quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Descartes e o Racionalismo - Parte II - o Racionalismo


Para muitos estudiosos o conceito de “Racionalismo” pode ser entendido de três maneiras distintas. A saber:

1. A teoria que afirma ser a Razão (isto é, o ato de pensar logicamente, a capacidade de pensar logicamente) superior à Emoção e à Vontade. É o chamado “Racionalismo Psicológico”.

2. A tese que afirma ser a Razão o único órgão capaz de produzir (ou de chegar) ao Conhecimento Verdadeiro. Consequentemente, todo conhecimento verdadeiro só pode ser originado pela racionalização da questão. É o chamado “Racionalismo Epistemológico” ou “Racionalismo Gnosiológico”.

3. A doutrina que afirma que o Real ou a Realidade só pode ser racional; ou seja, a Realidade Verdadeira ou última só pode ser captada ou percebida através da Razão, do Raciocínio Lógico. É o chamado “Racionalismo Metafísico”; pois, como bem lembramos, o termo Metafísica remete à ideia de “essência” de qualquer coisa; à ideia daquilo que está além das aparências ou dos fenômenos.

O primeiro tipo, o "Racionalismo Psicológico" é, geralmente, contraposto ao Emocionalismo e ao Voluntarismo (de vontade), aproximando-se em alguns momentos do chamado Intelectualismo.

O segundo tipo, o "Racionalismo Epistemológico/Gnosiológico" se contrapõe ao Empirismo1 e/ou ao Intucionismo em certas situações.

O terceiro tipo, o "Racionalismo Metafísico", opõe-se ao chamado racionalismo empírico e com mais intensidade ao irracionalismo defendido por alguns “românticos” mais extremados.

Não foi incomum, apesar de suas diferenças, que as três formas de Racionalismo tivessem sido mescladas em determinados momentos; sustentando alguns eruditos que o "Racionalismo Psicológico" e "Racionalismo Epistemológico/Gnosiológico" embasavam o "Racionalismo Metafísico"; enquanto outros deduziam do terceiro tipo, os dois primeiros etc. Uma gama de variações que seria enfadonho e desnecessário citar.

Porém, outra malta de Filósofos não se interessou por tais combinações, apegando-se a um tipo apenas, sem, contudo, causar prejuízos para a defesa do Sistema, já que existia a possibilidade de argumentar a favor do ideário Racionalista utilizando-se apenas uma de suas facetas, como se pôde ver, por exemplo, no caso do Empirismo Moderno, cujos expoentes, os ingleses Locke (1632-1704) e Hume (1711-1776), não pouparam de críticas severas o chamado “racionalismo continental2”, defendido por Descartes, Leibniz e outros que, sem muito esforço, rebateram eficientemente aquelas censuras, apesar das diferenças existentes em suas propostas filosóficas.

Ademais, deve ser observado que o próprio Empirismo Moderno não deixa de ser uma forma de Racionalismo, haja vista que as informações captadas pelas sensações, só se tornam conhecimentos efetivos após serem processadas pela racionalidade, pela Razão.

Assim sendo, graças a esse conjunto de possibilidades, convencionou-se definir como Racionalismo toda sistemática que se apoiasse não só no uso da Razão, mas no próprio abuso da mesma, como se verá na sequência.

Especialmente durante a Idade Moderna se pretendeu considerar “Racionalistas” todas as correntes filosóficas, ocasionando, com isso, modificações duvidosas nalgumas tendências apenas para que elas se adequassem a esse formato. Em outras, adotou-se certas características do "Racionalismo Metafísico". E, em outras ainda, impôs-se elementos do "Epistemológico/Gnosiológico". Alterações, diga-se, que nunca conquistaram a aprovação consensual dos Filósofos.

Todavia, é preciso reconhecer que esse equívoco não foi originado pelos Filósofos modernos, pois desde a aurora do Pensamento Superior, na Grécia clássica, o Racionalismo, sobretudo o "Racionalismo Metafísico", exerceu uma enorme influência em toda a Filosofia.

Na sistemática desenvolvida por Parmênides (c.460 AEC – Eléia), por exemplo, já é possível notar um “racionalismo extremo”. E graças a essa convicção, ele afirmou que em decorrência da pressuposta racionalidade total do real (ou da realidade), dever-se-ia exigir a “negação” de tudo que não fosse completamente acessível ao pensamento racional.

Grosso modo, seria como exigir que esse escrevinhador negasse a existência de uma equação matemática, apenas por lhe faltar capacidade intelectual para compreendê-la.

Há pouco tive certa relutância em empregar o termo “abuso” como uma das definidoras do Racionalismo, porém, considerando o parágrafo acima vejo que não foi excessivo, pois o abuso da ideia racionalista foi real, embora errôneo.

Aliás, outra proposição de Parmênides e adeptos confirma o exagero, já que eles propuseram a negativa do próprio movimento, sob a alegação de que ele seria apenas uma “ilusão dos Sentidos”. Para ele, só seria predicável (ou seja, o que pode ser dito, enunciado) o Ser imóvel, imutável, indivisível e único, pois, apenas assim seriam satisfeitas todas as condições da racionalidade (sic). Em termos vulgares, poder-se-ia dizer que ele fez “uma conta de chegar”.

Porém, o “racionalismo extremo” de Parmênides e de outros não foi hegemônico. Primeiro ele sofreu a oposição de o “devir” de Heráclito de Éfeso (535-475 AEC Éfeso, Ásia Menor) e, depois, a atenuação proposta pelo mestre Platão (428-348 AEC, Atenas), que no sistema epistemológico ou gnosiológico abriu espaço para os fenômenos (aquilo que pode ser percebido, captado) e para as opiniões, considerando ambos como “Saberes Verdadeiros”.

Contudo, apesar do enorme peso de uma tese de Platão, o “racionalismo extremo” não pôde ser descartado totalmente, já que as “opiniões”, ainda que consideradas legítimas, não são suficientes para se atingir o “Saber Total”, haja vista que a “realidade verdadeira” só pode ser conhecida com o uso da Razão; portanto, não basta uma opinião emitida pelo Ser, para se chegar à verdade.

De todo modo, o Racionalismo, tanto o extremado quanto o atenuado, prosperou, mesmos sofrendo fortes oposições das tendências filosóficas contrárias...
Continua...
Nota do Autor – Empirismo1 – no final dessa obra, falaremos sobre o Empirismo com mais minúcias. Por hora, basta recordar que é o Sistema Filosófico que afirma que todo Conhecimento passa necessariamente pelas Sensações, pelos Sentidos (tato, visão, audição, paladar e olfato). Que a Razão, per si, é incapaz de captar informações.

Nota do Autor – racionalismo continental2 - referência à Filosofia desenvolvida pelos racionalistas da Europa continental em oposição à ilha da Grã Bretanha.


Lettré, l´art et la Culture. Rio de Janeiro, Primavera de 2014.