o covarde dos Andes tentou parar o Brasil,
saiba que não conseguiu.

A tua dor, agora de todos nós
reafirmou-nos como brasileiros.
E, ganhando ou perdendo,
com muito amor e com muito orgulho.


Homenagem pouca ao menino do Brasil, Neymar.

Produção e divulgação de Pat Tavares, lettre, la a´rt et la culture, assessora de Imprensa e de Relações com o público. Rio de Janeiro, no inverno de 2014.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Elos


Elos

E assim os elos vão se rompendo
e cada vez mais
a vida perde os seus antigos portos.

Frágeis, já se mostram as âncoras
e sinto que as lembranças vagam vazias
como as tantas ruas em que andei.

Onde estarão as mãos que me guiaram,
as mãos que me ensinaram a alquimia das letras,
as mãos, que eu sabia, sempre a me esperar?

Em qual montanha, agora, afagam a terra?
Em que Céu, agora pintam
a esperança que nos preenchia?



Produção e divulgação de Pri Guilhen, lettre, l´art et la culture, assessoria de Imprensa e de RP., no Rio de Janeiro, no inverno de 2014