domingo, 7 de abril de 2013

EDIPO REI - GREGAS TRAGÉDIAS (Adendo: Freud, o Inconsciente e o Consciente.)





 A roda do ano reprisa a dor de sempre? ... Édipo não sabia que tinha o “complexo de Édipo”... (Keneth Tynam - crítico teatral)

Sófocles – 496/406 – Colono

Cenário – diante do Palácio Real, em Tebas, com altares junto às portas.

Época da ação – Idade lendária da Grécia. A 1ª apresentação em – 430 em Atenas


Personagens:
Coro, representando os anciãos de Tebas.
Creonte, irmão de Jocasta.
Édipo, rei de Tebas.
Jocasta, rainha de Tebas.
Suplicantes, as
Tirésias, o famoso adivinho cego.
Guardas,
Servidores do Palácio,
Sacerdote,
Emissário de Corinto,
Pastor da casa de Laios,
Arauto do Palácio Real;
Aia, acompanhante de Jocasta;
Menino, guia do cego Tirésias.


A representação inicia-se com Édipo dirigindo-se a um grupo de cidadãos de Tebas, reunidos à frente do palácio real. Ali, ele pede que um dos anciãos, um venerável Sacerdote, diga o que deseja o grupo, pois ele sabe que Tebas padece de um terrível período de privações e amarguras, como bem dizem as lamentações e as súplicas que antes já lhes chegaram.

Responde-lhe o velho, que o povo sofre com a peste que assola a cidade e o campo tebano, dizimando tudo que atinge: plantações, gado, pessoas. E que esperam dele, Édipo, o melhor dos mortais, a salvação, pois ele é a última esperança de todos.

Afinal, foi ele quem matou a Esfinge* que antes aterrorizava a cidade exigindo pesado tributo de todos que passavam, e realizou uma série de melhorias à população. Contam com ele, pois se nem bem conhecendo a cidade, ele já lhes prestara tantos favores, agora, com mais motivos, esperam que use a sua inteligência e força, ou dos favores que os deuses lhe concedem, para encontrar a solução para tão grave problema.

Esfinge* – normalmente o nome “Esfinge” nos remete ao monumento egípcio situado ao lado da grande Pirâmide. É claro, porém, que aqui se refere a outro Ser Mitológico. Também chamada de “inexorável cantadeira”, tinha cabeça de mulher, corpo de animal e atraia os passantes com seu canto, propondo-lhes enigmas e devorando os que não os adivinhassem. No encontro com o Édipo o enigma indagava: que animal tem quatro pés de manhã, dois ao meio-dia e três à tarde? Édipo respondeu que era o homem, que na primeira infância engatinha, depois anda com dois pés e na velhice além dos dois pés apoia-se numa bengala formando, pois, um tripé. Graças ao seu acerto, o herói livrou a cidade daquela desgraça, pois a Esfinge precipitou-se num abismo e morreu.

Na sequencia, o Sacerdote apela para a vaidade de Édipo ao aludir o quão grande será sua glória por ter salvado a cidade novamente. Serás, diz, visto como o herói de Tebas, aquele que a salvou de duas calamidades terríveis.

NOTA do AUTOR - note-se uma característica humana que sobrevive ao passar do tempo: a necessidade de delegar a outrem a responsabilidade pelo próprio bem-estar. Ainda hoje, lideres são buscados (e como esses e outros heróis são inexistentes, busca-se em Deus essa figura que garante a felicidade de cada um que o invoca) e aceitos com subserviência. No mínimo para lhes debitar o fracasso pessoal, haja vista que sempre é mais fácil atribuir a terceiros as próprias derrotas. E no máximo para usufruir o que foi conquistado sem a necessidade de penosos sacrifícios e trabalhos. A contrapartida a isto, o ganho de quem assume o papel de “Salvador”, situa-se no espaço do egocentrismo. Na necessidade de ser o centro das atenções, de ser amado, querido etc.

Responde-lhe Édipo que está ciente da hecatombe que se abateu sobre a “Tebas das Sete Portas” e que seu sofrimento é maior que o deles, pois enquanto cada um sofre por si, ele sofre por todos. Diz-lhe que mandou Creonte, seu cunhado, ao Santuário do deus Apolo, em Delfos, para receber instruções de como fazer para cessar o flagelo e que tão logo ele volte tudo fará para vencer esse inimigo.

Nisso, Creonte entra em cena portando boas novas, como crê. Embora difícil, a exigência poderá ser cumprida já que consiste em achar e extirpar um “mal” nascido em Tebas e nela residente.

Respondendo às ansiosas dúvidas de Édipo sobre o que seria esse “mal”, Creonte lhe diz que deverá ser localizado e banido, ou justiçado, o assassino do rei Laios.

Édipo sabe que seu antecessor foi assassinado e embora não o tenha conhecido, concorda que seu sangue seja vingado, como exige Apolo. Que o assassino seja severamente punido, seja ele quem for, conforme as instruções do deus.

Na sequencia, Édipo e Creonte conversam sobre as dificuldades de se esclarecer crime tão antigo e sobre a imperiosa urgência de começar as investigações. O espaço geográfico da busca é pequeno: a cidade e o campo adjacente de Tebas, já que o assassino ali reside. Também o espaço cronológico é sinalizado para o leitor ou espectador pela frase de Creonte “a ameaça da esfinge nos forçava a por de lado as coisas duvidosas e a só pensar em nosso dia-a-dia”; isto é, pouco antes da chegada de Édipo à cidade.

Com essas premissas, o rei inicia sua investigação imaginando que ela também o favorecerá pessoalmente, pois se já mataram um rei, é possível que queiram matar o sucessor e ao liquidar o assassino estará se livrando de um inimigo oculto e desconhecido.

Iniciando o inquérito, Édipo conclama ao assassino a apresentar-se, prometendo-lhe que nenhuma violência sofrerá, bastando que aceite ser banido pelo resto da vida. Por outro lado, ameaça o culpado de se tornar um pária, de todos recebendo ofensas e desprezo e, até, agressões físicas e enxotamentos se não assumir o crime que cometeu. Nessa hipótese, também amaldiçoa o facínora para que sua vida seja de eterna desgraça, assim como aos seus parentes. Aos outros cidadãos promete régia recompensa a quem delatar o culpado.

O Corifeu toma a palavra e após falar de sua inocência, sugere que Tirésias, o famoso adivinho, seja chamado, pois ele tem os mesmos poderes que qualquer outro Oráculo e poderá elucidar a autoria do crime.

Édipo responde-lhe que por sugestão de Creonte já tomara essa iniciativa e estava aguardando-o para breve. O Corifeu cita alguns boatos que sugerem ter sido alguns viajantes o matador de Laios e Édipo diz ter ouvido semelhante versão, mas são informações truncadas, inconclusivas.

Nisso, Tirésias chega e Édipo saúda respeitosamente a sua sabedoria, a sua capacidade de adivinhação e lhe pede que o ajude a desvendar o crime e, assim, salvar a cidade.

O velho profeta maldiz seu dom, já prenunciando uma resposta amarga e inesperada. Ciente da gravidade do que já sabe por intuição, pede a Édipo que não o obrigue a dizer o que sabe. Pede, também, que o levem de volta à sua casa.

Preocupado com esse comportamento, o rei insiste para que o adivinho conte o que sabe. Implora-lhe a verdade, mas Tirésias mantém sua recusa e com isso aumenta o desespero de Édipo, que passa a vê-lo como um inimigo. Tomado pela raiva, acusa o adivinho de ter sido o assassino, ou o mandante do crime.

Porém, na réplica, o profeta diz que é ele, Édipo, a desgraça que está arruinando a cidade e pede que não mais lhe dirija a palavra, enquanto se queda em profundo silêncio.

Édipo, indignado pela acusação de Tirésias, ameaça lhe punir, mas o velho não se amedronta e diz que a verdade que está consigo o protegerá como sempre protegeu. Porém, não obstante sua relutância cede aos apelos – agora patéticos – de Édipo e com clareza torna a dizer que ele é o assassino de Laios e como o rei obriga-o a repetir, ele o faz sem qualquer temor. Diz ainda que o casamento de Édipo e Jocasta (mesmo que ambos nada saibam) levou-o a mais sórdida das situações, embora ele nem perceba aquele horror. E ante as novas ameaças de Édipo, insiste em dizer que aquilo é a pura verdade.

Na tréplica, o rei o chama de farsante, embusteiro; e lhe acusa de ter-se vendido a Creonte, que arquiteta sua queda para herdar o trono. Alega que ele e o cunhado estão em espúrio conluio visando à tomada do Poder e a auferição de riquezas.

Mas ao ouvir de Tirésias que seu fim se aproxima, que o Destino não lhe tarda pelas mãos de Apolo, demonstra alguma insegurança e pergunta se aquela afirmativa é pura invencionice dele, ou de Creonte?
E já demonstrando medo e preocupação discursa sobre o poder da inveja que sentem do seu poder, prestigio e fortuna. Inveja que faz de Creonte, que antes julgava leal amigo, um reles intrigante. E enquanto repete as acusações de falsidade e charlatanismo, questiona Tirésias sobre o porquê ele, tão poderoso em decifrar mistérios, não decifrava os enigmas da esfinge? Por que foi preciso esperar que um simples viajante, como ele, assim o fizesse e com isso salvasse Tebas?

Nesse ponto intervém o Corifeu argumentando que os insultos trocados foram originados pela raiva e que eram inúteis já que em nada contribuíam para solucionar o terror que toma a cidade.

Contudo, Tirésias volta à carga e afirma que se Édipo zombou de sua cegueira, em breve saberá que seus dois olhos pouco ou nenhuma serventia tiveram para lhe mostrar a sujidade de seus atos, a sordidez de matar o próprio pai e deitar-se com a própria mãe. Diz, ainda, que as desgraças de Édipo não cessarão nele, mas atingirá sua “funesta prole”.

Irritado, Édipo já não contra-argumenta e se limita a expulsar o velho profeta, que na partida, volta a vaticinar a sua cegueira, sua ruína, a desgraça com seus filhos, o seu banimento e todos os sofrimentos que enfrentará por ter sido o marido da própria mãe e homicida do próprio pai.

NOTA do AUTOR – observe-se o tom acusador de Tirésias. Mesmo sendo ignorante sobre seus atos, Édipo é apontado como uma facínora. Essa tendência se coaduna com a ideologia da antiga Grécia que via naquele que praticasse atos contrários à moral, mesmo que à revelia, um homem marcado pelo Destino e, portanto, culpado de alguma forma. Os hindus, e mais recentemente algumas seitas que lhes seguem os ensinamentos, acreditam no “Karma”, ou seja, que um erro cometido no Passado é cobrado no Presente. Pode-se fazer alguma analogia entre essas duas visões, lembrando sempre, que a grega é discípula da hindu.

O povo, que ouvira a acusação de Tirésias, no primeiro momento mantém a crença na inocência de Édipo, mas um germe de dúvida começa a se instalar entre todos e a cizânia se principia quando Creonte sabe do que Édipo o acusara e se dirige ao povo para externar sua indignação pela maldosa alusão que Édipo fez, colocando-o junto com Tirésias num sinistro plano para herdar o poder e a fortuna do cunhado.

Na sequencia, Creonte é confrontado por Édipo, que torna a lhe acusar de tramar a sua queda e aponta-lhe algumas evidências (segundo ele as vê) que confirmariam sua tese.

Creonte contra-argumenta e entre outras posições cita a de que seria uma estupidez imensa trocar a sua suntuosa vida de agora pelas agruras que permeiam a vida de quem governa. Sim, pois em sua posição ele tem os mesmos privilégios que Édipo, mas não tem os mesmos encargos.

E a estéril discussão prossegue até que a rainha Jocasta surge e põe fim a mesma criticando a ambos por estarem focados apenas em problemas particulares e não na solução dos graves problemas que a coletividade enfrenta.

Também o povo apoia Creonte e pede que antes de acusá-lo Édipo faça um inquérito válido cujas provas não deixem dúvidas de suas eventuais más intenções. Todavia, Édipo aferra-se em sua posição.

E tamanho é o seu apego a essa tese, sem qualquer comprovação objetiva, que se pode deduzir que inconscientemente ele já estaria em processo de fuga. Seria uma desesperada maneira de afastar o horror que Tirésias escancarou, mas que ele reluta aceitar. Afinal, como admitir que desejasse a própria mãe e odiasse o pai ao ponto de matá-lo?

Esse conflito entre uma possibilidade, uma tendência, e o asco que causa, é a origem de tantos males emocionais? Para Freud e seguidores, sim.

Já no palácio, com Jocasta, Édipo não se aquieta com a desconfiança que ela tem de oráculos, adivinhos e quetais. Em vão ela lhe diz que já teve provas cabais de que adivinhos, profetas, místicos são falhos, ou malévolos. Cita o exemplo da profecia que versava sobre a morte de Laios, pois até onde se sabe, o rei foi morto por salteadores, e não pelo filho, no cruzamento de três grandes estradas.

NOTA do AUTOR – antes do nascimento de Édipo, seu pai biológico, Laios recebeu uma profecia do Oráculo que o alertava de que o próprio filho o mataria e desposaria a sua esposa. Para evitar que a profecia se cumprisse, Laios ordenou que um servo levasse a criança para o campo e lá o matasse. Porém, o servo condoeu-se do bebê e deixou-o numa gruta, de onde ele foi resgatado por alguns pastores e entregue ao Rei e a Rainha de Corinto. Observe-se que a morte do filho não abalou a mãe Jocasta como seria de se esperar. Ao invés de se rebelar contra o marido assassino, acomodou-se ao luxo que ele lhe proporcionava.

Porém, ao ouvir o local onde ocorreu o assassinato, Édipo se sobressalta, pois foi ali que ele matou o homem que lhe impediu a passagem. Como a informação da data em que ocorreu o episodio é similar à do seu entrevero, a sua angústia aumenta e, ademais, com a informação sobre a aparência do rei falecido, uma terrível suspeita toma-lhe o coração. Pressente que Tirésias estava certo.

E quando Jocasta lhe conta que Laios viajava com uma pequena escolta e que ia num carro; e que a noticia chegou a Tebas através de um servo, o único sobrevivente (o qual ao saber de sua união com Jocasta pediu a esta que o mandasse para o campo, sem jamais voltar à cidade) a suspeita transforma-se em certeza. Já não tem mais dúvidas. Era ele o assassino de Laios.

Tomado de terror, pede a Jocasta que chame aquele servo e até que ele chegue conta-lhe o sucedido em sua pseudo terra natal, Corinto: em certo banquete, um comensal embriagado disse que ele era adotado. Embora seus pais adotivos, Polibio e Mérope negassem com veemência, uma dúvida ficou em seu coração. Para dirimi-la foi ao Oráculo, em Delfos, mas veio-lhe uma resposta confusa, recheada de dor, sofrimento, lutas etc. Estudando-a com mais vagar viu a trágica profecia de que mataria o pai, deitar-se-ia com a mãe e com ela geraria uma prole destinada a grandes sofrimentos. Foi para evitar esses horrores é que decidiu sair de Corinto e vagou pelo Mundo até que num entroncamento de três grandes vias, matou um homem...

Preso de profundo desgosto, conta a Jocasta como matou aquele estranho, que agora, pressente ser Laios. E, pior, casou-se com a viúva do mesmo.

Talvez se não fosse o calor dos acontecimentos, que geralmente prejudica o raciocínio, ambos teriam visto que tantas coincidências não poderiam ser explicadas. O irracional, o destino, assume o espaço que deveria ser do raciocínio e apenas por isso é que Jocasta insiste em sua tentativa de acalmá-lo dizendo que segundo o sobrevivente, os assassinos de Laios eram vários bandidos e não um só homem. Agarrado nessa esperança, Édipo aguarda a chegada do homem enquanto escuta Jocasta maldizer os oráculos, taxando-os de incorretos, frágeis e talvez manipulados.

NOTA do AUTOR – observe-se que Jocasta desacreditava dos oráculos, mas não dos deuses, os quais, nessa obra e em várias outras, são tidos como reais (materiais, concretos). A vida na Grécia antiga era efetivamente regulada por essas entidades, que participes do cotidiano, interferiam das menores questões até os grandes problemas. O curioso é que tal hábito se mantém na sociedade atual e não é raro de se ver pedidos que vão um suculento almoço até a cura do câncer.

Passado algum tempo, e após pedir a intercessão de Apolo para que acalme seu inconsolável marido (e filho), Jocasta recebe a visita de um emissário de Corinto que relata o desejo de seus compatriotas de terem Édipo como rei, haja vista que o velho Polibio morreu.

Mais que o trono, a noticia alegra o casal pelo fato daquela morte ter-se dado sem a participação de Édipo. Exultam com a fabilidade do Oráculo, pois como Édipo poderia matar um pai que morreu naturalmente. Doutro perigo, o de deitar-se com mãe, Édipo não desdenha. Nesse ponto, Jocasta diz à frase que ficou célebre graças ao Dr. Freud: - não tenhas medo da cama de tua mãe, quantas vezes, em sonho, um homem dorme com a mãe!

O emissário de Corinto ao saber dos motivos de Édipo para se autoexilar, tenta sossegar-lhe contando que ele é filho adotivo de Mérope e que foi dado ao rei e à rainha de Corinto como presente e para suprir a falta de filhos do casal. Também lhe conta que o recebeu de outro pastor, da casa de Laios, numa várzea e que tratou de seus tornozelos (Édipo em tradução literal significa: “o de pés inchados”) machucado pelos grampos que o prendia, conforme Laios ordenara.

Édipo insiste nos pormenores, pois quer saber em detalhes a sua origem verdadeira, enquanto Jocasta tenta dissuadi-lo, mas sem êxito. Por fim, ela se afasta dizendo as últimas palavras a Édipo: - pobre de ti... Que nunca descubra quem é... Desgraçado!

Adivinhando o final, Jocasta acovarda-se e tenta interromper o processo. Vencida, porém, pela persistência do marido – a quem já pressente como filho – adentra o palácio. Nada mais dizendo sobre ela, Sófocles abre espaço para que o leitor ou espectador imagine o cataclismo em sua alma. Talvez remorso pelo co-assassinato do filho, ou horror por ter-lhe como homem, ou medo pelo que virá no Futuro etc.

Édipo ainda se ilude que o pior sobre sua origem seja relacionado com a miséria, ao baixo nível social, mas como se acha um eterno bafejado pela boa sorte, sente-se feliz por seu Destino. O povo compartilha de seu entusiasmo, pensando que o herói seria filho de algum dos deuses e, por isso, divina seria a sua origem.

Nesse momento chega o pastor, que é reconhecido pelo povo e pelo emissário de Corinto como aquele que lhe entregou Édipo para que fosse criado como filho. O pastor, após alguma indecisão pelo tempo transcorrido, lembra-se afinal e se põe a praguejar contra o emissário e só depois de ameaçado por Édipo é que confirma ter entregado o filho enjeitado de Laios. A criança que lhe fora dada pela própria mãe, Jocasta, para ser morto.

Contudo, por compaixão, ele não cumpriu a ordem recebida dando o garoto ao pastor que agora é o emissário de Corinto. Esse trecho confirma a culpa de Jocasta que não titubeou em mandar matar o próprio filho para continuar usufruindo das vantagens em ser a rainha. E que no Presente não vacila em tentar impedir a pesquisa de Édipo, pois abafando o caso manteria os seus privilégios.

- Horror! Horror! Horror! Grita Édipo, sacudido por tal revelação. Confirmou-se que ele matara o pai e cometera incesto com a mãe. Em seu desespero, pragueja contra sua sina terrível e diz que não suporta mais a luz do Sol (ou da verdade).

O Coro entoa seus lúgubres cantos e desencantos, citando a volatilidade da vida humana que a despeito da intenção e dos atos, vai aos píncaros da glória, da fortuna e noutro momento desce a mais sórdida corrupção e miséria.

Entra em cena o Arauto que anuncia ao povo o relato que fará sobre a sujidade que existe no Palácio Real. Tanto aquela cometida sem dolo, quanto as premeditadas malevolamente. Prossegue anunciando a morte de Jocasta que cometeu suicídio enforcando-se após duro suplicio emocional.

E que ao ver a rainha morta, Édipo tomou os alfinetes que lhe prendiam a túnica e feriu seus próprios olhos dizendo: - olhos meus, não vereis mais esta culpa, esta vergonha; nunca mais vereis o que não deveríeis ter visto nunca...

Insano, Édipo manda que os portões sejam abertos e ordena aos súditos que entrem para verem o maior horror possível. Depois, exige ser banido de Tebas e segue vacilante, sem ninguém para guiá-lo. O povo, não obstante o incesto e o parricídio ainda se condói da desgraça de seu Rei, que vaga entre os impropérios que lança à própria sina.

A esse mesmo povo que o critica por ter vazado os olhos, Édipo responde que o fez a mando do deus Apolo e suplica que o levem dali com urgência enquanto pragueja contra o pastor que o salvou da morte em criança, mas lhe deu uma vida cheia de terror.

E prosseguindo suas lamentações, explica o porquê da automutilação e não o suicídio, valendo-se da crença na época de que no Hades o corpo físico continuava a desempenhar as mesmas funções e seus olhos, então, veriam os genitores, cobrindo-o de vergonha.

NOTA do AUTOR note-se que Édipo age com a culpa de quem cometeu os crimes premeditadamente. Seu Consciente recrimina os atos e intenções do Inconsciente, disso resultando o conflito interior que, tempos depois, transformou-se na pedra angular dos estudos de Freud. Porém, fica dúvida: seu Inconsciente procurou essas situações, ou elas foram armadas por simples acaso? Mas o “acaso” existe por si? Não seria apenas o cenário composto pelas inclinações inconscientes? Observe-se, ainda, que se para Édipo havia motivos para tantas lamentações por ter percorrido a via que o Destino lhe impôs; hoje, essa motivação não seria tão verdadeira, pois o conceito de deus ou deuses já não tem o mesmo rigor de antes e, no entanto, tais conflitos se repetem. A culpa continua existindo sem estar vinculada diretamente a uma figura divina.

Nesse momento chega Creonte, motivo de mais angústia para Édipo que se arrepende por tê-lo acusado injustamente. Contudo, Creonte mostra-se magnânimo e diante da súplica que Édipo lhe faz para que o expulse, responde que esse é seu desejo pessoal, mas só o fará após ter consultado, pela segunda vez, o deus Apolo.

Édipo pede-lhe que dê um enterro digno a Jocasta e que cuide de suas filhas, pois se os filhos – Polinice e Etéocles - já são independentes, elas não. E são elas que adentram a cena, autorizadas por Creonte, para a despedida do pai que lamenta a sorte de ambas.

Insultos, ofensas e rejeições farão parte de seus cotidianos tristes e solitários, pois a solteirice lhes é certa, já que ninguém irá querer casar-se com quem descende de toda aquela sordidez.

Creonte põe fim àquela triste despedida e convida a todos para adentrarem ao Palácio aonde a resposta do deus chegará selando o destino de Édipo. Porém, antes do deus e ante a insistência de Édipo para ser banido, autoriza seu exílio, mas retém suas filhas. Parte Édipo tão sozinho, quanto sozinho um dia chegou à Tebas das Sete Portas.

FIM

ADENDO

Com essas certezas estabelecidas encerra-se a peça. Porém, tais certezas não escapam de um segundo julgamento e nesse, a sua inexorabilidade começa a cair. Inicialmente vamos recuar um pouco no tempo para localizar a origem da maldição de Édipo. Segundo os eruditos, decorre do fato de Laios ter seduzido o jovem Crisipo e com isso ter “inaugurado o amor homossexual”. Mas, numa época em que tais amores eram vistos com bons olhos, como admitir esse “pecado original” como motivo de maldição? Com essa primeira dúvida, chegam outras, conforme abaixo:

1. O Emissário e o Pastor seriam absolutamente idôneos? Ou teriam sido corrompidos por Creonte?
2. Tudo não seria um golpe arquitetado por Creonte para usurpar o Poder? A sua arenga sobre as vantagens de usufruir as benesses, mas não o encargo da realeza teria sido sincera? Afinal, ela colide diretamente com a natureza humana que busca, sempre, o ponto mais alto de qualquer escala.

3. Jocasta sabia desse plano do irmão, mas não quis delatá-lo? Foi por isso que insistiu para Édipo esquecer o assunto e aceitou ficar com ele, pois sabia que ele não era seu filho?

Questões que Sófocles não responde; e que raras vezes são formuladas. Talvez por isso as teses embasadas nessas histórias não encontrem o unânime apoio que pretendiam. De todo modo, olhando o trabalho apenas pelo seu lado literário, a magia é perene. Ainda hoje emociona a todos que tem o privilégio de conhecer-lhe.

O nome de Édipo tornou-se popular graças à tese do já citado Freud. A peça teatral, infelizmente, não teve a mesma popularidade. É de se lamentar, pois Sófocles desvendou a alma humana de forma magistral. Se atualmente o Inconsciente já não é tão atrelado aos deuses, como já se disse, pouco importa, pois continua a querer tudo que lhe é proibido pelo Consciente. É a individuação das restrições sociais.

Paradoxalmente o Homem busca a proteção da tribo, mas continua sonhar, a desejar o que a tribo lhe nega. Esse, ao cabo, é o conflito: o homem contra a tribo, da qual depende. O homem contra seus desejos mais íntimos. O homem contra ele mesmo.

São Paulo, 21/02/2011

sábado, 6 de abril de 2013

HÉCUBA - Gregas Tragédias, resenha.


HÉCUBA
Eurípedes - (485/406)
  
Cenário – praia do Quersoneso Trácio (península a oeste do Helesponto), vizinho à Tróia, onde as naus gregas se detiveram  para cumprir o sacrifício exigido pelo espírito de Aquiles.Fundo as tendas das troianas feitas escravas, ao lado a tenda de Agamêmnon e no alto, com o uso de cordas, o espírito de Polidoro.

Época da Ação – Final da Guerra de Tróia.

Personagens:
Agamêmnon – chefe supremo das forças gregas.
Coro – das mulheres troianas, escravizadas pelos gregos. Escrava.
Hécuba – viúva de Príamo, o rei de Tróia.
Odisseu – rei de Ítaca e um dos chefes gregos. Ulisses, em latim.
Polidoro – fantasma – filho de Hécuba e de Príamo.
Poliméstor – rei do Quersoneso da Trácia, nas cercanias de Tróia.
Políxena – filha de Hécuba e de Príamo.
Taltíbio – arauto dos gregos.

Sinônimos:
1. Gregos = helenos, aqueus e argivos.
2. Troianos = frígios
3. Tróia = Ilíon (donde Ilíada, de Homero) e Frigia.

Há alguns anos, montou-se uma encenação dessa Tragédia que percorreu grande parte do Brasil. Após a excelente representação, abria-se o debate entre platéia, mediadores, atores, atrizes e diretores sobre a questão: vingança ou justiça. E muita conversa se viu, sem que se chegasse a um denominador comum. Afinal, na ótica de muitos (inclusive desse escrevinhador) usar eufemisticamente o termo “justiça” para acobertar o desejo por vingança é apenas uma das hipocrisias que permeiam nossa sociedade.

“Justiça” representa a equidade, o equilíbrio. “Vingança”, o desejo de revanche. Coisas diferentes, como são os sentimentos que ambos representam.

E foi vingança o que Hécuba pediu, mostrando o que somos. O que, ainda somos.

O livro ou a peça começa com o monólogo do espectro de Polidoro, que entre lamentos conta sua curta vida e sua recém morte: quando Príamo viu que Tróia poderia cair, mandou seu filho mais novo, Polidoro, para viver em refúgio na corte de Poliméstor, na vizinha Trácia, a quem julgava seu amigo. Junto mandou um vasto tesouro para que sua estirpe sobrevivesse e tivesse uma vasta fortuna para amparar seu novo crescimento e pudesse recuperar a Casa Real de Tróia.

Enquanto as forças troianas, lideradas por Heitor, enfrentavam com êxito as tropas gregas, Polidoro foi bem tratado por seu anfitrião, mas bastou Príamo e Tróia caírem para que fosse assassinado pelo mesmo, interessado em seu tesouro.

Insepulto Polidoro, sua alma vagava sem descanso. E foi nessa condição que ele se apresentava em sonhos à Hécuba e só após muito rogar, é que conseguiu a anuência do deus Hefesto para apresentar seu corpo mutilado à mãe no intuito de que lhe fossem dados os ritos necessários à sua passagem definitiva para o Hades, onde descansaria enfim.

Prossegue Polidoro narrando o fato dos gregos ainda estarem em Tróia para atender ao desejo de Aquiles, de ser homenageado com o sacrifício de uma jovem virgem troiana. No caso, sua irmã Políxena, em pira fúnebre. Sacrifício a ser exe-cutado no mesmo dia em que daria à praia os restos mortais do narrador. Dupla e excruciante dor para Hécuba, que cho-rará a morte de mais dois filhos.

Hécuba, nesse momento conclama outras troianas a lhe ajudarem a erguer-se, enquanto chora a baixa condição a que foi lançada: de rainha à escrava. Lamenta-se e suplica a Zeus que afaste os pesadelos a que vem tendo com Polidoro, à derradeira esperança de um dia a Casa Real de Príamo ser restaurada.

Ainda ignorando o assassinato do filho, roga que Poliméstor zele por ele. Também pede ao “Pai dos Deuses” que interceda a favor de Políxena e conta como se acelera o coração, oprimindo-a junto com a má intuição de novas desgraças. Lamenta que Cassandra e Heleno, seus filhos capazes de profetizar, esteja mortos ou inacessíveis, pois eles poderiam decifrar os maus agouros que a perseguem.

NOTA do AUTOR - sabe-se que Cassandra foi tomada como concubina por Agamêmnon. Sobre Heleno, sabe-se que foi aprisionado pelos gregos após ter lutado com valentia, tomando o lugar que fora de Heitor. Ambos receberam de Apolo o dom das profecias, mas as feitas por Cassandra não eram acreditadas, como castigo por ela ter-se recusado ao deus Sol.

Na seqüência o Coro, formado pelas mulheres troianas, toma a cena e conta a Hécuba o que ouviram nas tendas de seus novos Amos: depois de acirrado debate entre os mesmos, ficou decidido sacrificar uma jovem à memória de Aquiles, cujo espectro controlou os ventos impedindo que as naus zarpassem antes de cumprir o que ele exigia.

Graças a Odisseu, que desempatara o pleito, convencendo a todos com sua proverbial habilidade, a escolhida foi Políxena, pois segundo ele, só uma jovem de alta estirpe estaria à altura de um herói como Aquiles. Contra o sacrifício estava Agamêmnon - talvez por influência de Cassandra – e a favor do mesmo estavam os filhos de Teseu, Acamas e Domofon.

Assim, mãe Hécuba, dizem-lhe, agarre-se aos joelhos de Agamêmnon e lhe peça que não permita o sacrifício de sua bela filha. E implore aos deuses e até aos entes infernais, que não deixem tal horror acontecer. Vá, rainha, não demorará para Odisseu vir para arrebatar-lhe a filha querida. Vá Hécuba!

Atônita, desesperada, ferida, Hécuba clama a sua impotência, seu desamparo. O horror do seu cativeiro, de sua solidão. Morto o marido, mortos os filhos, derrotados os súditos e distantes os deuses; quem a defenderá?

Trôpega, cambaleante, sob o peso de tantas desgraças, dirige-se à tenda de Políxena que a atende trêmula e temerosa. Indaga da mãe o que a traz naquele estado, por que tamanho desespero? Hécuba vê no temor da menina uma intuição sobre a desgraça porvir, mas Políxena diz que seu medo e seu pranto são motivados pela vida miserável que a mãe agora leva e não por ela mesma.

E Hécuba retruca o mesmo: chora por Políxena, sua filha imaculada. Políxena então lhe pede que diga a verdade sem rodeios, pois sente seu medo crescer com o silêncio da mãe e Hécuba lhe fala que os gregos decidiram que a sacrificarão sobre o túmulo de Aquiles.

Após ouvir os terríveis detalhes de sua execução, Políxena tenta consolar a mãe, lamentando tão duro fim de vida. Sobre a sua própria morte, não se queixa, pois a prefere ao invés de uma vida de escravidão.
Pouco depois, o Coro as alerta sobre a chegada de Odisseu, que logo se dirige a Hécuba informando-a que levará Políxena para ser sacrificada no túmulo de Aquiles, por Neoptólemo, o filho do herói. Aconselha-lhe a não se rebelar, pois em sua mísera condição tal reação seria insensata e inútil.

Entre lamentos por ter sobrevivido aos filhos e por ser alvo de tantas desgraças, Hécuba invoca o direito dos escravos fazerem perguntas aos Amos. Após a concordância de Odisseu, indaga-lhe se ele recorda-se de quando veio espionar Tróia e ela, apesar de ele ter sido reconhecido por Helena sob os andrajos do disfarce, deixou-o ir, salvando-lhe a vida? E lhe indaga-lhe se não se considera um malvado que só faz o máximo de mal.

- Tu, prossegue, és um Sofista e como os outros, atrás das belas palavras só a Maldade traz. Porque veja, o que haverá de útil para os gregos no assassinato de minha filha? Não seria possível sacrificar um boi? Será Aquiles quem pede o sangue de quem o matou? Mas, se é assim, por que matar essa inocente, que nem participou da guerra? Por que não sacrificar Helena, a verdadeira culpada pelo conflito? Seja justo Odisseu! Lembra-te que já tocastes minha mão pedindo clemência. Agora sou eu quem te pede indulgência, que cobra a bondade que tive contigo. Não me tires Políxena, pois ela é a alegria que me restou. É o meu consolo, o meu bastão de apoio. Convence aos outros gregos da improprieda-de de assassinar uma inocente.

O Corifeu, representando a líder das troianas, dirige-se a ex-rainha e busca consolar-lhe dizendo que Odisseu atenderá suas súplicas.

Mas Odisseu toma a palavra e diz a Hécuba que não pode alterar o que antes já estava decidido: uma princesa troiana seria sacrificada em honra do herói incomum; e justamente por ser incomum, o maior guerreiro grego, é que ao grande Aquiles o sacrifício não poderia ser vulgar, igual ao que é dado a qualquer medíocre. E se assim não fosse feito, como se iria, no Futuro, conseguir reunir novas tropas em caso de necessida-de? Quem se disporia a morrer pela pátria, ou por seu rei, sabendo que sua valentia, que seu denodo não seria convenientemente reconhecido? Ele mesmo não se incomoda com uma vida frugal, mas deseja no seu túmulo todas as honras, pois são essas as perenes.

Por fim, diz a Hécuba que dor como a sua, mães, pais e esposas gregas estão sofrendo, pois este é o verdadeiro preço da guerra.

Após rápida lamentação do Coro, Hécuba diz a Políxena que seus pedidos foram inúteis e que ela deveria pedir clemência a Odisseu, pois talvez ele se condoa de sua sorte. Mas ela diz a Odisseu que sossegue, pois não lhe pedirá a salvação. Diz que deseja a morte, preferível aos horrores da servidão. Que aceita seu Destino e se livra das acusações de covardia que alguns poderiam impingir-lhe (censura à Hécuba?). Que morrerá feliz, ante a possibilidade de se tornar uma reles escrava. Ela, que já foi uma das mais desejadas princesas de Tróia e prometida a tantos Príncipes poderosos não consegue admitir que doravante seja obrigada a amassar o pão, varrer o chão, deitar-se com um homem que não deseja. Não! Que lhe matem, pois já não há felicidade em sua vida.

Na seqüência, Políxena dirige-se à mãe e lhe pede que não tente demover-lhe do desejo de morrer, pois tudo que disse ao carrasco grego não poderia ser refutado por ninguém. Nem por Hécuba.
O Corifeu entendendo que ela preferia a honra a uma vida abjeta saúda sua nobreza de caráter.

Hécuba retoma a palavra e também elogia o nobre discurso da filha, mas ainda roga a Odisseu que lhe mate em lugar da menina, pois ela também seria uma vitima importante na medida em que foi de si que nasceu Páris, o matador de Aquiles.

Mas Odisseu reafirma que o fantasma do herói exigia o sacrifício da filha e não o da mãe; e como Hécuba insiste para que lhe matem junto, o rei de Ítaca contra-argumenta dizendo que o derramamento de sangue seria excessivo, pois até a morte da Princesa lhe é indesejável.


Hécuba, em desespero, tenta agarrar-se à filha e persiste na negativa de vê-la caminhar para a morte. Mas a própria Políxena lhe pede que cesse seu arroubo, pois é inútil e só retarda o inevitável. Que Hécuba mantenha a compostura e se despeça de modo suave, pacificador. Que não lhe dê mais esse desgosto na hora de morrer.

E saem Políxena, Odisseu e os soldados. Resta Hécuba caída ao solo. Entre as lamúrias que chora, não deixa de maldizer a Helena, a quem debita a culpa exclusiva, segundo ela, de tanta dor.

Raiva compreensível, mas talvez injusta. Se Helena errou ao trair o marido, se Páris errou por tê-la levado para Tróia, também erraram todos eles que permitiram a situação.

Mesmo Hécuba é grande culpada na medida em que: se foi desinteressada em defender Páris quando ele foi condenado à morte, enquanto bebê, por seu marido e pai do menino, nada justifica que ela o tenha defendido em adulto e em falta evidente, cujo resultado nefasto para todos os troianos inocentes poderia ser esperado.

O Coro, agora representando todas as cativas troianas, entoa triste lamento por Políxena e pela longa viagem que farão até as casas de seus novos Senhores. 
Entre os tristes cantos, adentra à cena Taltíbio, o arauto grego, que pergunta por Hécuba. Espantado pela prostração da mesma, horroriza-se ainda mais com seu aspecto deplorável. Dirige-lhe um pedido enérgico para que mantenha alguma dignidade e a anciã, sem lhe conhecer, indaga-lhe quem é; por que interrompeu suas tristes lamentações. 
Responde-lhe Taltíbio anunciando uma nova ordem de Agamêmnon para levá-la à sua tenda. Crente que seria para executá-la, Hécuba apressa-se em ir, bendizendo aquela ordem, mas ante a tácita negativa do arauto ela lhe pede que conte como se deu o sacrifício da filha. E ele conta da altiva coragem mostrada pela menina ante a morte, o quê comoveu até aos gregos que lhe prestaram homenagens dignas dos campeões. 
Também Hécuba elogia a altivez da Princesa, dizendo que sua atitude chega a lhe suavizar a dor pela perda. 
Em seguida pede ao arauto que diga aos gregos que se afastem do corpo de Políxena, pois ela é quem fará suas exéquias. Que não a profanem e se afastem do local para que más intenções não se sobreponham à decência. Taltíbio parte para executar o pedido que lhe foi dado quase que em tom de ordem. 
Prossegue Hécuba seu discurso dizendo em tom imperativo a uma ex-escrava que apanhe água no mar para purificar o cadáver e fazer as libações. Diz que tudo fará para lhe dar os melhores adornos e pede às mulheres que furtem de seus Senhores gregos tudo que puderem para ornamentar Políxena. Na seqüência volta a lamentar a perda de seu Palácio e de suas riquezas.
O Coro assume a cena e chora o fato de que um julgamento fútil entre três deusas (sobre quem seria a mais bela), feito por um mero pastor (Páris antes de ser reconhecido por Príamo e agraciado com o amor da mais bela mulher do Mundo, Helena) resultasse na queda de Tróia, na matança dos troianos e na escravização das troianas. E, também, em tanto luto entre as gregas que perderam maridos, filhos, irmãos.

Nesse momento a ex-escrava volta à cena puxando um cadáver encoberto. Titubeante, mostra o corpo de Polidoro; Hécuba se prostra ante a nova e inesperada tragédia; transtornada clama aos Céus e em seu desespero interroga ao falecido quem o matou, como se ele pudesse responder.

A ex-escrava conta que retirou o corpo do mar quando buscava a água necessária para os ritos a Políxena. Informação que serve para confirmar à troiana a validade dos pesadelos a que vinha tendo com o filho mais novo. E também para lhe assegurar que o assassino fora Poliméstor que assim se apoderava do tesouro troiano.

Suas tristes lamentações são interrompidas pela chegada de Agamêmnon que lhe indaga sobre o motivo de ainda não ter sepultado o corpo de Políxena, vez que suas solicitações foram atendidas.

A resposta, contudo, ele logo adivinha ao ver o corpo de Polidoro. Centrada em sua dor, Hécuba continua o monólogo sobre suas desgraças enquanto analisa a conveniência de pedir a Agamêmnon que vingue a morte de Polidoro.

E quando o Atrida faz menção de se retirar, ela decide arriscar o pedido, pois ele é sua única esperança de revanche. Invocando a mão direita, o joelho e o queixo do grego (como era o hábito da época) ela faz o pedido por vingança, desdenhando até da liberdade que Agamêmnon sugere poder lhe dar.

Prosseguindo, Hécuba conta-lhe a história de Polidoro e o Argivo lamenta com sinceridade os sofrimentos da anciã que reafirma suas súplicas, alegando inclusive que o concubinato dele com sua filha, fazem-no uma espécie de “cunhado” do falecido.

Nisso o Corifeu comenta que as “Leis Divinas (ou da Natureza)” reduzem os atos e as disposições dos Homens a nada. Ante tais “Leis Superiores” inimigos se juntam para combater um terceiro, provando que o Homem não passa de mero fantoche dos deuses (ou do Destino, ou das circunstâncias).

Agamêmnon reafirma sua pena por Hécuba, mas pondera que o rei Trácio é visto como amigo pelos outros gregos, enquanto que seu filho, troiano, é visto como inimigo por seu exército. Desse modo não poderia executar a vingança sem se indispor com suas tropas. E também por temer ser acusado de tendencioso, por vingar o irmão de sua concubina.

Hécuba lhe pede então que apenas se omita sobre os fatos futuros. Ela entende as suas razões, pois sabe que nenhum mortal é verdadeiramente livre; suas vontades e atitudes são sempre limitadas pela conjuntura dos fatos. Na seqüência responde à pergunta de Agamêmnon explicando-lhe como executará sua vingança contra Poliméstor, confiante que as mulheres troianas unidas terão força suficiente para tal feito.

Enfim, pede-lhe que garanta a ida de uma de suas auxiliares para chamar o rei, dizendo-lhe que tem um assunto a tratar com o próprio e que será de seu interesse; e que garanta a chegada deste, ao acampamento das cativas; também lhe pede que aguarde um pouco mais para o funeral de Políxena, já que ela quer enterrar seus dois filhos juntos. O Atrida consente e autoriza seu desejo.

O Coro assume a cena e canta como foi a noite em que os gregos adentraram a cidade, através do Cavalo de Madeira, mataram os troianos e aprisionaram as troianas. Ao lamento se junta o ressentimento contra Helena e Páris, acusados de serem os culpados pela queda de Tróia.

Nisso chega Poliméstor, com seus dois filhos e com sua escolta, atendendo ao chamado de Hécuba. Ignorando que o assassinato de Polidoro já era sabido pela troiana, ele saúda a ex-rainha como se ainda fossem amigos e deplora cinicamente sua triste condição.

Hécuba mantém a farsa e diz que se sente constrangida por sua miséria, não conseguindo sequer fitá-lo. Pergunta-lhe o rei sobre o assunto que a fez chamá-lo e ela diz que é restrito a ele e aos seus filhos e lhe pede que dispense a escolta, no que é atendida prontamente. Em seguida, pergunta-lhe sobre seu filho que está aos cuidados do Trácio e ele responde hipocritamente que está em excelente condição, assim como a integridade do tesouro. Hécuba ainda prossegue a farsa aludindo a um eventual tesouro escondido em local secreto, mas que ele terá acesso, pois é de confiança. Também diz que lhe dará suas riquezas pessoais, escondidas em sua tenda, e a ganância do rei incumbe-se de levá-lo, e os filhos, para o interior da morada.

Pouco depois se escutam os gritos pavorosos de Poliméstor que se queixa de ter sido cegado, enquanto seus filhos eram assassinados. Brada o mutilado rei que lutará contra suas ofensoras com o máximo denodo possível, mas o Coro conclama as outras mulheres troianas a se juntarem às que estavam na tenda, para auxiliarem Hécuba a escapar da cega fúria do Trácio. E Hécuba sai para evitar um golpe dado ao acaso pelo rei e incita às mulheres a terminarem o que começou. Que o massacre dos Príncipes fosse completado.

Poliméstor, cego, sai tateando o caminho e Hécuba dirige-se ao Coro confirmando a mutilação no rei e a morte de seus filhos. Resta ao rei lamentar-se e com o tato buscar uma trilha que o leve às troianas e à vingança. Ao ouvir passos se prepara para saltar sobre as inimigas, mas a lembrança dos corpos dos filhos o detém, pois ele teme que se abandoná-los as troianas irão desmembrá-los e dar os restos aos cães. Tenta voltar à tenda e grita por socorro ao seu exército e ao exército grego, mas não tem nenhuma resposta de imediato.

Na seqüência, Agamêmnon volta à cena com sua escolta, dizendo ter ouvido os gritos de Poliméstor. Tão altos que se as muralhas de Tróia já não estivessem caídas ele temeria novo ataque dos frigios. O Trácio reconhece sua voz e conta-lhe que ao entrarem na tenda foram ludibriados pelas mulheres que com falsidade seduziram seus filhos até os matarem; enquanto ele teve os olhos perfurados pelos alfinetes de suas túnicas.

Agamêmnon dirige-se à Hécuba, que estava nas proximidades, censurando-lhe a ousadia de ter cometido tais crimes. Poliméstor, ao saber de sua proximidade, tenta feri-la, mas em vão. Agamêmnon lhe pede que abandone seus bárbaros costumes de vingança e escute antes de agir, pois ele irá ouvir as duas partes para julgar corretamente a questão.

Diz-lhe Poliméstor que matou Polidoro por temer que ele se tornasse poderoso e recriasse a grandeza de Tróia. Com isso, talvez, tentasse vingar-se dos gregos, os quais, por sua vez, poderiam retornar à região exaurindo seu País novamente, através dos sucessivos saques em suas plantações e rebanhos para alimentar os exércitos, tal como fizeram nas duas expedições contra Tróia.

Ou, mesmo que Polidoro não buscasse vingança, poderia ser alvo dos gregos que temeriam deixar viver um descendente de Príamo, causando os atos nefastos, que expôs acima, aos vizinhos de Tróia, com nova guerra.

Hécuba toma a palavra e se dirige a Poliméstor dizendo que sua versão é falsa, pois se ele queria prestar um serviço aos gregos, por que ele não matou o menino enquanto Príamo e Heitor ainda viviam? Sua covardia não lhe permitiu? O real motivo foi mesmo a sua cobiça pelo ouro que Polidoro guardava. E se ele fosse tão leal aos gregos, como disse, por que não dividiu ou ofertou esse ouro aos seus ditos amigos?

Dirigindo-se a Agamêmnon, Hécuba continua seu arrazoado dizendo que se o Atrida apoiar o assassino será considerado malévolo, pois apoiaria quem foi infiel aos deveres dos anfitriões e desprezou a Justiça dos deuses e dos Homens.

Agamêmnon retoma a palavra dizendo da dificuldade de avaliar os erros alheios, mas que julgaria atos tão extremos. A Poliméstor diz que não acredita em sua versão e crê que seu motivo era mesmo só a ganância. Também lhe diz que faltar aos deveres dos anfitriões é um crime grave na Grécia, não podendo ser perdoado.

Poliméstor lamenta sua decisão e o fato de ter sido vencido por uma mulher reduzida à escravidão e diz que chora pelos seus olhos e por seus filhos perdidos.

Hécuba replica que também chora seus filhos mortos, mas que se alegra por sua vingança ter atingido quem lhe fez tamanho ultraje.

A altercação entre ambos prossegue e Poliméstor profetiza que ela nem chegará à Grécia, pois antes, o deus Dionísio a transformará em cadela. Também profetiza que Cassandra morrerá em breve, como predisse o Oráculo do deus citado. A Agamêmnon, o Oráculo diz que morrerá tão logo chegue à casa pelas mãos da própria esposa.

Agamêmnon invoca a proteção dos deuses, enquanto o Trácio continua com seus vaticínios irritando o chefe grego. Ultrajado, o Aqueu manda seus soldados levarem-no para algum lugar deserto. E ordena que Hécuba sepulte seus filhos e se apronte, pois como o Coro, ela deverá se apresentar ao seu Amo, já que o vento favorece a partida rumo à Grécia.

Tróia deixa de existir. A dor de mãe Hécuba, não.


NOTA do AUTOR - Em 1870, Henrich Schiemann dirigiu-se à Turquia atual e através dos relatos de Homero, na Ilíada, iniciou uma escavação que resultou na descoberta das ruínas de Ilion e do tesouro de Príamo. Por ter cometido erros metodológicos, a descoberta de Schiemann recebeu criticas de vários eruditos, mas é inegável que a cidade de Tróia não é uma fantasia do poeta grego. Em relação à Guerra, acredita-se numa licença poética de Homero.

Rio, 17/03/2011

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Idealismo - Filosófico e Político


IDEALISMO – do Latim tardio “IDEALIS”.

O termo “IDEALISMO” abarca várias Correntes do Pensamento Filosófico que tem em comum o fato de interpretarem a Realidade Material do Mundo conforme a personalidade do individuo que faz essa interpretação; ou seja,  o Mundo Material, que os Sentidos (tato, audição, visão paladar, olfato) levam ao cérebro do Individuo, é TRANSFORMADO conforme os seus pontos de vista, conforme seus juízos, SUAS IDÉIAS, conforme a sua subjetividade.

A seguir abordaremos algumas dessas Correntes Filosóficas:

1. O IDEALISMO PLATÔNICO - Com Platão, após Sócrates, é que “Idéia” passou a ter uma existência efetiva, embora em um sentido diferente do comum. Não se trata, pois, de noções, imagens, representações intelectuais etc. Alguns eruditos até discordam de que seu Sistema Filosófico seja rotulado como “Idealista”, pois argumentam que a sua Filosofia, na verdade, deve ser considerada como um “Realismo das Idéias” já que para o Mestre, as Idéias (mal comparando: os projetos, os desenhos que devem ser copiados para a confecção do objeto correspondente) formam outra “Realidade”, ou a “Verdadeira Realidade”. É um Mundo - o “Mundo das Idéias” - que pode ser parcialmente acessado pela Inteligência, pelo Raciocínio (ou pela Razão) e que existe por si mesmo, não necessitando que o Homem o conheça ou o reconheça. Está além do humano e do material; e é nele que estão os modelos para todas as coisas.

2. O IDEALISMO IMATERIALISTA – é uma Tendência que tem em BERKELEY (1685/1753, Irlanda) seu expoente. Para ele, e seus adeptos, os Objetos Materiais NÃO existem de fato; mas apenas como representações ou imagens, ou Idéias no intelecto, na mente dos Homens. E na mente de Deus, o criador do próprio Homem, o qual, segundo o seu Sistema, também não existe de fato, mas é apenas uma representação, uma imagem na Mente Divina. Essa sua forma de pensar permitiu-lhe emitir o célebre enunciado: SER, É SER PERCEBIDO; ou seja, só existe aquilo que se percebe de algum modo. Pergunte-se caro (a) leitor (a) se você existe para o Sr. Ming que habita na China e nunca soube de sua existência? E o inverso?

3. IDEALISMO TRANSCENDENTAL – doutrina de KANT (1724/1804, Alemanha) que alguns chamam de “Idealismo Critico”. Através desse Sistema o filósofo considerava que os Objetos que estão em nosso cotidiano e que percebemos pelos Sentidos (tato, visão, audição, paladar, olfato) estão inserido no Espaço/Tempo e devem ser considerados apenas como fenômenos (a aparência, o exterior perceptível de uma Essência) e por isso serem diferenciados ou distinguidos de suas Essências ou “Coisa em Si”. Logo, se podemos perceber apenas o fenômeno, a “Realidade Verdadeira” é incognoscível, isto é, está além da nossa capacidade intelectual de compreensão. Dessa forma, qualquer Objeto só existe em uma “RELAÇÃO de CONHECIMENTO”; ou seja, o Objeto só existe a partir do instante que o Individuo o perceba, ou o conheça. Aqui, a frase de BEKERLEY – ser, é ser percebido - citada acima, pode ser aplicada novamente, posto que o Objeto só “È” enquanto alguém o percebe. Kant dizia: “chamo de Idealismo Transcendental” de todos os fenômenos A DOUTRINA que nos leva a considerar que esses mesmos fenômenos são simples representações, ou imagens que formamos em nosso cérebro. Ou seja, “Idealismo Transcendental” é apenas o TITULO de um de seus estudos. 

4. IDEALISMO ALEMÃO PÓS-KANTIANO – é o desenvolvimento da doutrina de Kant, principalmente, por FICHTE (1762/1814, Alemanha) e pelo sábio SCHELLING (1775/1854, Alemanha). Todavia, ambos abrandaram a noção de Kant sobre a “Coisa em Si”, dando à Doutrina uma interpretação em que a visão subjetiva (ou segundo o ponto de vista de cada individuo) ganhou mais importância. Consideravam, pois, que o Real ou a Realidade é formada, ou constituída, pela Consciência de cada um. De novo, aplica-se a noção de que “O Mundo não é como é, mas sim como é visto ou percebido por cada um dos Homens.”

5. IDEALISMO ABSOLUTO – é o termo usado por Hegel (1770/1831, Alemanha) para demonstrar a sua noção de Metafísica (do que está além do físico, o sobrenatural). Segundo o filósofo, o Real (ou a Realidade) “È” a IDÉIA, mas NÃO em sentido subjetivo ou individual; porém em sentido absoluto. Para Hegel tudo que está “abaixo” da Metafísica, ou seja, o material, concreto, físico é apenas uma ilusão, mas que deve ser considerada; a partir daí é que Hegel propôs uma espécie de “Monismo” onde Essência e Fenômeno formam uma única coisa. Um único ente. E como ele afirmava que o Real (ou a Realidade) é Racional (isto é, pode ser atingida através da Razão), Essência e Fenômeno são, conseqüentemente, compreensíveis pelo Raciocínio, que constrói de ambos uma representação, uma Idéia. Por isso, o “seu” Idealismo é Absoluto. É o “Idealismo Total” que abarca tanto o interior quanto o exterior de qualquer Coisa ou Ser.

Na tradição filosófica, o Idealismo combate, é claro, as Doutrinas Materialistas na medida em que para o Idealismo o Universo é um conjunto de mínimo dois elementos ou princípios: Matéria e Pensamento. Ou de um só: o Pensamento e a matéria mera representação mental.

Atualmente, no campo do Marxismo, o “Idealismo” passou a significar algo bom, excelente, mas utópico e irrealizável. Especialmente no Campo da Moral, onde não são raras as ótimas, generosas e altruístas intenções que nunca se realizam, principalmente em razão da natureza humana (ou seja da forma que o Homem é), que ainda rasteja no terreno da pura competição.

No campo do Conhecimento, o Idealismo acarreta um efeito indesejável, pois ao tornar o “Objeto do Conhecimento” – aquilo que se está estudando – o próprio “Individuo Conhecedor”, estuda “apenas” o Individuo e a sua forma de analisar e compreender qualquer Coisa que se estude. Pouco importa as características, as qualidades, os atributos da Coisa, do Objeto; pois o que importa (sic) é a maneira de como esse processo está sendo executado pelo Individuo que estuda aquela Coisa. Qual é, pois, A IDEIA que o Sujeito faz do Objeto; e NÃO o quê o Objeto realmente É. Perde-se toda objetividade em favor da excessiva subjetividade.

No campo da Ontologia (ver adendo) tudo é reduzido a Pensamento, Idéia ou “Espírito”. A Matéria “Só Existe”, porque dela se faz uma Idéia. O Mundo NÃO é como é, mas sim conforme a Idéia de que dele se faça.

Em extremo, o Idealismo leva ao Solipsismo*, que é o isolamento do Individuo em si mesmo. A introspecção excessiva com característica de enfermidade psicológica ou psiquiátrica. No tópico sobre o Solipsismo, entraremos em mais detalhes sobre essa questão.


ADENDO


Como adendo a esse tópico, faremos na seqüência breves explanações acerca do termo raiz: a Idéia, conforme o celebre Dicionário Aurélio.

EM TERMOS COLOQUIAIS:

1.Representação mental de algo concreto ou abstrato, imagem.
2.Elaboração intelectual, concepção, projeto, plano
3.Invenção, criação
4.Opinião, conceito, juízo
5.Visão imaginaria, irreal, quimera
6.Mente, Pensamento
7.Conhecimento, memória, lembrança
8.Tino, juízo, responsabilidade

EM TERMOS DE FILOSOFIA:

1. Como já se citou, em Platão, o Termo “Idéia” tem o significado de Modelo, Padrão, segundo o qual a respectiva Coisa é construída. Assim, por exemplo, existe a “Idéia Gato”, e todos os gatos existentes são feitos conforme aquele “molde”, malgrado as diferenças entre os indivíduos, pois a “Idéia” refere-se à Espécie ou à Classe e não aos Seres ou às Coisas individualmente. Para Platão, o “Mundo das Idéias” é transcendente à matéria, ou seja, “fica”, “localiza-se” além do que se pode perceber. Claro que para ele o termo não tinha o significado de “Pensamento”, “imagem mental” etc. Aliás, essa concepção, ou noção, só posteriormente apareceu na Filosofia e já como “A Essência” da Realidade. No tópico dedicado ao Platonismo*, voltaremos ao assunto.

2. Para Descartes (1596/1650), as Idéias são representações mentais produzidas pela consciência; e definida, por ele, como aquilo que a Mente percebe diretamente; isto é, se as Idéias foram fabricadas diretamente pela Mente ou pelo Cérebro é obvio que ela a perceba ou reconheça imediatamente; ao contrário do que ocorre quando há uma percepção pelos Sentidos sobre algum objeto e essa percepção tem que chegar ao cérebro, ou à mente, e ali ser processada para só então ser devidamente conceituada. Descartes diferencia três tipos de Idéias:
a. INATAS – que são produzidas pelo próprio cérebro, ou mente, sem que haja necessidade de antes ter havido qualquer Experiência Empírica (aquela que consiste na percepção dos dados ou características do objeto estudado, através do que foi captado pelos Sentidos; ie. audição, visão, tato, olfato, paladar). Nesse tipo, ele inclui a Idéia de “um Deus perfeito”, a Idéia da “Substância Pensante (a Razão, os Pensamentos, a Mente, o “Espírito”)” e a Idéia da Matéria Extensa (o corpo físico).
b. FACTICIAS (Fictícias?)– as Idéias produzidas pela Imaginação e que se relacionam com uma Realidade imaginária, como, por exemplo, a Idéia de uma Sereia, a de um Monstro etc.
c. ADVENTÍCIAS – as Idéias que são formadas pelo Cérebro ou Mente a partir “do advento” ou do acontecimento de uma Experiência.
Para o filósofo, o Homem pode conhecer as “Idéias Inatas” – que são a base de todo Saber – voltando-se para seu interior, através de profunda meditação e reflexão.

3. Para os adeptos do Empirismo*, as Idéias são elementos mentais que resultam do processo de abstração (alheamento da realidade física, meditação, reflexão) sobre um Objeto que foi percebido ou captado pelos Sentidos (tato, visão, audição ...).

4. Para Kant (1724/1804) as Idéias são Conceitos ou Definições que “administram ou regulamentam” o funcionamento do Raciocínio, ou Razão. São imprescindíveis e com formas ou formatos que não tem correspondentes no Mundo Físico. As Idéias da RAZÃO PURA (ou do Raciocínio que não sofreu influências de nenhuma percepção captada pelos Sentidos) são aquelas que não tem qualquer associação com o Objetivo (ou material, físico, concreto), mas que são indispensáveis para que a Razão (ou Raciocínio, ou Consciente) funcione corretamente. Pode-se citar das mesmas os seguintes exemplos: a Idéia de Deus; a Idéia da Alma, a Idéia do Mundo Exterior etc.

5. Para Hegel, a “Idéia Absoluta” é a “Verdade Plena do SER”. A unificação do Conceito (ou Noção) com a Realidade é a confirmação de que “Toda a Realidade (ou Real) é uma Idéia”. Veja-se acima “Idealismo Absoluto”.

Por fim, vale citar alguns Conceitos exarados pelos filósofos sobre o termo “Idéia”.

a. Descartes – pela palavra Idéia, entendo tudo o que pode estar em nosso Pensamento.

b. Hume (1711/1776, Escócia) – por Idéias , entendo as imagens enfraquecidas das Impressões no Pensamento e no Raciocínio.

c. Kant – entendo por Idéia, um conceito racional necessário (indispensável) ao qual nenhum objeto que lhe corresponde pode ser dado (ou captado) nos Sentidos.



Fonte: FILOSOFIA SEM MISTÉRIOS - DICIONÁRIO SINTÉTICO, por Fabio Renato Villela - Ed. Seven System, Biblioteca 24x7, a venda nas Lojas da Livraria Cultura, em todo Brasil, ou no Site: www.amazon.com

quarta-feira, 3 de abril de 2013

SHIVA (XIVA) – O “Grande Senhor da Meditação e do Yôga"


Aquilo que para nós, ocidentais, pode parecer apenas miséria, inação ou simples preguiça, tem outro sentido para os milhares de homens indianos que vagam pelas florestas, totalmente despidos e carregando apenas uma vasilha para água. Com os cabelos compridos e desgrenhados, mendigam sua comida e praticam a filosofia e as posturas da YOGA. Alguns os chamam de “Homens Santos”; pessoas que renunciaram ao Mundo, às ambições e às preocupações terrenas para seguirem o ensinamento do Deus da Meditação, o “Lorde” SHIVA.
Buscam pelo ascetismo a Sabedoria e a Iluminação. Seguem o estilo de vida que julgam ser o adotado e pregado por esse deus, que é um dos mais poderosos e seguidos pelos hindus. SHIVA abriga sob a sua filosofia todos aqueles que abdicam de uma vida social para se dedicar apenas ao espírito. É o deus dos humildes, protetor dos mendigos e dos miseráveis. Dentro da TRIMURTI*, cabe-lhe o papel de “Destruidor da Criação”, o que pode ser entendido como a eliminação das excessivas preocupações com a matéria que, por si, é corruptível. Todavia, seus seguidores rejeitam essa função dada a SHIVA; pois acham que ela o associa a uma imagem negativa, o que não condiz com a sua importância. Para eles, SHIVA é o “Deus Supremo”. Uma das formas de BRAHMAN* em sua totalidade. E assim sendo, os SHIVAÍSTAS* veneram-no com exclusividade. Baseiam-se no fato de SHIVA ser muito mais antigo que os outros deuses do panteão; e historiadores corroboram esta tese, pois SHIVA já era um importante deus na Era Pré Védica (anterior à invasão ARIANA), sendo admitido no panteão BRAMÂNICO devido a sua imensa popularidade na época. Suas primeiras representações datam do Período Neolítico (c. 4000 aC.) quando era chamado de PASHUPATI*, o “Senhor dos Animais”, meditando em uma floresta, rodeado de feras que lhe eram dóceis. O SHIVAÍSMO* é essencialmente uma religião da natureza, onde se afirma que os seres humanos não devem ater-se às Normas Humanas, mas sim às da Natureza, na qual os Homens – como todos os outros seres – estão submetidos. Por isto, os sacrifícios e outros rituais – encarados com desdém e repugnância por outras correntes – são naturalmente aceitos pelos seguidores de SHIVA. Esse fato, aliás, é que pode ter contribuído para a má fama da divindade, que em geral é associada a sacrifícios sangrentos, automutilações, ascetismo exacerbado, rituais mágicos e quejandos. Por esse conjunto, o culto a SHIVA encontrou forte resistência doutros ramos do HINDUISMO, principalmente entre os seguidores de BRAHMA* que o consideram anti-social. SHIVA é o deus das montanhas, o símbolo do ascetismo e enquanto é o deus do povo mais humilde, BRAHMA é o das elites. Destarte, SHIVA foi acusado (sic) de repassar os ensinamentos sagrados ao povo e aos delinqüentes que zombam dos valores da sociedade. (Aqui cabe o registro: similar ao que aconteceu com a Igreja Católica pré Reforma que estabelecia que apenas os Sacerdotes (= BRÂMANES) deveriam conhecer as Escrituras. Também se pode relacionar esse temor à popularização dos Conhecimentos, ao medo que as Elites sentiam de perder um potente instrumento de subjugação do povo. Ou, ainda, ao mito grego de PROMETEU, que roubou o fogo (a luz, o esclarecimento) dos deuses e o entregou aos humanos; ao ainda à condenação de Sócrates, acusado de deturpar a juventude, etc.). Porém, dentre todas as perseguições, o golpe mais forte que o SHIVAÍSMO* sofreu veio do ISLAMISMO que invadiu o norte da Índia em várias ocasiões, o que, aliás, foi a principal razão da diáspora dos SHIVAÍSTAS* por todo o país, especialmente rumo ao sul. Seguindo o modelo de SHIVA, seus adeptos espalham em seus corpos, cinzas oriundas das cremações de cadáveres ou fazem riscos horizontais na testa para simbolizar o total desprendimento do mundo material. A simbologia das cinzas relaciona-se com a tese de que o corpo humano está destinado à morte e que, portanto, não vale atender às suas necessidades mundanas. O que importa é o espírito, o autoconhecimento e não a devoção ao físico que é apenas temporário. SHIVA é particularmente venerado, todos os meses, na noite anterior ao dia da lua nova. Além disso, anualmente, no mês de MAGHA (fevereiro/março), um dia e uma noite são devotados ao deus. São datas em que os fieis reservam horas para as orações e rituais. Quando SHIVA é venerado em templos, normalmente é representado sob a forma de um LINGA* (uma espécie de estatueta em forma de falo), que depois do MANTRA “OM”, é o símbolo mais poderoso e popular do HINDUISMO. A forma de falo simboliza o poder da criação de Deus (após a destruição da matéria). A energia masculina que dá origem ao Universo. A base da estatueta representa a genitália feminina, demonstrando que a criação só acontece com a união entre o feminino e o masculino. O LINGA é um amuleto que remonta à Era Pré Védica e ainda hoje muitos o mantém em casa e/ou levam-nos pendurados no pescoço. O formato e a simbologia do LINGA fizeram com que o deus SHIVA, também fosse associado ao sexo e à sensualidade e para os SHIVAÍSTAS*, o prazer obtido com o sexo é uma forma de aproximação com o divino; uma maneira de realizar-se espiritualmente. Porém, a principal veneração não acontece nos templos, festivais ou festas. A YOGA* e a Meditação são os principais caminhos para se encontrar SHIVA. O culto é individual, sendo que cada um deve representá-lo dentro de si e descobrir sua própria natureza interior. Quanto às figurações acerca de SHIVA, pode-se afirmar que as imagens mais populares retratam-no quase sempre meditando, envolto por serpentes e vestindo peles de tigres. Atrás dele aparece o seu fiel companheiro NANDI*, o touro branco. Ao montá-lo, SHIVA domina a violência mundana carregando em uma de suas quatro mãos um tridente com que destrói a natureza brutal dos humanos. Outra famosa representação é o SHIVA DANÇARINO, onde aparece dançando graciosamente dentro de um círculo de fogo. Nela, SHIVA segura um tambor, uma chama e se apóia em um anão, que simboliza o demônio da ignorância humana. É por meio dessa dança que SHIVA mantém a Criação para destruí-la depois. Tudo nasce e tudo morre. Com o tambor em forma de ampulheta, ele marca o ritmo do mundo e o compasso de sua dança. As chamas ao redor do circulo simbolizam a transformação e a destruição (purificadora) do Universo. Além destas figurações, SHIVA é retratado como: asceta extremado; o matador de demônios, envolvido por serpentes e com uma coroa de crânios na cabeça; como um falo, o LINGA*; com quatro braços, sendo que dois são de sua consorte PARVATI*. Esta profusão de representações, por si, indica que muito mais que as outras divindades, SHIVA é uma mistura de cultos, crenças, mitos e deuses que vêem desde a pré história, anterior aos VEDAS. No panteão indiano, como já se escreveu, representa o arquétipo do Asceta, o Deus da libertação, o YOGUE dos YOGUIS; o destruidor da ilusão material e da ignorância humana que anseia pelos bens terrenos. É a terceira divindade da TRIMURTI* e, conforme a tradição vive no monte KAILASA*, no Himalaia, absorto em profunda e continua meditação. Aliás, a ligação de SHIVA com a meditação é absoluta, tanto na Índia quanto noutros lugares. Não se têm certeza sobre a origem dessa conjunção, mas sabe-se que provém de crenças ancestrais. Dos tempos em que ainda era chamado de PASHUPATI*. Por fim, cabe o registro que SHIVA DANÇARINO é epônimo de um importante templo situado na cidade de CIDAMBARAM*.


Para Priscila.

FONTE - Deusas e Deuses Hindus - Fabio Renato Villela - Biblioteca 24x7 Seven System - a venda nas Livrarias CULTURA, em todo Brasil.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Gargalo


É tempo da vida
ser tomada no gargalo.
As taças que já existiram
foram se perdendo
em porres e sarjetas
e os poemas já não
brotam das gavetas.

Aonde eu fiquei?
Que rua eu não atravessei?
Quem é esse que recobre no espelho
a alma que um dia eu fui.
Donde veio esse rosto embaçado
de quem não quer ser notado?

As "Causas" já não são incisivas
e nem as "Massas" são pobres cativas
que alguma Revolução manteria vivas.
Em qual dentada
eu cuspi a derradeira ironia?
E quando foi o último coquetel
contra a "Mais Valia"?

Agora só há
essa dor que me alucina.
Essa tristeza que me cobre
como fria neblina,
essa angústia que me isola
como Muralha da China
e essa vontade
de que não haja
a próxima esquina.