sábado, 16 de agosto de 2014

Pobres velhos... Tristes tempos (revisado)



Ainda bem que ela é “limpinha”...  Tétrico, trágico e horrível minha querida Marlene, porém, o horror não para por aí. Além de ‘limpinha’ ou de ‘limpinho’ é preciso que se idiotize e, por consequência, torne-se um arremedo grotesco de jovem “sarado”. Este é um tempo estranho... Tempo estranho, em que tornamos velhas garotas-modelos de 14, 15 anos; imprestáveis ou inúteis os normais (?) de 40 anos e lépidas crianças os maiores de 65 anos. Estranho tempo, em que o “politicamente correto” disfarça os conceitos, oculta os preconceitos e cria neologismos: velho (a) tornou-se cidadão (a) da 3ª (ops) da “melhor idade”.

E, além de estranho, também é um tempo cruel. O “dolce fair nient” dos “felizes” membros da “melhor idade” não consome, não compra perdulariamente e, então, nada mais “justo e natural” que acabar com essa vagabundagem improdutiva. Ora... Onde já se viu?! Pois se o “bom e nobre” Consumismo capitalista apossou-se do próprio “Che” (se hay um gobierno, jo soy contra; e eu, esperrrrto, lucro com a venda de boinas, camisetas e broches para os novos revoltados), por que teria escrúpulos em não mirar noutros segmentos “oprimidos”? Imagine! Abata-se a próxima vitima!

E foi assim, subliminarmente ou não, que aos velhos (as) foi negado o sagrado e conquistado direito de nada fazer; ou melhor, de só fazer aquilo que desejasse. Decidiu-se, que ele (a) tinha que ser “ativo, atuante, alegre e ‘uma gracinha, precisa ver’” para que fosse aceito pela sociedade. Afinal, o direito de não fazer nada, não gera negócios nem vendas (ops! prospecção de negócios e realização de transações [off course]).

Sim senhor (a)! Seja ativo (a) e compre viagens, roupas para os bailes da 3ª (ops) “melhor idade”, malhas para a ginástica e todos os outros penduricalhos que lhe prometem mais do que um retorno à juventude. Prometem-lhe que seus filhos e suas filhas, seus genros e suas noras; e, paralelamente, seus netos e netas os aceitarão em seu convívio.

Sim senhor (a)! Seja ativo (a), se não, já sabe: “pagará” trinta abdominais. E se continuar a ter artrite, saudades e vontade de ficar em silêncio irá, sim, para o Asilo (ops) “Casa de Repouso”, pois todo mundo sabe que estou estressada, que não tenho tempo, e a nível de pessoa (sic) e enquanto alguma coisa (sic) só posso oferecer-lhe “ajuda profissional” que reedificará a nossa relação afetiva.

Ou seja, eu pagarei para que assalariados ou profissionais liberais obriguem-no a perder a individualidade e a se comportar como os outros, enquanto me oferecem tempo livre e certa consideração da sociedade.

Tempo estranho é este. A medicina nos prolonga a vida, mas, o desenrolar da natureza tornou-se insuportável. Todavia, somos esperrrtos e a enganamos. Ou melhor, enganamo-nos. E tome eufemismo: não, não diga velho, fale idoso. Não, não, não é velhice, é a 3ª (ops) “melhor idade”.

E assim é.

Mas, não! Não, meu caro (a) velho (a), os nossos cabelos brancos não podem estar à venda. Mesmo que vociferem as vozes dos publicitários. Nossos cabelos brancos não são “folhas em branco” onde eles podem desenhar tristes caricaturas. Somos mais que consumidores. Somos mais que fantoches manipulados pelos fios desse mundo egocêntrico, visual e superficial. Somos mais que animais bem treinados (cante, dance, pule, morra) que ganham um biscoito e alguma consideração como recompensa.

Acredite meu velho (a), que os nossos cabelos brancos são marcas de que tivemos um passado, onde, acreditem ou não os publicitários, geriatras, psicólogos, familiares e agregados; existiu uma juventude que nos saciou. Existiu uma juventude original, real e verdadeira. E porque foi tão linda, vivemos com ela até hoje. Baú, que guarda os nossos tantos acertos e os poucos erros; nossas lembranças, nossa saudade (lembra quando o filho se jogou na piscina na certeza de que você (eu?) estaria lá? Ou do câncer impróprio que lhe deu medo de não conseguir criá-lo?). Quanta saudade doce...

Permita-se o passado. Não são apenas os museólogos ou professores de história que dele vivem. Somos todos nós, pois se o futuro é incerto, apenas no pretérito é que temos uma aquisição definitiva. Não queira ser “jovem de espírito” porque a essência não se divide em faixas etárias e sempre será maior, muito mais, que qualquer aparência.

Acredite meu velho (a), que além dos cabelos brancos temos muito mais na cabeça. Temos a dignidade de sermos de um tempo em que havia ideologias e, principalmente, ideias. A dignidade de sermos donos e titulares do nosso comportamento. Tempo em que publicidade chamava-se simplesmente ‘reclame’ e por ser simples assim contentava-se em anunciar um produto e nem de longe tinha a petulância atual de ditar o nosso modo de ser. Somos de um tempo em que os ciclos da natureza eram aceitos. Tempo em que criança brincava, o (a) jovem dançava e namorava e os (as) velhos (as) tornavam a sentir esses mesmos prazeres quando bem quisessem, sem a ameaça das “trinta abdominais” e da “Casa de Repouso”. Sabíamos sentir esses prazeres, nos corpos daqueles a quem amávamos.

Somos parceiros da metade do século passado e muito mais que simples massa de consumo. Somos pessoas e isso deve (ou deveria) bastar para sermos aceitos sem que os padrões de modas, tão passageiras, obriguem-nos ao triste espetáculo de figuras deslocadas no espaço e no tempo.

Somos pessoas com cabelos brancos. Transparentes, pois conquistamos o direito à verdade. O direito de desejar a felicidade alheia e não só a própria. Conquistamos o déjà vu e a certeza do “eterno retorno” (mais de Nietzsche e menos de Schopenhauer) e, principalmente, o direito, amigo (a), de dizer: NÃO!

Dedicado a todos os homens e mulheres que são obrigados a mimetizarem comportamentos para serem considerados normais.

Produção e divulgação de Pat Tavares, lettré, l´art et la culture, assessora de Comunicação Social e Imprensa. Rio de Janeiro, inverno de 2014.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Spinoza e o Panteísmo - Parte X - Matéria e Mente

Teve razão o filósofo Malebranche ao afirmar que o processo Mental e o processo Cerebral não se relacionam entre si, que são independentes e apenas de maneira providencial é que se tornam paralelos?
Será que a Mente é material? Será o corpo apenas uma ideia?
O processo Mental será a Causa, o motivo do processo Cerebral? Ou será o Efeito, o resultado, do mesmo?
Essas questões permeiam varia tendências filosóficas* e teológicas, sem que haja qualquer definição conclusiva sobre as mesmas, restando-nos examinar todas elas, enquanto se saboreia essa amplidão de opções, já que está no exercício da investigação a oportunidade de se transcender o mundo pequeno das certezas menores.
Para Spinoza, a Mente não é material, tampouco a Matéria é mental. Em consequência, o processo cerebral não é a causa nem o efeito do processo mental. Para ele, ambos não podem ser independentes ou dependentes; paralelos ou não; pelo simples motivo de que, na verdade, são apenas um.
Fiel à tese Unicista, para o filósofo, não existem duas entidades ou dois processos. Existe apenas um, o qual, por vezes aparece como pensamento e às vezes como movimento. Apenas uma entidade, ora vista internamente como mente e ora vista externamente como matéria. E justamente porque formam uma Unidade, a Mente e o Corpo não atuam um sobre o outro. Em suas palavras:

“O corpo não pode determinar que a Mente pensa; nem a Mente determinar que o corpo fique em movimento, em repouso ou sem qualquer outro estado (pela simples razão de que) a decisão da Mente e o desejo e a determinação do Corpo são uma única coisa”.

E da mesma forma que acontece em determinado processo, o mesmo se dá em todos. O mundo é unificadamente duplo. Pode-se dizer que todo “processo externo, material”, não passa de outro aspecto do “processo interno”. Que seja a sua “cópia”.
O processo “interno e mental” correlaciona-se essencialmente com o “externo e material”, pois a Substância Pensante e a Substância Ampliada (a extensão, a matéria) são exatamente a mesma coisa, mudando, apenas, em diferentes momentos, a maneira como “essa coisa única” se apresenta; ou seja, às vezes com a sua faceta mental e interna e, noutras, com o seu aspecto material e externo.
A esse respeito, Spinoza retorna à sua antiga formação judaica e diz que:

“Certos judeus parecem ter percebido isso, embora de forma confusa, porque diziam que Deus e seu intelecto e as coisas concebidas pelo seu intelecto, eram exatamente a mesma coisa”.

Para ele, se o conceito “Mente” for considerado em seu mais amplo sentido e com isso passar a designar todas as ramificações do sistema nervoso, ver-se-á que toda alteração no corpo físico tem uma idêntica correspondência na Mente, pois, assim como o pensamento e os outros processos mentais (memória, imaginação etc.) estão organizadamente ligados na Mente; as modificações do corpo físico e as alterações das outras coisas materiais que afetam o corpo através das sensações, também estão.

Conclui-se, portanto, que nada acontece ao corpo que não seja percebido pela Mente (mesmo que seja de forma irracional, intuitiva) e que a emoção que for sentida faz parte de um “todo”, do qual as alterações fisiológicas constituem o seu aspecto externo, perceptível. Até as infinitesimais sutilezas de uma reflexão matemática, tem o seu correspondente material*.
Spinoza, para contra-argumentar a concepção cartesiana de que há uma separação entre Corpo e Mente, buscou reduzir a questão a uma mera diferença presumida entre o intelecto (o cérebro racional) e a vontade (instintiva); já que, para ele, inexistem, enquanto entidades separadas, as chamadas “faculdades mentais (raciocínio, memória, imaginação etc.)”, o “intelecto” e a “vontade”.
Em sua concepção, a Mente não é um “depósito” onde se guarda e onde se lida com as ideias, pois, na verdade, são as próprias ideias concatenadas que a formam.
Prosseguindo, ele afirma que o “intelecto” é apenas um nome, um título, que indica uma série de noções, concepções, ideias; enquanto que a “vontade” é apenas uma denominação dada a um conjunto de ações e volições.
Dessa sorte, ele reafirma que o “intelecto” e a “vontade” são exatamente a mesma coisa, porque uma volição (a decisão de se fazer algo) é apenas uma ideia que devido à riqueza de associações, demorou-se o suficiente na consciência para passar à ação. Afinal, toda ideia se torna uma ação se não for impedida, durante a transição, por uma ideia oposta. A ideia é o primeiro estágio de qualquer processo orgânico unificado; e a ação é o seu resultado.
Por outro lado, aquilo que normalmente é chamado de “vontade” e que dispara o impulso para se agir, seria mais apropriado se fosse chamado de “desejo”, pois, a rigor, ela é um instinto de que temos consciência, ao contrário dos outros que existem, sem que deles tenhamos conhecimento racional, como, por exemplo, “desejo de autopreservação” ou de “sobrevivência” que Spinoza afirma subjazer a todas as atividades dos Seres vivos. Em seus termos:

“Tudo, desde que esteja em si mesmo, esforça-se por persistir em seu próprio Ser; e os esforços com os quais uma coisa procura persistir sem seu próprio Ser nada mais são do que a verdadeira essência** dessa coisa”.

E porque a função dos instintos é de capital importância, a satisfação ou a frustração de um deles é o que causa a dor ou o prazer. O homem não deseja alguma coisa porque ela lhe dará prazer, pois o que lhe dará o real prazer é o fato de ele ter satisfeito o seu Amo e Senhor: o desejo. O homem deseja as coisas porque os Instintos – disfarçados de desejos – obrigam-no a desejá-las.
E sendo desse modo, segundo o ideário spinoziano, não existe um verdadeiro “livre-arbítrio”, já que a imperiosa necessidade de sobreviver, determinada pelo Instinto, é que rege o “desejar humano”, que, por sua vez, governa todo pensamento e ação do homem. Inexiste na Mente a “vontade humana” absoluta e livre, haja vista que ao se desejar qualquer coisa, a Mente opera sob o comando de uma série de “Causas” que lhe são superiores. A esse respeito, aliás, tornou-se lapidar a sentença exarada pelo filósofo:

“Uma pedra lançada no ar ignora porque voa e passa a acreditar que é ela quem comanda o seu voo”.

Considerando-se, portanto, que não há um efetivo “livre-arbítrio” e que as formas de vida obedecem a um Determinismo*** inexorável, para Spinoza, nada mais apropriado do que se estudar as questões éticas e morais da mesma maneira que estudam a matemática e a geometria. Em suas palavras:

“Vou escrever sobre Seres humanos como se estivesse preocupado com linhas, planos e sólidos. (...) Esforcei-me para não ridicularizar, lamentar ou execrar, mas para compreender as ações humanas; e com essa finalidade, considerei as paixões (...) não como vícios da natureza humana, mas como propriedades tão pertinentes a ela quanto o calor, o frio, a tempestade, o trovão e semelhantes são pertinentes à natureza da atmosfera”.

É, pois, essa abordagem despida de julgamentos hipócritas que fez a “Ética Geométrica” ser considerada superior a qualquer outra semelhante e deu a Spinoza a celebridade por ter captado e descrito a natureza humana em sua totalidade.
No capítulo seguinte, abordaremos a questão da Inteligência e da Moral.

Nota do Autor* – Os adeptos do Behaviorismo, por exemplo, propuseram detectar os pensamentos de um indivíduo, gravando as vibrações ocorridas nas suas cordas vocais.

Nota do Autor** - o leitor não deixará de perceber que essa colocação spinoziana é a base para os posteriores sistemas de Schopenhauer e de Nietzsche.

Nota do Autor*** o Determinismo sofre grande rejeição em quase todas as camadas intelectuais, pois ao homem é cara e preciosa a ilusão de que comanda o próprio pensar e agir. Porém, paradoxalmente, esse mesmo homem não titubeia em se mostrar servil e submisso a um hipotético Ser Supremo, servindo essa obediência até motivo de engrandecimento social e de justificativa para as carnificinas religiosas. Essa quimera humana, na verdade, não passa de um artifício que a natureza lhe impõe para disfarçar seus próprios instintos, deixando-lhe a ilusão de reger seu próprio destino, enquanto rejeita a autodestruição.

Produção e divulgação de Pat Tavares, lettré, l´art et la culture, assessoria de Imprensa e de Comunicação com o Público. Rio de Janeiro, inverno de 2014.

As Histórias


Contava Sherazade
as histórias que eram mil.
E porque era intermináveis
em cada qual, uma nova Lua
substituía a que fora levada
pelo gênio do desamor.
E porque eram lendas
e eram lindas,
as mil histórias contavam
do brilho que há
em cada sorriso
que de ti voa.
E porque eram histórias de noites,
nelas se sonhava com mil rapsódias
e com o brilho que reflete
a luz de tuas estrelas.
E porque eram história de amor,
O que Sherazade contava
era a vida ressurgida,
após cada lágrima caída.

Para a moça de Botafogo.

Produção e divulgação de Pat Tavares, lettré, l´art et la culture, assessora de Comunicação Social e de Imprensa. Rio de Janeiro, inverno de 2014.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Spinoza e o Panteísmo - Parte IX - A Natureza e Deus




A Natureza e Deus

Antes de tudo, será oportuno relembrar o significado dos seguintes conceitos:

  1. Natura Naturan – o processo ativo, o elã vital, as Leis naturais.
  2. Natura Naturata – a natureza material, os rios, as montanhas, os animais, os vegetais, os homens, os ventos etc.
Graças ao prestigio de Spinoza, mesmo os leigos em Filosofia conhecem a tese básica de seu Sistema que diz: “Deus e a Natureza são a mesma coisa”.
Porém, ao contrário das análises equivocadas de alguns pseudos eruditos, a identificação a que o filósofo se refere acontece entre o divino e natura naturan; e não entre Ele o segundo tópico acima.
São idênticos, portanto, Deus e o processo ativo, o processo criativo, o elã vital, as Leis naturais. E porque o “divino” é o mesmo que aquilo que está além do concreto e da física, logo no inicio da obra, Spinoza adentra no aspecto metafísico da questão.
Afinal, sendo a Metafísica, nas palavras de Willian James: “o esforço de pensar com clareza até o significado final das coisas, descobrir a sua essência substancial no plano da realidade”, nada mais apropriado que utilizar essa ferramenta para se investigar a “Verdade” e atingir a mais elevada de todas as generalizações. Seguindo, então, essa trilha, Spinoza alicerçou a sua tese em três conceitos chaves:

  1. Substância
  2. Modo
  3. Atributo
Sendo o Atributo, qualquer coisa ou acontecimento individual, pessoal, subjetivo. Qualquer forma ou formato que a Realidade assuma provisoriamente (um corpo, um pensamento, um planeta, uma ave, um espécie, um homem etc.). Todos eles são formatos ou “Modos” transitórios de uma Realidade eterna e imutável que está por “de trás” e “por baixo” dos mesmos. A “Realidade subjacente” a tudo, que para Spinoza, é a Substância* (ou Essência), colocada no topo da lista acima.
Três conceitos que ao se juntarem constituem o “UNO”, já que a natureza é constituída pela natura naturan (o processo ativo, criativo e vital) e naturata (o processo passivo, a matéria, a natureza criada, os rios, as montanhas, os animais, o homem etc.). Contudo, apesar dessa Unicidade, vale repetir que para Spinoza, Deus identifica-se apenas com a Essência, com o aspecto naturan, pois a igualdade entre o divino e a substância não poderia estar associada às meras cópias que estão no reino da natura naturata.
Todavia, como se falou algures, apesar dessa evidência, o equívoco de igualar Deus com reles fenômenos perceptíveis prosperou nas religiões do Ocidente de forma majoritária, principalmente porque interessava aos diversos cleros usar o Fabuloso, o Fantástico, o Miraculoso para exercer sua nefasta influência e o seu sórdido poder sobre as massas ignorantes.
Nas palavras do filósofo, em Epístola 21:

“Tenho uma concepção de Deus e da natureza totalmente diferente da que costumam ter os cristãos mais recentes, pois afirmo que Deus é a causa imanente, e não externa, de todas as coisas. Eu digo: tudo está e Deus; tudo vive e se movimenta em Deus. E isso eu afirmo com o apóstolo Paulo e, talvez, com todos os Filósofos da antiguidade, embora de maneira diversa da deles. Posso, até, arriscar-me a dizer que a minha concepção é a mesma que a dos hebreus de antigamente, se isso puder ser inferido de certas tradições, por muitíssimo alteradas ou falsificadas que possam ter sido. Contudo, estão totalmente enganados aqueles que dizem que meu propósito (...) é mostrar que Deus e a natureza, esta entendida por eles como uma certa massa de matéria corpórea, são uma e a mesma coisa. Eu não tive essa intenção”.

O universo concreto, o dos “modos”, está para Deus assim como uma ponte está para o projeto (para as Leis da matemática, da física e da mecânica), segundo o qual, ela foi construída. As Leis que a projetaram são a base de sua sustentação, a condição subjacente de sua existência. A sua Substância ou Essência. E tal como essa ponte, o mundo dos fenômenos é sustentado pelas Leis da Natureza, as quais, em última análise, são Deus. E como a “Vontade” de Deus e as Leis da Natureza são uma só realidade, fica evidente que todos os eventos são regidos pelo funcionamento mecânico dessas “Leis Invariáveis”, não sendo, em absoluto, caprichos de um Tirano sentado em seu trono de nuvens. O mecanismo que Descartes enxergou na matéria e no corpo físico, Spinoza ampliou para Deus e Mente (ou alma), reafirmando a tese de que o Universo é regido pelo Determinismo e não pelos desígnios arbitrários de um “Soberano do Mundo”, criado pela rude imaginação das massas e manipulado pelos seus exploradores.
Ademais, a ilusão antropocêntrica que leva o homem a imaginar todas as coisas e eventos como símiles ao seu viver, talvez seja a causa dos maiores e mais contumazes erros filosóficos e teológicos, pois ao reduzir às suas mesquinhas dimensões a grandiosidade da “existência em si”, o homem torna-se prisioneiro de conceitos, que embora sejam apenas relativos, causam-lhe profundas angústias.
É o caso, por exemplo, do Bom e do Mau, que normalmente são correlacionados a prêmios ou castigos divinos. Sobre isso, escreveu Spinoza no prefácio da “Ética”:

“Sempre, então, que qualquer coisa na natureza nos parecer ridícula, absurda ou nociva será porque temos apenas um conhecimento parcial das coisas e ignoramos, em geral, a ordem e a coerência da natureza como um todo, e porque queremos que tudo seja arranjado de acordo co os ditames de nossa própria razão; embora, na verdade, o que a nossa razão considere mau** não seja mau no que se refere à ordem e às Leis da natureza universal, mas só no que se refere às Leis de nossa natureza tomadas em separado. (...) Quanto aos termos bom e mau, nada indicam de positivo considerados em si mesmos. (...) Porque uma única coisa pode ser ao mesmo tempo boa, má e indiferente. Por exemplo, a música é boa para os melancólicos, má para as carpideiras e indiferente para os mortos”.

Mau e Bom; Feio e Belo etc. são conceitos que inexistem para a “Realidade Eterna”. São, na verdade, conceitos subjetivos, individuais, pessoais, sem nada que os sustente como essências. E essa constatação auxilia a escorar a negativa que Spinoza coloca contra a tese de que o “divino” seja um “Ser”, ainda que “Supremo”.
Negação, aliás, que não lhe é original, haja vista que as antigas filosofias já a traziam, como acontece, por exemplo, com o ideário do pré-socrático Xenófanes, em que o holandês se inspirou para argumentar na “Epistola 60” que:

“Quando dizeis que se eu não reconheço em Deus as funções de ver, ouvir, observar, desejar, e semelhantes (...), não sabeis de que tipo é o meu Deus, penso que acreditais não existir perfeição maior do que aquela que possa ser explicada pelos atributos citados. Isso não me admira; porque creio que um triângulo, se pudesse falar, diria igualmente que Deus é eminentemente triangular, e um círculo, que a natureza divina é eminentemente circular; e assim, cada qual iria imputar seus atributos a Deus”.

Desse modo, será possível observar que nem o intelecto nem a vontade humana estão inseridos na “natureza divina”; ou seja, não “estão” em Deus; já que a “Vontade de Deus” abarca todas as Causas e todas as Leis e o Seu intelecto é a soma de todas as mentes. A mente divina, segundo o filósofo, “é toda a mentalidade que se encontra espalhada pelo Espaço e pelo Tempo. (É) a difusa consciência que anima o mundo”.
E, de fato, todas as coisas são animadas em algum grau. A Vida ou Mente é uma face ou um aspecto de tudo aquilo que conhecemos, assim como a extensão (a matéria) é outra face ou aspecto. E são por essas duas faces, ou Atributos, mente e corpo, que percebemos como funciona a Substância ou Essência de tudo; ou seja, Deus.
Aliás, talvez, por esse prisma, seja possível dizer que Deus “possua” mente e corpo, mas é imperioso que se tenha em mente o sentido figurado da afirmativa, pois nem a mente, tampouco o corpo são Deus, haja vista que Ele é o conjunto de todos os processos mentais e moleculares que formam a dupla história do mundo. Ele é o conjunto das Causas e das Leis que constituem, as quais constituem, efetivamente, a “natureza divina”.
Na sequência adentraremos mais detalhadamente sobre essas faces da Realidade única.

Nota do Autor* - o termo “Substância” ensejou acaloradas discussões entre vários sábios durante o transcorrer do tempo. Cada qual se aferrando ao significado que julgava mais exato, sem que se lograsse qualquer consenso. Spinoza, porém, conseguiu sepultar algumas dessas versões equivocadas, como a que afirmava que Substância seria a matéria prima de qualquer objeto (como se a madeira fosse a Substância da cadeira, por exemplo), entre outras. Graças a ele, desde a citação em “Progresso do Intelecto” sob os nomes de “Ordem Eterna” e “Ordem Temporal”, a maioria se convenceu de que o significado mais correto para o conceito é o que diz que Substância é “algo” mais elevado, sublime, já que nela está a “Realidade última” de tudo. Com isso, o significado oriundo dos Filósofos Escolásticos – expresso pela tradução da palavra grega “ousia” (particípio presente de “einai (ser)”) indica o “Ser interior”, a “Essência”, a “Existência efetiva*” de algo – passou a prevalecer e se estabeleceu que a Essência (ou Substância) é a forma (ou a fôrma) imutável, eterna, da qual provém todo o resto. Coisas, objetos, pensamentos e Seres que, a rigor, não passam de simples cópias ou “modos” provisórios, alteráveis, finitos.

Nota do Autor – mau**, respeitada a grafia original.

Produção e divulgação de Pat Tavares, lettré, l´art et la culture, assessoria de Imprensa e de Comunicação com o Público. Rio de Janeiro, inverno de 2014.

domingo, 10 de agosto de 2014

Os Pais


Ser pai é coisa que não se aprende,
pois a mágica da criação, logo se compreende.
De repente, tornamo-nos sábios
e viajamos sem bússolas nem astrolábios.
Povoamos Olimpos particulares,
e às crias devotamo-nos
como aos deuses tutelares.
E ainda que frágeis,
protegemos como Titãs dos Sete Mares,
aqueles que se fazem os nossos pilares.
É o filho. É a filha. As doces sensações
de se ter uma trilha.

E tantos são os Pais....

Há o pai do filho doente, para quem
(e só para ele) deve haver um tratamento urgente.
O pai do filho que morreu
e que carrega a dor sem tamanho.
O pai da filha a quem nunca embalou,
mas a quem sempre amou (beijo, doce Cecilia).
O pai do filho drogado. O pai do filho preso,
a quem visita aos Domingos e satisfaz qualquer desejo.
O pai de pouco, ou nenhum, dinheiro
e que, ainda assim, sonha deixar o mundo
ao ilustre herdeiro.
O pai, em algum lugar esquecido
e que guarda um pedaço do manto dividido.
Pais, pouco lembrados e talvez nem celebrados.
Pais, que por falta de ventre,
aprenderam a amar à distância.
Como eu, e a minha circunstância*.



Homenagem pouca aos pais.
Ao meu filho, Thyago, que me fez ser pai.


*Cf. Ortega y Gasset

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Spinoza e o Panteísmo - Parte VIII - Livro II - A Ética (Da Mente) - o Homem



Ética – Livro II – O Homem (Da Mente)

Neste capitulo, Spinoza traça as suas considerações sobre o “espírito humano”, sobre o homem integral, constituído pelo corpo e pela alma. Corpo e Alma que, como já se disse, não interagem diretamente, mas que sofrem em paralelo os efeitos das Leis que lhes dirigem e/ou das vicissitudes que lhes sucedem. A cada alteração no estado da alma, corresponde uma mudança no estado do corpo, ditado pelo paralelismo psicofísico que o filósofo adota como uma viga de seu arcabouço.
Para ele, o homem não é uma Essência ou Substancia, sendo a Alma apenas um conjunto de modos derivados provenientes do “Atributo (divino) Pensamento”; enquanto que o Corpo é um conjunto de modos derivados do “Atributo Extensão* (ou matéria)” de Deus.
A única Substância ou Essência que existe efetivamente é, portanto, a divindade. Essa conclusão spinoziana, na verdade, é um resgate da ideologia de Platão, pois, em resumo, para ele, a Mente e o Corpo do homem são meras “cópias” da Ideia Deus.
Contudo, embora afirme que a Mente não passe de um simples simulacro, Spinoza admite que ela tenha algumas atividades importantes tanto no campo prático, quanto no teorético (ideias, teorias, imaginações etc.), principalmente no tocante a aquisição de conhecimentos, saber.
E na questão do Conhecimento, Spinoza antecipa-se a Kant e afirma que o “Conhecimento Sensível (imaginatio)” é inteiramente subjetivo, pessoal, já que é incapaz de representar “a coisa em si mesma”, limitando-se a fornecer os dados que permitem ao indivíduo formar uma ideia, uma concepção, sobre aquilo que conheceu. Uma simples representação (mental) em que se fundem as características ou propriedades do objeto (a cor, a forma, o peso etc.) com as disposições mentais do sujeito.
Já em relação ao “Conhecimento Racional”, Spinoza afirma a existência de dois tipos. A saber:

1)      Conhecimento Racional Universal (universal = geral, para todos).
2)      Conhecimento Racional Particular.

O segundo tipo, o “Particular”, provém diretamente da Essência ou Substância divina e abrange os infinitos “Atributos”, graças ao que dele derivam necessariamente a paz de espírito, a felicidade efetiva e a virtude. É o Saber que vem do chamado “Mundo Superior” ou “Mundo das Ideias” que está acima e além das meras aparências, das simples cópias e que por isso está isento das paixões humanas.
Porém, o Conhecimento Racional Universal provém do que foi captado sensorialmente (através da Sensibilidade**) e racionalizado pelo intelecto humano; e por conta dessa condição, dele, só deriva a escravidão imposta pelas paixões, como, posteriormente, Schopenhauer esmiuçou. É um tipo de Saber que se origina naquilo que está ao alcance de “todos” e, justamente por isso, voltado para o mundo dos fenômenos; ou seja, das coisas aparentes, superficiais.
Ademais, voltando a se utilizar da noção do paralelismo psicofísico, Spinoza afirma que os dois tipos de Conhecimentos não são formados pela relação direta do individuo com o objeto, mas sim pela relação entre a “mens” do indivíduo e a “mens” da coisa, o que implica reconhecer que é a qualificação dessa última (a coisa, o objeto) que define qual o tipo de Saber alcançado. Sendo assim, quando o Objeto do Conhecimento for a Substância ou a Essência ou Deus, o resultado é a plena ventura, enquanto que no caso inverso, só se pode esperar pela desventura.
No próximo tópico, veremos as considerações do filósofo sobre a Moral.

Nota do Autor* – Talvez, aliás, tenha sido essa a ideia de quem escreveu no Antigo Testamento que o homem seria feito “à imagem e semelhança de Deus”.

Nota do Autor – Sensibilidade* no sentido filosófico, ou seja, a capacidade de captar informações através dos Sentidos (tato, visão, audição, paladar e olfato). Não confundir com a significação atual que remete a certa predisposição ao sentimentalismo.

Produção e divulgação de Pat Tavares, lettre, l´art et la culture, assessora de Imprensa e de RP., do Rio de Janeiro em Junho de 2014.