terça-feira, 19 de abril de 2016

A Dialética


O filósofo Raymond Ruyer (1902-1987, França), em seu artigo “Le mythe de la raison dialectique”, anota que a palavra “Dialética” não esclarece de forma precisa, nenhuma das várias formas de pensamento que a utilizam direta ou indiretamente. E, com efeito, viajando pela história da Filosofia, vemos que esse termo foi utilizado para nomear várias concepções e/ou conceitos, sem dar a qualquer um deles, uma definição clara e definitiva.

Assim sendo, a proposta do presente Ensaio é ofertar um breve resumo histórico das utilizações que lhe foram dadas e, simultaneamente, oferecer uma panorâmica de sua utilização.
Primeiramente, exporemos as suas utilizações mais conhecidas:

1) Incompatibilidade entre dois sistemas
2) Oscilações na realidade
3) Lógica do provável
4) Lógica
5) Síntese dos opostos (tese, antítese e síntese - a sua versão mais popular, graças ao ideário de Hegel).
6) Etc.

E na sequência, voltaremos à Filosofia Grega Clássica, onde a palavra “Dialética” era diretamente vinculada ao termo e ao sentido de “diálogo”. E tal como no “diálogo”, a existência de dois elementos (logoi) era imprescindível também na “Dialética”, onde a presença de duas “razões” ou “posições” estabelecia um confronto (um diálogo), que resultava num certo “acordo no desacordo” e/ou mudanças de posicionamento, ocasionadas pelas “posições contrárias”.

Foi nesse sentido, que o filósofo pré-socrático Parmênides usou a “Arte da Dialética” para provar que “tudo que é (em essência) não muda, pois se mudasse, transformar-se-ia em outro (em outra coisa)”. Usou-a, também, para provar que “o que é” é “um”, já que se fosse, por exemplo, “dois”, haveria uma separação entre ambos e tal separação não seria uma “Realidade (algo verdadeiro)", mas apenas um “não ser”.

A Dialética de Parmênides pode ser classificada como “Formal”, haja vista estar baseada num modelo formal de argumentação acerca das proposições. Posteriormente, muitos dos argumentos exarados por Sócrates e compilados por Platão nos célebres “Diálogos”, utilizaram a mesma sistemática de Dialética Formal, mas de modo mais atenuado que o de Parmênides ou a de Zenão de Eleia. Passou-se, então, para uma Dialética menos rigorosa ou formal, porém mais completa.

Aliás, para alguns eruditos, é até uma forma diferente de Dialética, que se divide em dois formatos distintos, a saber:
Nos Diálogos “Fédon”, “Fedro” e “A República (em partes)”, vislumbra-se um dos formatos, já que a Dialética foi usada como método de elevação do sensível ao inteligível; ou seja, a elevação daquilo que é apenas “sentido”, para aquilo que pode ser “racionalizado”. Para tanto, Platão usou duas operações, a “Divisão” e a “Composição”, o que permitiu a passagem da “multiplicidade (afinal, são vários canais capazes de captar as sensações)” para a unidade (vez que a Razão é única). Noutros Diálogos, como “Parmênides”, “O Sofista” e “Filebo”, a Arte da Dialética é usada como um método de dedução racional das formas; isto é, a separação das Ideais entre si, com o cuidado de não confundi-las.

Em Platão, como se pôde depreender, a Dialética nunca foi um mero sistema de Raciocínio Formal e, justamente por isso, ele não hesitou em fazer da mesma o elemento mais precioso no treinamento de seus alunos, os candidatos a Filósofos (no sentido original do termo: amigos do saber. Não confundir com acadêmicos em Filosofia).

Entretanto, um de seus discípulos, Aristóteles, considerava a Dialética apenas como um “pseudo-saber”; uma “aparência de Filosofia” e não a própria Filosofia. Julgava-a como um simples “disputa” ou “probabilidade” e não como uma ciência, uma certeza. Seria, a seu ver, uma mera “indução” e não uma “demonstração”.

Desse modo, o sentido positivo da Dialética só foi retomado com o sistema chamado de Neoplatonismo (séculos III e IV) que a entendeu como um método para se alcançar “Realidades Superiores (isto é – visões mais amplas e verdadeiras de uma questão ou assunto)” e se vislumbrar o “Mundo Inteligível (ou seja, das verdades racionais, isentas dos erros ocasionados pelo saber captado pelas sensações)".
O filósofo Proclo (412-485, Grécia), por exemplo, resgatou e utilizou a “Dialética Platônica” como método universal para chegar às “Verdades últimas (à realidade mais precisa de certo tema)". Plotino (205-269, Grécia), por sua vez, disse que Dialética seria uma parte da Filosofia e não apenas uma ferramenta da mesma.

Também entre os adeptos da tendência filosófica conhecida como Estoicismo (séculos IIe III), a Dialética era considerada com um método positivo para se chegar ao “conhecimento verdadeiro”. O filósofo Diógenes Laércio (Início do século III, DEC, Grécia) chegou a dividi-la em: “temas do discurso” e “linguagem” e propôs que a mesma fosse vigorosamente defendida contra os Céticos (adeptos do Ceticismo, tendência filosófica da mesma época).

Posteriormente, na Idade Média, a Dialética passou a ser vista de modos diversos: de um lado foi colocada junto com a Gramática e a Retórica, para formar o célebre “Trivium” das “artes liberais”. Era, então, uma das artes “sermocinais”; ou seja, uma das artes que se referem ao “método (de estudo) e não à Realidade (prática, captável pelos sentidos)”. Ademais, era vista como “uma das partes da Lógica dissertiva”, cuja proposta seria elaborar “demonstrações probatórias (comprovações do que se demonstra)". Outro grupo referia-se a ela como um “modo próprio (ou apropriado) de se elevar intelectualmente o conhecimento das coisas críveis". Dessa sorte, a Dialética era vista não só como um exercício para se elevar a mente, mas também a maneira mais eficiente de se diferenciar o falso do verdadeiro.

Todavia, essa interpretação dada a Dialética e conhecida como Logomaquia (em tradução livre, algo como a “luta da Razão” ou o “esforço da Razão”) e os insistentes elogios que alguns Filósofos como, por exemplo, Anselmo de Cantuária (1033-1109, Lombardia, Itália atual), Berengário de Tours (999-1088, França) e outros, faziam da mesma, acabaram suscitando reações contrárias como a do Pensador São Pedro Damião (1007/1072, Itália atual), que a via como uma afronta insolente ao conceito de “Onipotência Divina”.

E essa ambiguidade de avaliação persistiu na Escolástica (ou Filosofia Patrística), onde despontava Abelardo (1079-1142, França), um dialético extremado e propositor da Dialética como método crítico (ou seja, como uma metodologia minuciosa e criteriosa para se chegar ao “saber verdadeiro”). Em contraponto, outros, consideravam-na tão pejorativa, quanto havia sido a “Sofistica (a Filosofia dos Sofistas pré-socráticos, que valorizava a forma da discussão e não o conteúdo da mesma)".

No século XIII, porém, essa equiparação pejorativa foi definitivamente enterrada, por obra de alguns eruditos de peso como, por exemplo, Santo Tomaz de Aquino (1225-1274, Itália atual), que embora aceitasse a conceituação negativa que Aristóteles lhe dera, admitia que a Dialética fizesse parte da Lógica. E, de fato, esse grupo de Pensadores acabou considerando-a como “pura lógica”.

Prosseguindo com o movimento oscilatório, vemos que no século XIV o termo, “A Lógica”, voltou a ser usado para designar os temas da Dialética e que no século XVI a palavra “Dialética” reassumiu o seu antigo prestígio, passando a ser utilizada por vários estudiosos para classificar muitas obras da época. No século seguinte, o XVII, o movimento pendular trouxe, novamente, o nome “A Lógica” para o centro do debate e afastou lateral e criticamente os chamado “procedimentos dialéticos”.

E esse sentido negativo prosseguiu parcialmente durante o século XVIII, como se pode observar nas palavras do mestre Imannuel Kant (1724-1804, Alemanha): “... considerando a Lógica Geral como um organom (e) a Dialética como uma “Lógica de Aparência”, pois ela nada ensina sobre o conteúdo do conhecimento e se limita a apenas expor as condições formais da conformidade do conhecimento com o entendimento...”; enquanto que no ideário do filósofo Schleiermacher (1768-1834, Alemanha), observa-se o ressurgimento do “sentido platônico” para a Dialética, indicando que ela seria a única possibilidade de se conciliar o Pensamento com a Verdade.

Também à época, destacaram-se os ideários doutros eruditos, dentre os quais o do filósofo Hegel (1770-1831, Alemanha), cujo sistema filosófico reservou-lhe o papel central. Para ele, inicialmente, o significado de “Dialética” seria: “o momento negativo de toda Realidade”; pois, embora o formato em que a Realidade se desenvolve (Tese, Antítese e Síntese) tenha um caráter dialético e, portanto, positivo; a Dialética, diante do Abstrato (ou subjetivo), representa que a Realidade, esvaziada de sua própria essência ou substância, é negativa. E, para que isso não aconteça, a Realidade, então, deve aparecer sob um aspecto no qual se negue a si mesma, o que, em última análise, é justamente o “aspecto dialético”.

Logo, deduz-se que a Dialética não é a forma (ou formato) de toda a Realidade, mas apenas aquilo que lhe permite alcançar o caráter verdadeiramente positivo. A Dialética é, ao cabo, o que torna possível o “desenvolvimento (tese, antítese e síntese)” e consequentemente o amadurecimento e a realização da própria Realidade. Aliás, para Hegel, apenas nesse sentido é que se pode dizer que a Realidade é Dialética.
A rigor, é a “Realidade Realizada ou concretizada” que interessava a Hegel e não o “movimento dialético”, que permitiu a concretização. Conseguintemente, a Filosofia hegeliana não contém apenas uma ontologia da Realidade (a existência em si do Real), mas, também, uma vontade de “preservação ou salvação” dessa Realidade, naquilo que ela tem de mais real; ou seja, no que tenha de “positivo-racional ou especulativa”.
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Se com Hegel o conceito de Dialética firmou-se em definitivo; foi o Marxismo que o tornou popular. Com efeito, a noção de Dialética, do “método dialético”, é central no pensamento marxista, em suas várias formatações.

Uma característica comum a todos os pensadores marxista é o fato de usar a Dialética como um método para descrever e estudar a realidade prática, objetiva, empírica; tanto em sua forma natural, quanto, e principalmente, em sua face social e humana; e não só o autodesenvolvimento da ideia (de uma tese ou de um pensar abstrato).

Por isto, o formato mais preponderante que a “Filosofia Dialética” assumiu dentro do Marxismo, foi aquele adotado pelo chamado Marxismo ortodoxo que vigiu, sobretudo, na ex-URSS, ao tempo de Lênin e, principalmente, no de Stalin. Aos “filósofos oficiais” do Regime, bem como a outros autores engajados, coube à tarefa de teorizar em cima da proposta original de Engels (1820-1895, Alemanha): “a Dialética é a melhor ferramenta e a arma mais afiada com que se pode contar para realizar os propósitos revolucionários do Partido”.

Para aqueles pensadores e seus seguidores, o uso da Dialética é que permitiria compreender as mudanças históricas (isto é, o “materialismo histórico”) e as alterações naturais (“o materialismo dialético”), ambas regidas pelas três grandes “Leis Dialéticas”, a saber:

1) A lei da negação da negação.
2) A lei da passagem de quantidade à qualidade
3) A lei da coincidência dos opostos.

Leis que, para os mesmos, permitiriam afirmar que: “S é P” e concomitantemente negar que “S é P”, já que “S é P” poderia ser verdadeiro em um momento e deixá-lo de ser noutro instante.

É certo que outros autores argumentaram que isso representava apenas a “afirmação dos contrários, mas não dos contraditórios”, porém, para aqueles Filósofos marxistas, as citadas “Leis Dialéticas”, representavam, efetivamente, uma modificação verdadeira das “Leis da Lógica” e que, portanto, os princípios desta (como o “da identidade”, o “da contradição” e o do “terceiro excluído”) não governavam a “Lógica Dialética”; o que, no fim, implicaria a sua rejeição, haja vista ela ater-se apenas à realidade estática ou imóvel.

Em décadas mais recentes, alguns filósofos marxistas mudaram partes de suas concepções acerca da Dialética, sendo que alguns buscaram mostrar que as “Leis Dialéticas” poderiam ser transformadas em axiomas (premissas evidentes e verdadeiras), enquanto outros passaram a admitir a importância a “Lógica Formal”. Em ambos os casos, a motivação foi complexa, sobretudo porque a maioria dos motivos é de natureza política e não filosófica e isto acabou obscurecendo ainda mais o conceito de “Dialética” na Filosofia marxista.

Depois da morte de Stalin, em 1953, aumentaram na URSS, e nos países sob sua influência, as discussões sobre a natureza, o significado e o alcance da Dialética, mormente do chamado “método dialético” e da chamada “lógica Dialética”. O quadro resultante desses debates não serviu para elucidar as várias dúvidas, já que entre outros elementos, seria necessário inserir neste quadro os ideários de Pensadores como Lukács e Gramsci, que embora tenha sido contemporâneos do período stalinista, não podem ser considerados fidedignos à ortodoxia política, tampouco à “Filosofia soviética oficial”.

A isto, acrescente-se outras circunstâncias, como a interpretação e acomodação que o Marxismo teve noutros países, como é o caso do Maoismo na China e as análises e definições dadas pelos “frankfurtianos”, como o filósofo Adorno e a sua “Dialética negativa (ver quadro abaixo)”.

A “Dialética Negativa” ou “A Dialética como negação”, de início, rejeita todas as posições filosóficas adotadas e as “adotáveis”; pois, a seu ver, todo conteúdo abrangido pela Dialética tem de ser um “conteúdo aberto”. Porém, tais “conteúdos abertos” podem levar a Dialética a certa posição dogmática, o que eliminaria a exigência da sua referida negatividade e, por isso, é preciso considerar o caráter crítico e negativo da Dialética, deixando que ela se volte contra si mesma.

Contudo, é justo dizer, que muitos “Filósofos oficiais” trabalharam arduamente para esclarecer a noção das “Leis da Dialética”, que haviam sido simplificadas em excesso, pois é preciso não se olvidar que o célebre “caráter científico do Marxismo”, teria de ser acompanhado pelo desenvolvimento das ciências naturais, bem como, pelo progresso das ciências formais.

Porém, não obstante, o esforço desses estudiosos, ficou claro a impossibilidade de se harmonizar a “Lógica Formal” com a “Lógica Dialética” e, por isso, não foram poucos os que imaginaram que a última deveria ser abandonada, restando, apenas, como “um nome” ou “uma máscara” a ser considerada útil apenas como um instrumento de conhecimento e de transformação nos temas abarcados pela Realidade humana e social.

Entre os autores dessa tendência, deve-se mencionar pelas respectivas importâncias, o já citado Adorno e o francês Sartre (1905-1980 França), que afirmou: “o conhecimento dialético é, de fato, (o) conhecimento da Dialética... A Razão Dialética não é nem Razão Constituinte nem Razão Constituída, mas Razão Constituindo-se (ou seja, em movimento)”.
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É obvio que a Dialética não foi uma exclusividade dos “pensadores marxistas” durante os séculos XIX e XX, existindo várias outras tendências que lhe deram interpretações variadas. Algumas lhe conservaram o aspecto “platônico” ou “clássico”, como no caso do citado Schleiermacher e do Padre Gatry (1805-1872 França), que, inclusive, propôs um “procedimento dialético” para se chegar aos cumes do inteligível, através da “arte do diálogo”. Outros seguiram as teses de Hegel e outros, ainda, algumas formas do Idealismo, como Croce (1866-1952 Itália), Gentile (1875-1944 Itália) e Mctaggart (1866-1925, Inglaterra).

Além destes, merece destaque o chamado “Movimento Neodialético” da Escola de Zurique, liderada por Ferdinand Gonseth (1890-1975 Suíça), que propõe uma Dialética não especulativa (de especular, refletir, investigar intelectualmente); ou seja, sob o domínio de “experiências perfectíveis (empíricas, práticas, percebíveis pelos sentidos)” e os Filósofos Arthur Liebert (1878-1946 Alemanha) e J. Cohn (1892-1953 EUA), que construíram os seus ideários sob a égide exclusiva da dialética.

Liebert, por exemplo, considerou a Dialética como o fundamento, a base, de toda Filosofia, sendo ela, muito mais que um simples conjunto de operações formais. Cohn, por sua vez, adotou um conceito mais próximo ao de Hegel (sem, no entanto, adotar os “momentos tese, antítese e síntese)”, num Panlogismo (ou “Lógica Total”), buscando fundir os “momentos lógicos” num “todo concreto”.
(Note-se que apesar de diferentes, estas noções são englobadas como “Dialéticas do Pensamento Pensado” e não do “Pensamento Pensante”, já que segundo Gentile e outros, o primeiro tipo de pensamento já supõe o segundo tipo, perfazendo, portanto, um tipo diferente de Dialética da de Hegel, cuja base é formada pelas Leis da Lógica Tradicional).
Para Gentile e outros, a “Dialética do Pensamento Pensante” é a única capaz de romper com a ideia aristotélica de “Realidade Realizada”, por seu caráter de movimento. Por conseguinte, observa-se que a censura que o Idealismo contemporâneo faz ao conceito platônico aristotélico de Dialética é, de certo modo, injusta, já que se centra no fato de que o mesmo estaria calcado em uma noção estática do “Ato (ou seja, desconsidera a anterior potência, ou potencial, no processo de efetivação da ação realizada)”, esquecendo-se do sentido dinâmico que o conceito de Dialética tinha na filosofia clássica.
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Voltando à questão da confusa classificação de “Dialética”, observa-se, novamente, que a enorme quantidade de tendências que se consideram “dialéticas” ou que utilizam as formas de “pensamento dialético” é a causa da enorme dificuldade de se classificar as “teorias dialéticas”, assim como a compreensão das várias discussões sobre a possibilidade de uma “lógica Dialética”; de uma “razão analítica” e de uma “razão dialética”.

Com efeito, quase todas as discussões sobre o tema, mostram que há por parte dos adeptos de cada tendência, uma ideia fixa do que seja uma “teoria Dialética”, sem que declinem explicações satisfatórias paras as suas conclusões.

Geralmente tais discussões relacionam-se mais com a “Dialética marxista” e menos com as teses da Escola de Zurique. Esse fator ajuda a se chegar a algumas definições, porém, o aspecto geral continua apresentando-se confuso, malgrado o esforço de alguns Pensadores como Gustavo Bueno, que criou a útil tabela das “teorias dialéticas”, que se pode apreciar na sequência:

1) Teorias subjetivo-formais, em que a Dialética não é uma “Dialética do pensamento”. Admita-se, ou não, tal Dialética, sempre há a possibilidade de formalizá-la analiticamente; ou seja, abordar o “pensamento dialético” mediante uma “lógica formal”, não dialética.
2) Teorias subjetivos-materiais, em que a Dialética não seja tanto um processo lógico e, sim, um processo psicológico. A teoria em questão descreve e explica os formatos dialéticos dos pensamentos individuais e/ou coletivos.
3) Teorias objetivo-formais, em que se admite a Dialética como um processo objetivo, ainda que não seja necessariamente material, e ao mesmo tempo formal.
4) Teorias objetivo-materiais, em que se admite a Dialética como a forma da realidade e do pensamento; sendo a Realidade o fundamento ou a base, do Pensamento.

Por fim será oportuno falarmos novamente sobre a questão envolvendo a “Lógica Formal” e a “Lógica Dialética”, vez que a adoção da Dialética implica em dupla conceituação dessas noções. Os adeptos da “Lógica Formal” afirmam que toda Razão é analítica e toda Lógica é Formal; enquanto que os adeptos da “Lógica Dialética” afirmam que toda Razão é Dialética e toda Lógica idem.

Essa tomada de posição mais rigida, em nada contribui para que exista uma definição precisa acerca da problemática. Por isso, é crescente o número de eruditos que busca uma via alternativa, passando a considerar que quase sempre que se fala de “Lógica Dialética”, entende-se a palavra “Lógica” num sentido diferente do “normal”, já que em suas óticas, não há qualquer correspondência entre a “Ciência da Lógica Formal” e a “Dialética” em si.

A Dialética seria, portanto, um tipo de reflexão sobre um tipo de pensamento, totalmente diferente do “Pensamento Lógico” ortodoxo. Porém, isso supõe que a Lógica seja uma disciplina encarregada de articular “tipos de pensamentos”, o que não é verdade e essa circunstância acaba preservando o impasse e a indefinição acerca do tema.
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Em maio de 1935, Bogumil Jasinowski afirmou que a noção de “desenvolvimento dialético” não se limita à Filosofia, mas alcança, também, a Ciência, inclusive no ramo das “Exatas (matemática, física etc.”). Para ele: “tanto a Ciência quanto a Filosofia estão submetidas a uma espécie de Dialética universal e recebem, ambas, sentido de seu passado... Por isso, tanto quanto a filosofia, a Ciência de hoje não parece poder eliminar a sua própria história...”. Na sequência, Bogumil afirma que “uma síntese Dialética das oposições” pode ser comprovada no desenvolvimento da nova Física, do qual desembocou a “mecânica ondulatória”. Segundo ele, o próprio Louis de Broglie (1892-1987, França) – um dos desenvolvedores da teoria da Mecânica Quântica – reconheceu a existência de um “processo dialético”, como a base de sua fundamentação sobre a questão.

Mortimer J. Adler (1902-2001, EUA) deu mais amplitude ao conceito, ao propor uma espécie de “Summa Dialética”, que seria um resumo para a nossa época dos argumentos implicados em teorias, sistemas e filosofias, de que a história guardou apenas indícios.

A propósito, observa-se procedimento análogo na obra de G.E.Muller (1850-1934, EUA), que apresentou uma “Teoria Dialética” como expressão da tensão criadora das forças da vida.

Outro contemporâneo, Robert Heiss (1903-1974, Alemanha), afirmou que a “Dialética” não tem motivo para seguir, como no passado, os passos da Lógica, pois desde Kant, comprovou-se que ela segue um processo sui generis. Segundo ele, o aspecto fundamental do “Pensar Dialético” é o “Movimento” e foi nesse sentido que reafirmou a sua concordância com o ideário de Hegel, ao dizer: “proclamo a falta de verdade (no sentido filosófico) do fenômeno imediato em face do movimento”. Em consequência, reafirmou o trio de princípios operativos da Dialética:

1) A negação
2) A contradição
3) A suceão

São Paulo, 19 de abril de 2016.