quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

ALCESTE ( O egoísmo ou a falsa nobreza) - As Gregas Tragédias


EURÍPEDES – 495/406 AEC – Salamina

Cenário: a frente do palácio de Admeto, rei da cidade de Feras, nas Tessália.

Época da ação – idade da Grécia lendária

Local – cidade Feras, Tessália.

A 1ª apresentação – 438 AEC em Atenas.

Personagens:

1. Admeto, rei de “Feras”.
2. Apolo, deus
3. Coro
4. Êumelo, criança, filho de Admeto e Alceste
5. Feres, pai de Admeto.
6. Herácles, semideus e herói grego.
7. Morte, na figura de um ator vestido de preto.
8. Serva de Alceste e Servo

O sentimento preponderante nessa obra de Eurípides é o Egoísmo, embora disfarçado em sentimentos mais nobres. E sobre ele falaremos com mais intensidade que nos outros resumos para que uma crítica mais ácida possa ser feita a enredos e personagens que não primam pela virtude sincera; com isso deixa-se aberta a porta por onde o leitor pode observar realidades e sentimentos que não são exclusivos de nossa época.

Sempre estiveram com o homem e, infelizmente, sempre estarão. É a maneira “civilizada” de exercer o “instinto de sobrevivência” que noutras criaturas do reino animal é ostensivo e, talvez, mais honesto.

A história tem inicio com o deus Apolo vangloriando-se de ter enganado as Parcas (entidades que regulam a vida dos homens) e como conseguiu convencê-las a poupar Admeto quando a hora de sua morte chegasse, mas desde que ele encontrasse um substituto voluntário. Agiu Apolo por gratidão à generosa hospedagem que Admeto lhe deu quando ele foi banido do Olimpo pelo Pai Zeus, como castigo por ter matado os Ciclopes (artesões do fogo), em vingança pelo assassinato de seu filho, Asclépio, pelo próprio Zeus.

O tempo passa e Admeto busca desesperadamente o substituto que morra em seu lugar, mas nem seu próprio pai, tampouco sua própria mãe consentem em sacrificar-se pelo filho, apesar de já terem vivido uma longa vida e estarem mais próximos da morte natural que os outros consultados. Em todos, note-se, age poderosamente o egoísmo. E cada qual expõe suas razões, as quais diferem na superfície, mas são idênticas na essência. De Admeto que reluta em cumprir os desígnios do Destino até os seus pais, de quem se poderia esperar o “sacrifício extremo” para salvar o filho.

Por fim, quando todos já se recusaram, deixando às claras seu apego a si próprio, surge uma exceção: Alceste, a esposa de Admeto, que se propõe a substituí-lo por amor. Essa nobreza, contudo, não resiste a um exame mais acurado, pois não encerra nenhuma verdade. Afinal, que amor é esse que a afastará do “Ser Amado”? Se ela temia esse distanciamento na viuvez, como o aceita agora? Afinal, a “distância” é a mesma. 

Sim, pois essa ausência também estará consigo no Hades, em nada diferindo da primeira e com um agravante: se na viuvez ela perderia “apenas” o marido, ao morrer, perderá além dele os seus filhos. Como, então, classificar seu gesto extremo? Egoísmo, mas agora precedido pelo egocentrismo. Egocêntrica por desejar ser o “centro das atenções”, das lamúrias e das baixas glorificações que as almas mais humildes prestam a tal comportamento. Egoísta por não pensar sequer nos filhos, que deixará crianças, órfãs, dependentes, para atingir seu objetivo egocêntrico.

A história prossegue com a chegada de Herácles (Hércules, em latim) sendo hospedado por Admeto que nada lhe diz sobre o drama que se desenrola em seu Palácio. E Herácles aproveita sua estadia em lautos banquetes e outros prazeres.

Entrementes, a morte de Alceste se aproxima e Admeto chora descontroladamente enquanto ela se despede da vida com um discurso repleto de lamúrias, de autocomiseração, de auto glorificação, sem se esquecer de pedir a Admeto que ele não se case de novo. Entre outros exemplos, aparece novamente o seu egoísmo: ao mostrar o medo de que seu “corajoso sacrifício” perca brilho com o tempo e com as novas alegrias de outro casamento. Fica claro seu desejo de se tornar um paradigma de “amor conjugal” e de “desprendimento”.

Morta Alceste, Admeto prepara seu funeral e entra em cena seu pai, Feres. Admeto o ataca verbalmente com furor, debitando-lhe a morte da esposa, pois se ele aceitasse morrer em seu lugar, ela ainda estaria viva. Raciocínio torno, sem dúvida. Feres, revida o ataque chamando-o, entre outros contra-argumentos, de covarde, pois permitiu que a própria mulher enfrentasse a dor que era sua. Proibido de assistir ao funeral, Feres sai de cena e só não é aplaudido por ter resposto as coisas em seus devidos lugares, pela ligação, já mencionada, que as almas menos capazes experimentam com os simulacros de coragem e amor.

Na sequencia, Herácles chega à frente do palácio e após ter sido criticado pelo povo, na voz do Coro, pela sua alegre estadia na casa de tantos sofrimentos, informa-se do ocorrido e louvando Admeto pela hospitaleira acolhida mesmo enfrentando tão grave crise, sai de cena. Só regressa, pouco depois, acompanhado por uma mulher encoberta por grossas vestimentas. O rei indaga-lhe de quem se trata e o herói, após algum suspense, descobre o rosto da mulher. É, claro, Alces-te, ressurgida na vida por ter sido resgatada da morte pelo semideus. Obviamente que esse “gran finale” é festivo, pois todos estão vivos, o Destino foi ludibriado e o egoísmo poderá se perpetuar como os dias atuais comprovam.

É uma história muito bem vista pelas camadas menos instruídas, mas o mesmo não se dá com os mais cultos. Alguns eruditos chegam mesmo a descaracterizá-la como tragédia, haja vista o incomum e talvez inconveniente “final feliz”. Pode-se até perguntar: Eurípedes fez conscientemente uma crítica ao egoísmo, ou pretendeu atingir o sucesso imediato junto às massas pouco instruídas, que normalmente reagem com afoiteza à aparência das coisas?

Para muitos, inclusive para esse modesto escrevinhador, essa obra é o arquétipo, ou o modelo das atuais telenovelas, filmes, alguns livros, folhetins etc., pois as más intenções são secretas (ou desdenhadas) e todas as situações extremas são resolvidas – mesmo que impossíveis – com num passe de mágica. 

O que importa é dar um “final feliz” a quem dele necessita.


Rio, 01/02/2011



Produção e divulgação de YARA MONTENEGRO, assessora de RP, desde Ouro Preto, MG, no Verão de 2014.