quarta-feira, 19 de agosto de 2015

TURANDOT, Puccini - Óperas, guia para iniciantes

Autoria – Puccini (Giacomo – 1858-1924 – Itália).
Libretto – Giuseppe Adami e Renato Simoni.

Personagens:

Princesa Turandot – a cruel Princesa chinesa. Interpretada por uma Soprano.
Imperador Altoum – Imperador chinês e o pai de Turandot. Interpretado por um Tenor.
Calaf – o chamado “príncipe desconhecido”. Filho de Timur, rei tártaro destronado. Interpretado por um Tenor.
Timur – rei tártaro destronado e pai de Calaf. Interpretado por um Baixo.
Liú – jovem e fiel serva de Timur. Interpretada por uma Soprano.
Ping – Grão Chanceler. Interpretado por um Barítono.
Pang – Grande Provedor Real. Interpretado por um Tenor.
Pong – Chefe da Cozinha Real. Interpretado por um Tenor.
Mandarim – Interpretado por um Barítono.

Local e Época
China imperial.
Enredo

A Ópera é inicialmente encenada na réplica de uma praça, dentro da Grande Muralha, na Pequim imperial.
Ali, o povo exerce suas atividades rotineiras até ser convocado para ouvir o pronunciamento de um Mandarim.
Do alto de uma sacada do grande Palácio Imperial, o nobre anuncia, com a devida solenidade, o seguinte édito: “A Princesa Turandot, a Pura, decidiu tornar-se esposa do homem que, além de ter sangue real, for capaz de decifrar os três enigmas que ela propor-lhe... Caso não saiba as respostas, o candidato será executado sumariamente”. 
Anuncia, em seguida, que o Príncipe da Pérsia foi o ultimo a tentar e que como fracassou, será executado assim que surgir a Lua.
As novidades causam uma grande excitação na multidão que, aos urros, pede a morte do estrangeiro, enquanto se movimenta afobadamente em todas as direções.
E esse atropelado movimento do povo faz com que um velho homem seja jogado ao solo e pisoteado pelos enlouquecidos passantes. Uma situação de extremo risco para o pobre ancião e da qual ele só escapa graças à ajuda que recebe de uma delicada, mas decidida jovem, que luta bravamente para retirá-lo daquela situação.
A plateia logo reconhece o idoso mendigo como Timur, o destronado soberano tártaro e a jovem como a devotada serva, Liú, que o acompanhou na desdita.
É grande a luta da jovem para salvar o velho Rei, mas o êxito só chega graças à intervenção de um vigoroso e valente jovem, que após certo empenho os livra das pisadas e encontrões dos eufóricos transeuntes.
Passado o perigo, o jovem homem reconhece emocionado que o idoso é, na verdade, o seu próprio pai, de quem fora separado quando os tártaros foram definitivamente vencidos.
E à sua emoção se junta o sentimento de gratidão a Liú, após o pai contar-lhe que ela o acompanha desde a queda e que chega a esmolar apenas para alimentá-lo.
Profundamente agradecido, ele pergunta à serva o motivo de tanta dedicação e a jovem lhe responde que desde o dia em que ele, Príncipe, sorriu-lhe, ela nunca mais pôde esquecê-lo e que, por isso, zela pelo velho Rei, já que o seu apego à família real ultrapassa a reles subserviência.
E enquanto o diálogo entre ambos prossegue, a iluminação começa a ser rebaixada simulando a chegada da noite. Logo em seguida, uma brilhante Lua cenográfica passa a reluzir.
Nesse momento o Príncipe Persa é trazido para que a sua sentença de morte seja executada. A multidão, ao vê-lo tão belo, jovem e apaixonado, é tomada por um sentimento de piedade e troca o antigo rancor e desejo de sangue por uma sincera compaixão que a faz clamar pelo perdão de Turandot.
E tão alto se torna o alarido que a Princesa surge no balcão de seus aposentos. Banhada pela luz prateada, bela e diáfana, Turandot mostra-se como se fosse uma verdadeira deusa e é nessa condição que ela ignora os apelos dos “pobres mortais” e ordena que o carrasco execute o condenado sem mais demora.
Impotente e frustrada, a multidão se dispersa.
Ficam em cena apenas o velho Timur, a serva Liú e o “Príncipe Desconhecido”, que se vê tomado de irresistível paixão pela cruel Princesa. E como se fosse uma avalanche, essa paixão vai crescendo em seu peito de tal modo que ele decide aceitar o desafio proposto, apenas para casar-se com a bela Turandot.
Sua decisão causa espanto e preocupação no pai e na jovem serva, mas ambos não conseguem demovê-lo da arriscada ideia, já que é praticamente impossível decifrar aqueles enigmas. 
Pouco depois, metafisicamente, os pretendentes anteriores já executados também o aconselham a não cometer tal sandice; e, idem, três máscaras de aspecto grotesco que simbolizam os três ministros Ping, Pang e Pong.
Todavia, ele se mantém irredutível e quando Liú faz a última tentativa através da ária “Signore ascolta (ouve, Senhor...)” ele se limita a responder com outra ária, “Non piangere Liú (Não chore Liú)”, com a qual tenta consolar a jovem serva, enquanto lhe pede que continue a cuidar do velho pai, se algo de ruim lhe acontecer.
Na sequência, surdo a outros apelos, dirige-se decididamente ao gongo e fazendo-o vibrar grita o nome de Turandot por três vezes, candidatando-se ao desafio.
É o fim do primeiro ato.

§§§

O segundo ato tem como cenário o luxuoso pavilhão do Palácio Imperial, onde uma imponente escada de mármore dá acesso aos aposentos de Turandot.
Logo de início acontece um conhecido elemento musical, quando os três ministros, Ping, Pang e Pong, entoam o célebre Terceto em que comentam ironicamente as atitudes da Princesa em relação aos negócios práticos do Reino.
Enquanto isso, o povo lota as dependências e assiste maravilhado aos suntuosos trajes dos Mandarins que chegam. Pouco depois é o próprio Imperador Altoumque entra acompanhado por oito sábios que trazem, cada qual, três pergaminhos com as respostas aos enigmas que a Princesa proporá ao “Príncipe Desconhecido”.
Na sequência, o Imperador Altoum entoa uma breve e censora ária, deixando clara a sua desaprovação aos métodos utilizados pela filha, classificando aqueles derramamentos de sangue com um indesculpável “capricho de bárbaros”. Por fim, pede que “Príncipe Desconhecido” não alimente aquele ritual selvagem, desistindo do desafio.
Porém, o filho de Timur está firme em sua decisão e repete por três vezes o seu desejo de prosseguir, com a seguinte fórmula: “Filho do Céu, peço a prova”.
O soberano, vendo ser inútil o apelo que fez, retruca: “Estrangeiro ébrio pela morte, seja feita a tua vontade. Cumpra o teu destino!”. O povo, então, explode em saudações.
Nisso os holofotes são dirigidos para o alto da escadaria onde a deslumbrante Turandot surge e se deixa ficar enquanto entoa a ária que se inicia com os seguintes versos: “In questa regia”, com a qual tenta justificar o seu comportamento, alegando tratar-se de uma vingança pelo abuso sofrido por sua ancestral, Lou-U-Ling, por parte de um estrangeiro durante a guerra contra os tártaros.
Logo depois, olhando o “Príncipe Desconhecido” com extrema frieza e desdém, diz: “Estrangeiro, não desafies o Destino, pois são três os enigmas, mas a morte é apenas uma”.
Sem se mostrar abalado, Calaf responde-lhe: “Não! Os enigmas são três, mas só uma é a vida”.
A resposta agrada-a imensamente, mas ela não demonstra a sua satisfação e passa, imediatamente, a colocar as perguntas.
Para o primeiro enigma o “Príncipe Desconhecido” responde “Esperança”; para o segundo, responde “Sangue” e os sábios confirmam nos pergaminhos que ambas estão corretas. Falta, pois, apenas o terceiro e mais difícil.
Confiante e arrogante, Turandot lança a questão: “Gelo que incendeia; fogo que congela. Se o libertas, tornas-te escravo; se o aceitas como escravo torna-te rei”.
Ao contrário das anteriores, essa charada exige mais reflexão do “Príncipe Desconhecido”, mas, por fim, ele responde firmemente: “Turandot”.
E ante a comoção de todos, os sábios confirmam: “Sim! É Turandot”. O desafio foi vencido. A Princesa foi vencida.
Abalada e constrangida, Turandot reluta em se dar por vencida e, horrorizada, implora ao pai para salvá-la do estrangeiro. Contudo, o Soberano é justo e a obriga a honrar o desafio que lançou, dizendo-lhe: “O teu juramento é sagrado”.
Desesperada ela se volta para o vencedor e tenta demovê-lo do casamento, questionando-o se o que ele realmente deseja é ter “uma esposa contrariada, escravizada, triste...”.
O “Príncipe Desconhecido”, astuto, diz que não. Que não a quer daquela maneira; e promete não apenas libertá-la do compromisso, como promete deixar que ela o mate se até a manhã seguinte ela descobrir o seu nome: “Propusestes três enigmas e eu te proponho apenas um. Dize-me o meu nome antes do Sol nascer e terás a minha vida”.
Uma atitude corajosa e que reforça a aura de valente com o Imperador Altoum o vê e que o faz desejar tê-lo como genro e filho.
Assim, antes que um grande Coral entoe o Hino Imperial da China, ele diz:“Queira o Céu que ao primeiro Sol sejas o meu filho”.
É o fim do segundo ato.

§§§

O terceiro ato tem como cenário inicial os amplos jardins do Palácio Imperial. Em um dos lados da cena se avista os aposentos de Turandot e pela baixa iluminação, sabe-se ser noite.
Por decreto da Princesa, todos os súditos, Conselheiros, Militares, Mandarins etc. estão proibidos de dormir, pois devem utilizar o tempo para descobrir o nome do “Príncipe Desconhecido”.
E para dar conhecimento do édito, arautos percorrem todos os lugares e os seus brados “Nessun Dorma (Não durma ninguém)” ecoa em todos os recantos.
E “Nessun Dorma” é, também, o título da célebre ária que o “Príncipe Desconhecido” entoa placidamente, enquanto sofre os mais diversos tipos de assédio e de ameaças para revelar o seu nome, já que todos temem as execuções prometidas no Decreto da Princesa em caso de insucesso.
Noutro ponto do cenário, guardas conduzem presos o velho Timur e a serva Liú, ambos com visíveis marcas de tortura. 
Convocado, o “Príncipe Desconhecido” nega conhecê-los, pois isso iria comprometê-los ainda mais, porém o Grão Chanceler Ping, que os viu conversando na noite anterior, sabe que esse desconhecimento é uma mentira e, por isso, chama Turandot e lhe diz que o nome tão desejado está “atrás dessas bocas fechadas, mas nós temos instrumentos capazes de abri-las”, em clara sugestão às terríveis torturas adicionais que mandará praticar contra os pobres indefesos.
Sem qualquer compaixão, Turandot concorda e ordena-lhe que se apresse.
Liú, nesse ínterim, temendo que a fragilidade senil de Timur o leve a revelar, sob tortura, a identidade do filho, diz que apenas ela a conhece realmente.
Então, com a mesma frieza e perversidade de antes, Turandot ordena que as torturas sejam iniciadas. Porém, a jovem escrava não se deixa atemorizar e após entoar a triste ária “Sim, Princesa, ouvi-me”, profetiza: “Mesmo Turandot, feita de gelo, ao calor de tal flama será tocada pelo amor. Antes da Aurora, deprimida e fustigada, Liú fechará os olhos para sempre e o “Príncipe Desconhecido” será, novamente, o conquistador”.
Depois, num átimo, pega o punhal de um dos guardas e se suicida, levando o segredo para o Além.
Nesse momento, o “Príncipe Desconhecido” entra em cena e ao ver a jovem inanimada crítica Turandot asperamente, acusando-a pelo assassinato da pobre serva.
Indignada e do alto de sua petulância, Turandot replica: “Como ousas, estrangeiro? Não sou uma mortal comum, sou Filha do Céu”.
Calaf responde-lhe com a mesma acidez: “Teu espírito pode ser do Céu, mas o teu corpo está junto a mim” e, ato contínuo, envolve-lhe com um ardente abraço e a beija apaixonadamente.
Atônita a princípio, Turandot logo sente, porém, que todo o seu corpo reage àquelas caricias e se entrega sem reservas às delicias da paixão. Se antes a coragem e a inteligência do “Príncipe Desconhecido” já tinham causado-lhe interesse, essa aproximação a convenceu de que ele é, realmente, o seu escolhido.
Comovida, ela não consegue reter as lágrimas e lhe pergunta como ele pôde vencer a outrora invencível Turandot?
Calaf, noutro gesto magnânimo, revela-lhe a sua verdadeira identidade, dizendo que a quer conquistar apenas pelo amor e que, por isso, tendo revelado o seu mistério, deixa-a livre para desposá-lo ou para matá-lo.
Num primeiro momento ela recua horrorizada, pois ele revelou ser um Príncipe dos odiados tártaros, que tantos sofrimentos causaram à sua dinastia; mas essa rejeição acaba sendo vencida pelo amor recém-descoberto.
E ainda sob o impacto desses últimos acontecimentos, leva Calaf ao Palácio e anuncia ao Imperador e à Assembleia que está pronta a revelar a identidade do forasteiro antes da Aurora e que, portanto, estará apta a mandar decapitá-lo, como, aliás, ele mesmo propôs ao desafiá-la.
É um momento de enorme tensão para todos e particularmente para o Imperador que já fazia muitos planos para o genro. Mas, então, trêmula e comovida, Turandot diz: “O nome do “Príncipe Desconhecido” é AMOR!”.
Calaf, surpreso como todos e não menos comovido que ela, abraça-a e ambos trocam juras de amor, enquanto o povo festeja o casamento dos herdeiros imperiais.
E ao som da ária “Nessum Dorma” as cortinas são fechadas. É o fim da Ópera.

Histórico

Puccini faleceu em 29.11.1924, vitima de um câncer, em uma clinica em Bruxelas, para onde fora em busca de tratamento especializado com um famoso médico da época. Expirou sem ter podido concluir essa Ópera, que é uma das mais conceituadas de todos os tempos.
Em 25.04.1926, no grande Teatro Alla Scala de Milão, em uma noite carregada de saudade e de emoção, juntaram-se ao grande público os libretistas Adami eSimoni e, mais, o compositor Franco Alfano, que teve a difícil incumbência de terminar a parte musical da obra.
E o público e eles assistiram à maravilhosa apresentação, que sob a regência do magnífico Toscanini, alcançou o grande objetivo do compositor, tornando o argumento original de Carlo Gozzi, autor da peça teatral homônima, mais vivo, vibrante, dramático, operístico, etc. Uma apresentação digna dos aplausos que recebeu e da admiração que se estendeu pelo tempo.
Puccini faleceu aos sessenta e seis anos de idade, de uma maneira até certo ponto inesperada, pois era um homem robusto, ativo e bem disposto, inclusive após o câncer ter-se manifestado. Afastou-se da lida apenas para tentar a cura em Bélgica, mas infelizmente a sorte lhe foi madrasta. 
Contudo, o seu trágico desaparecimento não comprometeu a qualidade excepcional da obra, tanto pelo fato de ele a ter deixado praticamente pronta, quanto pelo talento e bom sendo de Franco Alfano que soube preservar o seu estilo.
Assim, sua derradeira obra foi como um “fecho de ouro” para a sua brilhante carreira de compositor. O último êxito de quem foi, ao lado de Giuseppe Verdi, um dos maiores nomes da Ópera italiana e mundial.


Produção e divulgação de Vera Lucia M. Teragosa.
Lettre la Art et la Culture
Enviado por Lettre la Art et la Culture em 19/08/2015

domingo, 16 de agosto de 2015

A Canção de Atenas


As antigas vozes já não te percorrem
e tampouco se escuta a lira orfeônica.
Outros germanos gênios, agora, te assolam
e outras esfinges vedam os teus caminhos.
Sábios pensares platônicos já não descem
as colinas do Aéropago,
pois eis que neo-bárbaros de floridas camisas
tomaram as encostas e riem o riso dos ignotos.
Sibilas escondem-se da voracidade de quem te visita
e ocultos em permanência
ficaram os homens e mulheres deuses que vivem no Olimpo.
Sabem-se inúteis ante as mil Capitais cabeças
com que te afronta a Hydra bancária
e seus trágicos espartanos espartilhos que te sufocam.

Foi-se o saber socrático, trocado pelo paquiderme burocrático.

Lamentam-te todos, que de ti beberam a água da vida.
Lamentam-te todos, que se iluminaram com a lanterna
que buscava o homem honesto.

Lamentamos-te, Atenas. Todos nós.



Produção e divulgação de Vera Lucia M. Teragosa.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

canção de hiroshima - fábio renato villela

ALCESTE, Gluck - Óperas, guia para iniciantes.


Autoria – Gluck (Cristoph Von – 1714-1787, Alemanha) 
Libreto – Ranieri de Calzabigi.

Personagens:
Admetus – soberano, prestes a morrer. Interpretado por um Barítono.

Alceste
 – esposa de Admetus. Interpretada por uma Mezzo Soprano.

Herácles
 – o semideus grego, amigo do casal. Interpretado por um Tenor.

Grão Sacerdote
 – interpretado por um Barítono.

Evandro
 – O Ministro predileto de Admetus. Idem.

Época e local
Grécia – idade mitológica.

Enredo

Alceste é uma das mais conhecidas “Tragédias Gregas” e Gluck e Calzabigi tiveram o cuidado de pouco alterarem a sua configuração original, numa inequívoca demonstração de respeito ao autor da mesma e ao público interessado na arte helênica.

Dessa sorte os cenários da obra não apresentam grandes alterações aos modelos conhecidos e consagrados. O primeiro ato, por exemplo, é ambientado na reprodução da tradicional praça fronteira aos palácios reais, no caso o de Admetus, com o também tradicional Templo de Apolo, ao fundo.
Uma multidão inicia a função clamando aos deuses para que curem o seu amado rei, de uma doença que sabem ser grave. 
Mas é breve essa lamentação inicial, pois logo o arauto real toma a palavra e anuncia que o quadro de saúde de Admetus piorou e que pouco tempo resta ao soberano. 
Com isso, o lamento recrudesce, mas, novamente é interrompido pela entrada em cena dos dois filhos do casal e da rainha Alceste, que pede à multidão que a acompanhe ao Templo para que todos juntos possam suplicar aos deuses, pela saúde do “pai da nação”.
Consternada, a massa de gente a segue e a orquestra executa uma compungida “Pantomima”, anunciando a chegada da comitiva ao “Santo Refúgio”. Presidindo o ritual, o Grão Sacerdote pede silêncio para que todos possam ouvir o vaticínio do Oráculo.
O momento é de sofrida expectativa e as profecias só confirmam as piores previsões: sim! A morte de Admetus é iminente, salvo se alguém se dispuser a morrer em seu lugar*.
Uma exigência que a todos apavora e que leva a multidão a fugir apressadamente. Ficam, apenas, o Grão Sacerdote e Alceste, que vendo a gravidade da situação e tendo consciência da importância do rei para o destino do povo e do país, dispõe-se a morrer em lugar do marido.
O Sacerdote concorda com os seus argumentos e lhe assegura que o seu desejo será concedido pelos deuses, devendo, portanto, usar o restante do dia para preparar-se para a última viagem.
Duros preparativos que ela inicia entoando a ária “Divinités du stix”, que é uma invocação e um desafio aos deuses do “Mundo Inferior”, já que eles não serão capazes de fazê-la sentir dor maior, que a que sentiria com a morte de seu amado companheiro e esposo.
É o fim do primeiro ato.

§§§
O segundo ato é encenado na réplica do grande salão do trono, onde Admetus se mostra plenamente recuperado, recebendo, por isso, as congratulações de vários súditos, de muitos Ministros e, especialmente, as de Evandro, seu dileto assessor.
O clima é de jubilo e o público é brindado com uma bela série de bailados.
Ainda extasiado com a saúde e com o vigor restabelecidos, Admetus questiona Evandro como se deu aquela recuperação milagrosa e o Assessor, desavisadamente, revela-lhe a profecia do Oráculo e a existência de um voluntário para morrer em lugar do bom rei.
Para Admetus tal exigência é inaceitável. Ele não pode suportar a ideia de que alguém se ofereça para tamanho sacrifício. Contudo, o seu desconforto encontra algum alivio quando Alceste se aproxima e demonstra o quanto está feliz com a sua recuperação.
Ao fundo, o belo Hino, entoado pelo Coral, acentua a felicidade dos cônjuges, mas a euforia pouco dura, pois Alceste não consegue deixar de pensar que em breve será afastada do esposo e dos filhos e não consegue impedir que uma grande amargura domine-lhe a alma e se mostre no semblante.
Notando o sofrimento da esposa, Admetus tenta consolar-lhe através da vigorosa ária “Banis la crainte et les larmes (Afaste o temor e as lágrimas)”, mas é surpreendido com a confissão da mesma que será ela quem morrerá em seu lugar.
O espanto e a tristeza do rei são enormes e veementemente ele recusa permitir que ela concretize aquele gesto extremo. Por fim, dominado pelo mais agudo desespero, recolhe-se em seus aposentos.
Todos prorrompem em sentidas lamentações e Alceste entoa a sofrida ária em que diz: “Malgrado meu, meu débil coração partilha de vossas ternas lágrimas”.
É o fim do segundo ato.

§§§
O terceiro ato é representado inicialmente no pátio fronteiriço ao Palácio real, onde uma multidão lamenta a morte de seus querido regentes, pois Admetus não pôde suportar a dor e a culpa pela morte de sua amada Alceste e também seguiu para o “Mundo Inferior”.
Há um clima fúnebre, pesado e a consternação geral logo atinge o recém-chegado semideus Herácles (Hercules, no plágio romano) que ali veio para comemorar com o amigo Admetus a sua exitosa conclusão dos célebres “Doze Trabalhos”.
Porém, em lugar da festa que imaginava, tem apenas a companhia de Evandro, que lhe relata as funestas circunstâncias ocorridas. Contudo, sendo um ente quase divino, ele se recusa a se deixar abater e decide reagir e descer ao “Mundo Inferior” em busca de seus amigos.
Jurando ao povo que restituirá os seus soberanos, logo inicia a longa marcha e com isso a primeira cena é encerrada.
A segunda cena tem como cenário o pátio que antecede as “Portas do Inferno”.
Ali, ainda sozinha, Alceste implora aos deuses malignos que a deixem entrar no “Mundo dos Mortos”. 
Logo depois, Admetus chega e lhe suplica que volte ao “Mundo dos Vivos” e o deixe cumprir a sua sina, pois os filhos de ambos sofrerão todas as maldades que rotineiramente são aplicadas aos órfãos, ainda que sejam reais. Apenas a ele cabe cumprir a tenebrosa pena. Alceste, porém, reluta e retruca com uma longa e pertinente série de contra-argumentos.
É um belíssimo Dueto que expressa a discussão do casal e a sua execução é pontilhada por dramáticos acordes que a orquestra toca.
Por fim, surge a poderosa voz de Tânatos, “deus da Morte”, exigindo que decidam logo quem será sacrificado. 
Ambos voltam a argumentar e contra-argumentar com veemência e o impasse se prolonga por algum tempo. Antes, porém, que Tânatos volte a exigir uma definição, surge Herácles e os avisa que veio para resgatá-los.
Admetus, então, saca de suas armas e se junta ao herói no violento combate que travam contra as hordas infernais. Após muito esforço, vencem a luta e se aproximam da reconquista da liberdade.
Nesse momento surge o próprio deus Apolo, que em face da proeza de Herácles, assegura-lhe um lugar definitivo no Olimpo, junto com os outros deuses; e anula a sentença de morte que pesava contra Admetus.
Um novo Sol parece brilhar no horizonte enquanto Admetus e Alceste voltam para casa. Mais que quaisquer outros, eles poderão testemunhar o poder da lealdade, da coragem e do amor.
E assim termina a segunda cena.
A terceira cena volta a ser encenada na praça fronteira ao Palácio de Admetus, onde os súditos festejam a volta de seus soberanos. Herácles, unindo-se ao casal, se junta à multidão e todos entoam em alegre Coro um belo Hino de celebração à vida.
É o fim da Ópera.

Histórico
Para a maioria dos estudiosos, com essa Ópera Gluck resgatou a grandiosidade do gênero, que aos poucos vinha sendo arruinada pela vaidade excessiva de autores e de interpretes, fato que tornava o espetáculo enfadonho, indecifrável e de duvidosa qualidade. E, por isso, progressivamente desinteressante ao grande público.
Com efeito, já em seu prefácio, Gluck reafirma a sua disposição em fazer de “Alceste” uma obra isenta dos artifícios que vinham sendo agregados ao gênero por obra do pernosticismo de cantores (as) que, cada vez mais, mostravam-se ávidos em exibir as suas virtuoses, fossem elas reais ou apenas imaginadas pelos mesmos. 
E, ainda, a de certos autores que buscavam criar efeitos fabulosos, cenografias ultraelaboradas e coisas quetais, apenas para garantirem o “status de gênios” que alguns incautos, ou áulicos, davam-lhes a granel.
Veleidades, exageros e declinante qualidade que por pouco não arruinaram a “Grande Arte” de maneira definitiva. Nas palavras de Gluck: “enfim, procurei abolir todos os abusos contra os quais o bom-senso e a razão têm chamado longamente e em vão”.
E o enorme sucesso de que a obra desfrutou desde a sua estreia em Viena, Áustria, em 26.12.1767, confirmou o seu acerto.
A ele, portanto, deve-se a revitalização, a contínua melhoria e a consequente expansão da arte operística em todos os quadrantes do mundo.
Nota do Autor – na Tragédia original, essa substituição não é aceita pelo pai e nem pela mãe do rei; tampouco por qualquer outro súdito, vassalo ou amigo. Alceste aceita-a apenas por motivos egoístas e não por razões mais nobres.


Produção e divulgação de Vera Lucia M. Teragosa

 Lettré, l´art et la Culture. 
Rio de Janeiro, inverno de 2015.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

ORFEU e EURÍDICE, Haydn - Óperas, guia para iniciantes - Ensaio completo




AutoriaHaydn (Franz Joseph – 1732-1809 - Áustria)
Libreto – Carlo Francesco Baldini

Personagens:

Orfeu – o mítico poeta e cantor da Grécia clássica. Interpretado por um Tenor.

Eurídice – a bem amada musa de Orfeu. Interpretada por uma Soprano.

Creonte o pai de Eurídice. Para alguns eruditos, o rei de Tebas. Interpretado por um Barítono.

Gênio – interpretado por uma Soprano.

Plutão – o Rei dos infernos. Interpretado por um Barítono.

Arideo – personagem oculta e sem voz.

Época e local

Grécia – idade mitológica.

Enredo

Dando vazão ao seu imenso talento musical, Haydn acrescentou à célebre história de amor entre Orfeu e Eurídice uma série de melodias que colocaram ainda mais beleza ao que naturalmente já era belíssimo.
Dessa sorte, o Ensaio a seguir será recheado com os títulos das principais intervenções musicais, numa sugestão de que o (a) leitor (a) busque ouvi-las durante a leitura do mesmo, pois o efeito será extremamente prazeroso.
A história é ambientada inicialmente na réplica de uma praia rochosa, no litoral grego, margeado por uma densa e escura floresta.
Sozinha em cena, Eurídice lamenta a sua má sorte, já que foi prometida em casamento por seu pai Creonte ao rude, perverso e indesejado apicultor chamado Arideo (ou Eristeus, segundo Virgilio).
E tal é a sua amargura e desespero, que ela cogita fugir da casa paterna, embrenhando-se na temível floresta próxima.
Nesse ponto, o Coro – como nas representações tradicionais das “Tragédias Gregas” – adverte-a sobre os riscos existentes na mata, povoada por animais ferozes e por Seres malignos.
Porém, as advertências do Coro não lhe amedrontam e entoando a ária “Filomena Abbandonata”, diz ser preferível lançar-se à sorte de que se conformar com o horrível matrimônio a que foi destinada.
Assim, tão logo termina a canção, passa da intenção à ação e entra resolutamente no sombrio bosque, mas a sua jornada pouco prospera, pois logo alguns Seres malignos agarram-na.
Dois Coristas que a seguiam assistem apavorados ao ataque e gritam por socorro e, presto, chega ao local o célebre Orfeu que, ante a fúria dos raptores, saca de sua lira – sonoramente representada por uma harpa barroca – e através de seu canto sedutor, “Rendete a questo seno”, consegue amansar os instintos diabólicos das nefastas criaturas que, então, libertam Eurídice.
O Coro volta à cena e enquanto presta justa homenagem à coragem do jovem poeta, o casal se dirige ao Palácio de Creonte em busca de sua benção e de seu consentimento para namorarem e se casarem, haja vista que o amor os tocou, desde aquele primeiro encontro.
E assim se encerra a primeira cena.
A segunda cena é encenada na réplica do salão do trono, no Palácio de Creonte.
Ali, ansioso, o soberano pergunta aflito sobre a sua filha, pois não a vê há algum tempo. Um membro do Coro se adianta e relata a amargura da moça com o casamento forçado, o seu desespero, a sua fuga para a floresta, o ataque que sofreu e, por fim, relata como ela foi salva pelo nobre Orfeu. Em seguida, também narra a paixão que os atingiu tão logo se viram.
Ainda que lhe custe descumprir a promessa feita a Arideo, o soberano sente-se tocado pelo amor do casal e através da ária “Il Pensier Sta Negli Oggetti” diz que nada pode mudar os desígnios do Destino, concordando, portanto, com as núpcias de sua amada filha com o belo Orfeu.
Assim, após abençoá-los, retira-se com o resto da Corte e Eurídice e Orfeu ficam sós em cena, entoando um romântico Dueto que encerra o primeiro ato.

§§§

O segundo ato é encenado em um bosque florido onde um Coro de “Amorini Divini”, angélicas figuras assemelhadas ao Cupido, circundam os jovens noivos que trocam juras de amor eterno.
É um momento de paz e de felicidade, mas um súbito estrondo quebra a harmonia reinante, fazendo com os “Cupidos” fujam apavorados, enquanto Orfeu deixa a sua amada e vai investigar a origem daquele som estranho.
Nesse momento, aproveitando de sua solidão, um cúmplice de Arideo tenta raptar Eurídice, já que o apicultor não consegue admitir ter sido preterido por outrem e busca vingar-se a qualquer preço.
Contudo, não obstante o susto e o medo, a jovem consegue escapar da primeira investida e corre desesperadamente pela floresta, mas, então, por obra do azar, pisa em uma víbora peçonhenta que lhe pica e inocula um veneno letal.
A ação do veneno não demora e em poucos segundos ela cai ao solo e antes de expirar pela última vez entoa a magnífica ária que se inicia com os famosos versos “Del mio core”.
Ao regressar, Orfeu se depara com a horrenda visão de sua amada morta e toda a angústia que lhe assalta fica patente na sentida ária “Dove quel alma andace” que ele, tristemente, entoa.
Nesse ponto, a segunda cena volta a ser ambientada no Palácio de Creonte, onde um integrante do Coro informa ao soberano o trágico acontecimento, arrancando-lhe doloridos suspiros, típicos de um pai arrasado. Num segundo momento, porém, ao tomar conhecimento da culpa de Arídeo para o infausto desfecho, jura vingar-se do mesmo, através da vigorosa ária “Mai non sai inulto”, que é soberbamente acompanhada por um naipe de trompetes.
E com isso o segundo ato é encerrado.

§§§

O terceiro ato tem como cenário o prado onde fica o túmulo de Eurídice.
Um Coro de homens e de donzelas lamenta o desaparecimento da bela princesa, enquanto em um dos lados, Orfeu expressa com um choro sofrido a enorme amargura e o infinito desespero que lhe dilaceram a alma.
E tamanha é a sua dor que o próprio pai Creonte se compadece de seu estado e busca consolar-lhe através de uma suave ária.
Assim, fecha-se a primeira cena.
A segunda cena é encenada na réplica de uma caverna.
Ainda tomado pela dor e pelo desespero, Orfeu se queda frente à entrada do negro abismo, disposto a descer ao “Mundo Inferior” para resgatar a sua inesquecível amada.
Delirante, clama aos deuses e invoca Sibila – a deusa dos abismos – a quem implora o necessário auxílio para chegar à “Última Morada”.
Nesse momento, ouve-se um grande estrondo no interior da caverna e logo depois aparece um Gênio do “Reino da Morte”.
Orfeu conta-lhe a sua desventura e o seu desejo de resgatar Eurídice e o faz com tamanha sensibilidade que comove até ao Gênio; que, admirado de sua coragem e da extensão de seu amor, oferece-se, através da belíssima ária “Al tuo seno fortunatto” para guiá-lo em sítios tão sombrios. Todavia, antes que a jornada de ambos se inicie, ele aconselha ao amante fervoroso que se conforme com os desígnios do Destino, pois até os deuses são subjugados por suas diretivas.
Mas nada pode interromper a ânsia de Orfeu e enquanto eles se preparam para a longa descida, o Coral entoa o célebre hino “La Giustizia”, em louvor à justiça que é feita a quem soube amar de modo tão puro e sincero, cativando, com isso, até a compaixão dos entes divinos.
E desse modo o terceiro ato é encerrado.

§§§

O quarto ato é encenado inicialmente na réplica de uma das margens do famoso rio infernal, o Lete, onde os mortos esquecem-se da vida terrena.
O Coro entoa o lamentoso hino das almas penadas, “Infelici ombre dolenti” que conta o sofrimento dos mortos que penam durante um século antes de serem aceitos na outra margem.
É um quadro triste, pesado e é nesse lúgubre ambiente que chegam Orfeu e o Gênio que lhe guia. Instantes depois embarcam na canoa de Caronte (Charon, para alguns autores) e atravessam da “margem dos (semi) vivos” para a “margem dos mortos”.
Ao chegarem são brutalmente atacados pelas “Fúrias”, que entoando o fero Coro “Urli Orrendi” impedem que desembarquem.
Todavia, apesar de todo o horror que vem enfrentando, Orfeu não se intimida e sacando de sua lira produz uma música tão doce e suave que até as Fúrias se acalmam e, contrariando a tudo que já se viu no Inferno, louvam as virtudes do Amor.
E como se tal não bastasse, todos os outros Seres malignos se rendem àquela sedução. Por fim, o próprio Plutão, deus dos Infernos, acaba sendo convencido por Orfeu a libertar Eurídice e, assim, consente que ambos saiam do “Reino das Sombras”, desde que Orfeu se comprometa a não olhar os olhos de sua querida até que assomem à superfície.
Um breve balé é dançado pelos “Espíritos” e dentre eles, Orfeu reconhece a sua Eurídice. Retirando-a do grupo, narra-lhe parcialmente os acontecimentos e a jovem, feliz por ignorar a sua real situação, adianta-se pelo caminho à frente do amado. Seguem, pois, por algum tempo, mas um descuido leva Orfeu a mirar-lhe os olhos e por quebrar a promessa, o gênio os abandona à própria sorte.
Na sequência imediata, Eurídice perde o brilho dos olhos e desfalece. Orfeu, então, compreende que agora a perdeu definitivamente e só lhe resta a imensa amargura que expressa ao entoar a ária “Perduto un altra volta”, encerrando a primeira cena.
A segunda cena volta a ter como cenário a rochosa praia do primeiro ato.
Após retornar à superfície, Orfeu refugiou-se de todos e tudo naquele sitio afastado, onde amarga a sua solidão e a sua imensa tristeza.
Perdido nesses tristes pensamentos e sentimentos, ele custa a perceber a aproximação de um grupo de “Dionisíacas (Bacantes, segundo o plagio romano)” que insistem em levá-lo para participar de uma de suas orgias.
Mas Orfeu se recusa a segui-las com certa rispidez, pois além de Eurídice nenhuma outra mulher pode lhe interessar.
Porém, tal recusa não é aceita pelas mulheres que se sentem insultadas pelo Poeta. Ardilosamente disfarçam a ira que passaram a sentir por ele e matreiramente ofertam-lhe uma beberagem, que ele toma com visível prazer sem perceber o gosto do veneno que nela foi adicionado.
Pouco tempo depois, está morto o “Sedutor das Feras e dos Homens”.
Em histérico frenesi as Dionisíacas festejam a vingança concretizada, mas, como um castigo do Olimpo, uma violentíssima tempestade desaba, afogando a todas elas e formando uma poderosa corrente que leva o corpo inerte do “Cantor dos deuses” até a Ilha de Lesbos, onde, enfim, encontrará paz.
É o fim da Ópera.

Histórico

Haydn é mais conhecido como compositor sinfônico e instrumental e até chegou a ganhar o epíteto de “Pai da Sinfonia”.
Mas ele não escapou da sedução do gênero operístico e além das mais de cem sinfonias que compôs, também são de sua lavra cerca de doze óperas, ou, em suas palavras: “músicas para ação teatral”.
A presente obra, “Orfeu e Eurídice”, de 1791, foi a sua última Ópera, mas a estreia da mesma foi barrada por uma série de contratempos.
Encomendada pelo famoso empresário Johann Peter Solomon, sofreu com uma vasta gama de intrigas e outros empecilhos que impediram o evento; e que o próprio Haydn a assistisse, já que ele morreu antes de sua apresentação completa e acabada.
Apenas em 1950, cinco anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, é que musicólogos e pesquisadores da “Haydn Society”, de Boston, EUA, sob a liderança de H.C. Hobbins e do Dr. Hellandon M. Wirth compilaram os diversos fragmentos alocados na Biblioteca do Estado da Prússia; nos Arquivos Esterházy de Budapeste, Hungria e trechos avulsos da Casa Breitkopf e Hartel, Alemanha; e resgataram a grandiosa unidade da obra original.
A recuperação e a reconfiguração da Ópera foi um trabalho inestimável para o Mundo da Arte e da Cultura e uma reafirmação da magnificência da grande “Tragédia Grega”.


Produção e divulgação de Vera L. M. Teragosa.

Lettré, l´art et la Culture. Rio de Janeiro, inverno de 2015.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Atos


Então chegou a dolorida ternura
pela jovem prostituta que guardava,
qual valioso tesouro,
o leite que levaria ao filho
tão logo acabasse o trágico ato
que ambos representávamos.





Produção e divulgação de Vera L. M. Terarosa
Lettre la Art et la Culture
Enviado por Lettre la Art et la Culture em 11/08/2015

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

A Canção de Hiroshima


Canta o Poeta Grande
"A Rosa de Hiroshima*",
mas já não há mais rosas em Hiroshima.
Os homens as ceifaram.

E da terra ceifada pelos falsos anjos vingadores,
qual inimiga e trágica Sodoma,
agora só se erguem fantasmas e escombros.

Dores e sofrimentos rastejam abstratos,
pois diziam que o Mal habitava os corpos
e urgia que a Grande Águia
revidasse as ofensas perpetradas.
Urgia que o Pacífico fosse vingado
e que o pavor fosse implantado...

E foi assim
que os falsos anjos vingadores
acharam-se deuses
e decretaram o fim
dos homens que pensávamos ser.




Às vitimas de Hiroshima, vitimadas pela Bomba detonada em 06 de Agosto de 1945.


* Da poética de Vinicius de Moraes.


Produção e divulgação de Vera Lucia M. Teragosa.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

RIGOLETTO, Verdi - Óperas, guia para iniciantes


RIGOLETTO, Verdi -
Óperas, guia para iniciantes- Ensaio completo

Autoria – Verdi (Giuseppe Fortunino Francesco – 1813-1901 – Itália)
Libreto – Francesco Maria Piave.

Personagens:

Duque de Mântua – poderoso Senhor Feudal, conhecido pela devassidão. Interpretado por um Tenor.

Rigoletto – Bufão de sua corte. Interpretado por um Barítono.

Gilda– filha de Rigoletto. Interpretada por uma Soprano.

Sparafucile – famoso e cruel bandoleiro da região. Interpretado por um Baixo.
Maddalena – irmã de Sparafucile. Interpretada por uma Mezzo Soprano.

Giovanna – aia de Gilda. Interpretada por uma Soprano.

Conde Monterone – interpretado por um Baixo.

Cavaliere Marullo – interpretado por um Barítono.

Matteo Borsa – interpretado por um Tenor.

Conde Ceprano – interpretado por um Barítono.

Condessa Ceprano – interpretada por uma Soprano.

Época e local

Mântua, Itália, meados do século XVI.

Enredo

O primeiro ato da peça é encenado na réplica de um dos salões de festas do suntuoso castelo do poderoso duque de Mântua.
Em meio a grande festa que acontece, o duque exercita a sua proverbial arrogância e devassidão ao conversar animadamente com Matteo Borsa, um de seus servis cortesãos.
Falam acerca do desejo que o duque vem sentindo, há cerca de três meses, por uma jovem que avista semanalmente na igreja.
Pouco sabe da mesma, mas foi informado de que um homem visita a sua casa todas as noites e a existência desse suposto “rival” aumenta ainda mais a sua vontade de conquista; pois, além do prazer que a jovem possa lhe proporcionar, ele terá, também, a satisfação de ter suplantado o outro homem.
São metas e objetivos sórdidos e típicos de seu deformado senso ético e moral.
Em certo momento, Matteo chama a sua atenção para um grupo de moças que caminha em direção de ambos.
- São belas, belíssimas (!) diz o duque; mas, fazendo jus a sua fama de devasso, completa: nenhuma delas se compara à beleza da condessa de Ceprano, aludindo à esposa do conde que, teoricamente, seria seu amigo.
Depois, zombeteiro, diz ao servil Matteo que todas as mulheres lhe interessam, já que para ele nada as diferencia, sendo todas, apenas objetos para o seu prazer: “esta ou aquela para mim se equivalem a tantas outras que vivem ao meu redor”. E para arrematar a sua exibição de petulância, entoa a ária “Questa o Quela”, na qual reafirma o seu desprezo pelo gênero feminino.
Pouco depois, ele encontra o casal Ceprano e sem se incomodar com o fato de a condessa estar acompanhada por seu marido, faz-lhe uma série de galanteios vulgares, despertando a fúria e o ciúme do conde, que só a muita custa consegue refrear a vontade de atacar-lhe.
E para aumentar o mal-estar, o bufão Rigoletto ridiculariza em altos brados o marido ofendido, rindo de sua impotência e de sua incapacidade de defender a esposa daquele vexatório assédio.
Em verdade, essas zombarias de Rigoletto são rotineiras e acabam sendo uma “maldade complementar” à do duque, o qual se sente satisfeito por causar tais constrangimentos adicionais, vindo, daí, o seu apreço pelo bobo de sua corte.
Inexistem cortesões, militares, regentes, nobres etc. que não tenham sofrido com as suas zombarias, ironias, cinismos, acintes e difamações. Um conjunto de práticas tão odioso, sempre com o beneplácito do duque, que o resultado foi um acúmulo de ódio e de ressentimento por parte dos atingidos; e de gaudio para o depravado Senhor, que se sentindo protagonista das histórias e anedotas que o bufão inventa, aumenta e reconta cada qual como se fossem proezas maravilhosas.
Assim, quase todos já não conseguem suportar mais aquelas maldades e, por isso, a notícia trazida por Marullo de que Rigoletto teria uma amante oculta, leva-os a pensar em raptá-la e entregar ao Duque de Mântua que a seduziria ou violentaria, causando a mesma mágoa no bufão.
Seria a vingança perfeita. Rigoletto sentiria, então, o mesmo ciúme, a mesma amargura e veria o quanto são dolorosos os momentos que eles são obrigados a suportar em função dos caprichos do duque e de suas injúrias.
Contudo, antes de terem tempo hábil para trabalharem no planejamento da ação, a chegada intempestiva do Conde Monterone interrompe-os.
Possesso, o velho nobre interpela o maldoso duque aos gritos, exigindo explicações e desculpas pelo seu comportamento indecente com a sua filha, ocorrido há pouco.
Insolente e desafiador, o Senhor de Mântua permanece em irritante silêncio, mas Rigoletto não perde a chance de tripudiar sobre a dor do idoso homem, que, ciente de que a sua indignação não irá além daquela explosão de cólera, dá as costas ao duque e amaldiçoa o bufão com a seguinte invectiva: “E tu que ri da dor de um pai, sê maldito!”.
Após lançar a aziaga predição, os guardas agarram-no com violência e o arrastam para fora do Palácio. Porém a sua expulsão não areja o ambiente e é esse clima pesado que encerra a primeira cena.
A segunda cena tem como cenário a representação de uma noite escura, num distante bairro de Mântua, nas vizinhanças do castelo do conde Ceprano.
Trajando um casaco pesado, Rigoletto caminha em uma rua escura e deserta, ainda preocupado com a maldição que lhe foi lançada. E tal é o seu temor que nem percebe que está verbalizando aquela sensação tenebrosa e, tampouco, que há poucos passos está sendo seguido pelo temível facínora Sparafucile, que ao ouvir os seus lamentos, aproxima-se e lhe oferece os serviços de um assassino profissional.
Todavia, aquela oferta é demasiada até mesmo para alguém tão sem honra quanto Rigoletto, que a recusa com repugnância.
Todavia, apesar da repugnância, o bufão sabe que a sua deformidade moral não é tão diferente da do assassino Sparafucile e ao entoar a ária “Pari Siamo (somos iguais)” ele confessa essa nefasta similaridade.
Pouco depois, ainda se lamentando por sua torpeza e pela maldição que lhe pespegou o velho conde, ele chega à sua casa e, então, o seu estado de espírito muda completamente. Tudo se modifica em seu ânimo e é com muita afetuosidade que ele recebe os carinhosos beijos e abraços de Gilda, sua filha, a quem ama mais que a qualquer um.
Há entre ambos um relacionamento sincero e repleto de amor paternal e respeito e afeto filial, mesmo quando ela pede explicações sobre a sua origem, ao entoar com ele o célebre Dueto relativo ao tema e tem como resposta, apenas uma narrativa parcial. Nas palavras do bufão: “não fale ao arruinado sobre os seus antigos haveres... Foi por pena de sua solidão, de sua deformidade e de sua pobreza que (ela) o amou... mas, depois de sua morte, apenas ela, Gilda, sua filha amada lhe sobrou”.
E, de fato, o amor que ele tem pela garota é puro, casto e verdadeiro, sendo, por isso, o seu maior pesadelo a hipótese de que algum dia os vários inimigos que fez com suas infâmias, levem-na de si e lhe façam alguma maldade.
Um temor tão agudo que sempre o leva a recomendar exaustivamente a Giovanna, a aia, que mantenha sempre uma cuidadosa atenção para impedir que estranhos adentrem à casa.
Contudo, uma armadilha já se prepara contra o seu tesouro, pois o Duque de Mântua, disfarçado como um estudante pobre está à espreita para falar com a jovem, após ter subornado Giovanna.
Assim, tão logo ele sai o duque, com o pseudônimo de Gualtier Maldé, adentra a residência e se declara à Gilda, despertando-lhe o interesse e conquistando a sua afeição.
Dessa sorte, após o breve e alegre diálogo entre ambos, ela se põe a divagar sobre a bela figura, sobre a vivacidade e sobre a inteligência e gentileza do recém conhecido. Convencida de que a paixão a encontrou pela primeira vez, sem qualquer censura racional, diz em alta voz: “Caro nome que fizeste pela primeira vez o meu coração palpitar”.
A isca lançada pelo duque predador aprisionou o ingênuo passarinho.
Enquanto isso, os vassalos Borsa, Ceprano e Marullo preparam-se para sequestrarem a suposta amante de Rigoletto e entregarem-na à licenciosidade do Senhor de Mântua, cujas prováveis malfeitorias servirão como justa e dura lição para o boquirroto e infame “Bobo da Corte”.
Porém, naquele momento, o plano tem de ser interrompido, já que Rigoletto está voltando inesperadamente a sua casa e os avista, sem identificá-los, entre as sombras que escurecem a cena.
É um momento difícil para o trio, mas como eles estão mascarados, Rigoletto não os reconhece. Improvisando, eles dizem que estão ali para sequestrarem a Condessa Ceprano, sua vizinha.
Rigoletto imagina que assim procedem a mando do Duque e a sua inclinação ao mal e ao servilismo logo o faz manifestar o seu desejo de juntar-se ao bando. Em seguida, pede para também usar uma máscara, como fazem os demais.
Marullo se prontifica em mascarar-lhe, mas ao fazê-lo aproveita para vendá-lo completamente, sem que o Bobo perceba que a total escuridão não se deve apenas à máscara.
Assim, incautamente, ele não se dá conta de que os companheiros estão invadindo a sua própria residência para raptar a sua filha amada. Apenas quando eles já vão longe é que reconhece a voz de sua Gilda e se conscientiza do terrível rapto que ele ajudou a realizar.
Foi-se a sua joia mais preciosa e só lhe resta praguejar: “Ah, la maledizione”.
É o fim do primeiro ato.

§§§

O segundo ato tem como cenário um dos luxuosos salões do Palácio ducal.
Após o episódio do rapto. O Senhor de Mântua voltou à casa de Gilda e ficou sabendo que ela fora raptada. Esse infausto acontecimento atinge os seus sentimentos, causando-lhe uma sincera tristeza, expressa na sofrida ária, “Ella mi fu rapita” que entoa.
Enquanto isso, Marullo, Ceprano, Borsa e outros entram em cena e rindo sarcasticamente contam-lhe que raptaram a “amante” do bufão e que ela está no castelo à sua disposição.
O Duque esquece a tristeza e sem conseguir disfarçar a sua alegria, vai imediatamente ao encontro da jovem.
Para os cortesões que foram ultrajados e tripudiados por Rigoletto, agora é o momento da doce vingança. Chegou a sua vez de experimentar o gosto amargo da humilhação, do ciúme, da dor e da impotência.
Mas enquanto eles saboreiam esse “delicioso prato frio”, eis que Rigoletto se junta a eles. Há um silencio constrangedor e o bufão busca aparentar despreocupação, pois, primeiro, quer ter a certeza de que a sua amada filha está no castelo.
Nisso, um pajem chega à procura do duque dizendo que a duquesa quer vê-lo naquele mesmo instante. Porém, a sua insistência em nada resulta, já que os áulicos vassalos, entre risos maliciosos e irônicos, despacham-no dizendo que: “no momento o duque não pode parar o que está fazendo”.
O tom de voz empregado e a maldade embutida naquela resposta apunhalam o coração paterno de Rigoletto, pois, então, ele passa a ter certeza de que a sua querida Gilda está sendo abusada pelo pervertido nobre.
Contudo, ainda que lhe tenha causado tanta dor, aquelas palavras também confirmaram a presença de sua filha em um local que lhe é acessível e que isso pode lhe dar a chance de salvá-la.
Desesperado, corre até o aposento onde presume que ela esteja, enquanto entoa a belíssima ária “Cortigiani, vil, razza dannata!”. Em seguida, volta e brada todo o seu ódio perguntando aos “áulicos bajuladores” a que preço eles venderam a honra de sua filha?
- Como? Filha? Sua filha?
O espanto é geral.
- Mas Gilda não era a sua amante?
Então, Rigoletto troca a fúria pela súplica e implora que eles a devolvam. Com isso conquista a imediata compaixão de todos, haja vista que para eles é bem diferente o amor por uma filha, que o amor que se sente por uma amante. Há até certo remorso entre os raptores e os que os ajudaram.
Nisso, Gilda aparece e se abraça ao pai, que, então, suspira aliviado. Sente-se como quem voltou a enxergar alguma luz em meio a mais completa escuridão. E se permite rir, um riso bem diferente do que dava ao praticar as suas infâmias diárias.
Gilda, todavia, não acompanha a felicidade do pai. Ao contrário, tem os olhos marejados e uma grande tristeza no semblante.
Rigoletto percebe o estado da filha e atende ao pedido da mesma para lhe falar em particular.
Os outros se afastam e através da sentida ária “Tutte le feste al tempio” ela lhe conta de sua paixão pelo “estudante pobre” Gualtier Maldé, que a tornou mulher, e que acabou de saber é o duque de Mântua,
Nesse instante, sob escolta, passa por eles o conde Monterone, cuja filha também fora abusada pelo duque, que aponta para o retrato do Senhor de Mântua e diz lamentar que aquele crápula continuasse vivo e feliz, a despeito da maldição que ele lhe rogou.
Agora Rigoletto pôde compreender toda a dor do velho nobre e ao invés de tripudiar sobre ele, como fez no primeiro ato, solidariza-se com o seu desejo de vingança.
E tão intensa se mostra a sua ira e tão firme a sua disposição, que Gilda passa a temer pelo Duque e a implorar ao pai que não lhe faça mal, pois, apesar de tudo, ele é o homem que ela ama.
Mas Rigoletto sequer lhe escuta e o seu discurso exprime a obsessão que lhe vai à alma: “Vendetta, tremenda vendetta!”.
É o fim do segundo ato.

§§§

O terceiro ato começa sendo encenado na reprodução de uma pobre estalagem situada às margens do rio Míncio. A baixa iluminação da cena indica ser noite.
Sentado em uma mesa está o facínora Sparafucile. A caminho da mesma estão Gilda e Rigoletto, que pretende mostrar-lhe o quão volúvel é o seu amado.
Logo depois, nos jardins da hospedaria veem-no chegando com um fardamento militar de baixa patente. Ali veio para ter um encontro amoroso com Maddalena, a irmã do assassino Sparafucile.
Seus modos são arrogantes, presunçosos e enquanto aguarda a mulher, entoa a ária que se tornou uma das mais conhecidas em todo mundo, “La Donna é Móbile*”, cuja temática é a suposta volubilidade do gênero feminino.
Em verdade, volúvel e pervertido é ele mesmo, mas a sociedade machista da época (será diferente hoje?) não lhe debitava a mesma culpa que às mulheres mais ativas.
Ao fim da ária Maddalena desce de seu quarto para o encontro e, nisso, o seu mano, Sparafucile vai ao jardim para confirmar com Rigoletto a ordem para matar o duque e receber o seu pagamento.
Nesse momento inicia-se outro belíssimo momento musical com um belo Quarteto, no qual o Duque entoa “Bella Figlia Dell´Amore” para cortejar a nova conquista; Rigoletto demonstra para a filha o péssimo caráter de seu amado e ela canta a sua mágoa e decepção; enquanto Maddalena pede que o irmão poupe o duque, já que ele lhe interessa, e mate em seu lugar o primeiro hóspede que chegar à estalagem após a meia-noite, entregando o cadáver, envolto em grossas mantas, ao bufão, que de nada desconfiará.
Pouco depois, Rigoletto e Gilda preparam-se para partir, mas, alegando outros pretextos, Gilda não volta para a casa e camuflada retorna à estalagem, pois desconfia do risco que o Duque corre. E, de fato, tão logo chega ouve o que os irmãos facínoras estão tramando e decide sacrificar-se em prol de seu amor.
Assim, pouco antes da meia-noite e da tempestade aumentar, bate à porta do hotel e solicita hospedagem. Então, sem vacilar, Sparafucile a mata instantaneamente.
Momentos depois, a tempestade cessa e Rigoletto volta à hospedaria para cobrar o corpo do morto. Sparafucile entrega-lhe um defunto rigidamente embrulhado e o bufão, eufórico, celebra a concretização de sua vingança.
Uma tétrica comemoração que se prolonga até que ele sente ter chegado o momento de se desfazer do corpo, jogando-o no rio.
Célere, caminha em direção ao local apropriado, mas, então, ouve ao longe a voz do odiado Duque. Apurando o ouvido, torna a escutá-lo, mas ainda quer acreditar que é apenas a sua imaginação pregando-lhe uma peça. Porém, uma terceira vez, aumenta-lhe a suspeita que já se insinuara em seu peito e sem poder resistir por mais tempo, abre a mortalha e vê horrorizado que em vez do detestado Senhor, é a sua adorada filha, Gilda, que ali está agonizando, prestes a exalar o último suspiro.
Fora de si, insano de dor e de desespero, ele tenta salvá-la, mas os seus esforços são inúteis, pois a pouca vida que resta à jovem ela usa para lhe suplicar que perdoe o seu amado duque de Mântua.
E quando ela fecha os olhos para sempre, só lhe resta bradar lamentosamente: “Ah! La Maledizione...”.
É o fim da Ópera.

Histórico

Para escrever “Rigoletto”, o libretista Francesco Piave baseou-se numa obra do grande escritor francês Victor Hugo, intitulada de “O Rei se diverte”.
Obra, aliás, que não foi criada apenas pela prodigiosa imaginação do mestre francês, tratando-se, em verdade, de uma ácida crítica aos depravados hábitos de nobres e, especialmente, do monarca austríaco Francisco I e do bufão de sua corte, Triboulet, dono de uma personalidade complexa, na qual convivia a crueldade, a devassidão e, paradoxalmente, alguns sentimentos mais elevados.
Porém, quando a Ópera foi composta, a Itália estava sob o domínio austríaco e os censores de Viena proibiram que um representante de sua Casa Real fosse reratado com aqueles atributos negativos.
Sem se abalarem, Verdi e Piave fizeram as alterações necessárias, passando a chamar a sofrida Blanchet de Gilda, o rei Francisco de Duque de Mântua e Triboulet de Rigoletto.
Com isso, a Ópera foi liberada e desde a sua estreia o êxito foi absoluto. Para vários Críticos e diletantes é a mais perfeita expressão da “Grande Arte”.
Nota do Autor – para muitos Críticos essa ária é a que melhor representa o gênero operístico; e graças à interpretação de grandes cantores, especialmente o Tenor italiano Pavarotti, ela atingiu a máxima repercussão junto ao grande público: “A mulher é volúvel qual pluma ao vento, transforma a fala e o pensamento: o rosto sempre amável e gracioso – esteja em lágrimas ou riso – é mentiroso...”.


São Paulo, 04 de agosto de 2015.

Produção e divulgação de Vera Lucia M.Teragosa
Lettré, l´art et la Culture. Rio de Janeiro, inverno de 2015.