domingo, 13 de fevereiro de 2011

Gregas Tragédias - Prometeu Acorrentado - Resumo Comentado

Ésquilo – 525(4)/456 aC. - Elêusis

Cenário – região desolada na Citia, atual Sibéria.

Época da ação – primórdios da Humanidade

A 1ª Apresentação – em 458 aC. em Atenas.

Personagens:

1. Coro – representando as Oceânidas

2. Hefesto – o deus do fogo.

3. Hermes – deus, arauto e mensageiro de Zeus.

4. Ío, filha do rei Ínaco, amada por Zeus e perseguida por Hera, a ciumenta esposa do “Pai do Deuses”.

5. Poder e Força – divindades auxiliares de Zeus.

6. Prometeu, um dos titãs, filho de Urano (o Céu, também chamado de jápeto) e Gaia, ou de Urano e Têmis.

Resumo

Num banquete servido aos Homens e aos Deuses, Prometeu encarregou-se de fazer a partilha de um boi assado. Ludibriando Zeus fê-lo escolher a parte onde colocara apenas ossos camuflados por uma branca gordura. O “Pai do Deus” ao ver-se vitima do ardil encolerizou-se contra Prometeu e contra os mortais (que ficariam com as partes nobres da carne) e para castigá-los escondeu-lhes o fogo, o último elemento que faltava para que eles atingissem a civilização. O titã voou até o Olimpo, acendeu um ramo nas brasas do Sol (ou nas fornalhas de Hefestos, segundo uma variante da lenda) e deu aos Homens aquela chama. Zeus, duplamente enganado, puniu os Homens mandando à Terra a deusa Pandora e a Prometeu castigou mandando acorrentá-lo num rochedo.

A tragédia de Ésquilo começa a partir desse ponto, mas achamos oportuno recuarmos um pouco no tempo para facilitar a compreensão da peça. Também, com esse espírito, discorreremos brevemente sobre Pandora, que apesar de não estar diretamente mencionada na obra de Ésquilo ocupa um papel de destaque no encadeamento da lenda.

É bem conhecida a fábula de Pandora que ao abrir sua caixa libertou todas as maldades no Mundo. Também é comum que se creia que nem só de Maldades estava cheia a caixa, pois nela havia uma exceção benéfica: a esperança. Todavia é um erro supor que a “Esperança” fosse algo benéfico, pois ela é apenas mais uma das maldades. É a “Esperança” que ilude o Homem fazendo-o crer que seu Futuro será diferente. Que ele poderá dominar esse Futuro. É claro que mudanças superficiais ele poderá realizar, mas o intimo, a essência, está nas mãos do Destino, das circunstâncias que lhe cercam e cercarão. É a “Esperança” que obriga a Humanidade a perseverar como se fosse o mitológico Sísifo, cuja pena no Hades consistia em empurrar uma pesada rocha montanha acima e ao chegar ao cume, ver que a pedra rolava para seu ponto inicial, fazendo-o erguê-la novamente. Lendo a fábula de Pandora com a alma desarmada de clichês, nota-se a semelhança do Homem e Sísifo. Ambos fazem um inútil trabalho contínuo (ou uma vida de trabalho, cuja satisfação é sempre momentânea; e logo substituída por nova ambição) sem saber o motivo de tanta dor e sofrimento.

A representação teatral inicia com a chegada do “Poder”, da “Força”, de Hefestos e do prisioneiro Prometeu a um rochedo na distante e congelada Citia. Hefestos deixa escapar sua tristeza por ver um deus, um irmão seu naquela situação e logo é advertido pelo “Poder” para a necessidade de cumprir a ordem do Pai Zeus. Lembra-lhe que todos, inclusive os deuses estão presos às cordas do Destino e que tudo é inútil na tentativa de modificá-lo. Tudo é pré-determinado.

Note-se que essa negação do “Livre Arbítrio” e da meritocracia para alcançar “A Salvação” voltaria à cena milênios depois nas vozes de Religiosos Protestantes. Calvino e Lutero, dentre outros, pregavam a “Graça Divina”; ou seja, seriam “Salvos” aqueles que fossem escolhidos (sic) por Deus, independentemente dos seus atos.

Preso por grossas cadeias, Prometeu experimenta a solidão com a partida de seus carcereiros e dá inicio as suas lamúrias e queixumes (alguns estudiosos veem nessa cena o original da cena da Crucificação de Jesus. É certo que há alguma semelhança na essência, embora os detalhes mudem: um Ser Divino, protetor dos Homens, é castigado por tê-los favorecido.) até que ouve um barulho que lhe indica a chegada de alguém. São as Oceânidas que lhe trazem sua amizade e sua solidariedade. Prometeu, repete-lhes suas queixas e lhes ouve dizer que Zeus é um “Novo Rei” ainda em fase de consolidação do poder e inexperiente em seus mandos e desmandos.

Esse fato se repete a sorrelfa em várias oportunidades na História do Homem, principalmente quando as revoltas, justas ou injustas, chegam ao Poder e a agitação social, inclusive com violência, faz-se presente até que haja uma acomodação de todos os agentes deslocados por aquela convulsão.

Através do Coro, as Ninfas contestam Prometeu que julga ser motivo de escárnio doutros deuses. Ponderam que ninguém poderia ficar satisfeito com aquela situação. Nesse ponto, Prometeu cita pela primeira vez a hipótese de Zeus vir a ser derrubado por outro deus. Cita, então, um segredo (que se desposasse Tétis, o filho que gerassem o destronaria. Por isso, o Senhor dos Deuses fez com que ela se casasse com o mortal Peleu, a quem deu o filho chamado Aquiles, o maior guerreiro grego) que sabe e que interessa diretamente a Zeus, pois nele está o nome de quem o substituirá no trono. Prossegue afirmando que tal trunfo lhe é valioso e que por isso não será revelado mesmo que lhes sejam ditas doces palavras, ou lhes sejam aplicadas cruéis torturas.

Ante o medo que as Ninfas externam, dizendo que o coração de Zeus é tão duro quanto um diamante, Prometeu as consola retrucando que chegará o tempo que ele, o soberano Pai dos Deus, será curvado pelas circunstâncias e será obrigado a vir humildemente pedir-lhe socorro. Na seqüência, Prometeu responde ao Corifeu (representando a líder das Ninfas) contando o que fez para receber aquele castigo. Contou-lhe primeiro que foi decisivo como aliado de Zeus contra os titãs, pois usou além da força bruta a sutil inteligência; e se queixa da ingratidão de Zeus, nesse assunto.

Prosseguindo sua narrativa, contra-argumenta com o Coro, dizendo-lhe ser fácil criticar, mas de tudo que fez, de nada se arrepende, pois como tinha o dom da adivinhação sabia de antemão o que teria que enfrentar, embora não esperasse que em condições tão duras. E tudo por amor aos Homens...

Volta a questão do egocentrismo. Por amor ao Homem, ou por desejo de se opor a Zeus? Por ciúme do poder adquirido pelo irmão? A segunda opção tem mais probabilidade de ser a verdadeira.

Nesse momento chega o titã Oceano que presta juras de amizade, mas censura Prometeu por não ter se submetido ao poder de Zeus. Primeiro ele recebe as criticas com polidez, mas depois usa de sarcasmo e diz que os covardes, como Oceano, não devem dar motivos para censuras dos poderosos do momento e que, portanto, ele deve partir sem vagar. Assumindo sua paúra, Oceano parte célere, amedrontado de ter contrariado o novo Senhor.

Nesse trecho é oportuno observar uma característica bem humana: qualquer sentimento mais nobre, a amizade, por exemplo, não resiste a um eventual risco. Tanto há milênios, quanto nos dias atuais. Há, aqui, todo um desnudamento profundo do caráter humano. Chega-se ao mais intimo do Ser, graças à genialidade de Sófocles.

No outro extremo, o da nobreza dos sentimentos, as Oceânidas permanecem junto a Prometeu suavizando-lhe a solidão a que foi condenado.

Na seqüência o titã relata os benefícios que concedeu aos Homens, narrando desde os primórdios da Humanidade:

1. A arte de construir casas, livrando-o das cavernas, onde vivia então.

2. O uso do raciocínio e a partir daí o conhecimento astronômico básico.

3. As ciências matemáticas e a escrita.

4. A doma e o uso dos animais de carga

5. Os navios à vela.

E após essa enumeração, queixa-se por não saber como se livrar da terrível condição em que ele próprio agora está. O Corifeu o compara a um médico talentoso, mas que desconhece o remédio que o curaria de sua enfermidade. Prometeu enumera mais algumas dádivas que deu aos Homens:

1. Os remédios e as ervas medicinais. Os alimentos funcionais.

2. As artes divinatórias. Como interpretar as estranhas de um animal sacrificado, ou o vento dos pássaros etc.

3. A metalurgia.

O Corifeu lhe pede, então, que não mais exagere no amor aos mortais. E que, se um dia libertar-se dessas correntes, leve uma vida harmoniosa com os outros deuses, especialmente com Zeus.

Responde-lhe Prometeu que ainda não é hora para a reconciliação. O Destino já fixou essa hora, bem como as dores que ainda sofrerá. E essas determinações são inflexíveis. Não podem ser alteradas. E o Corifeu faz a pergunta esperada: e quem controla o Destino (ou a Deus)?

Responde-lhe o filho de Jápeto, que o Destino é controlado pelas três Parcas e pelas três Fúrias, que não esquecem jamais qualquer erro. Sendo o próprio Zeus sujeito a isso.

No hinduísmo há essa concepção de Deus. Acima da TRIMURTI (Vishnu, Brahma, Shiva) está o “Deus Maior”, chamado de BRAHMAN. No catolicismo, algumas correntes já admitem que exista um “Deus” acima do demiurgo que construiu o Universo.

Na seqüência, a questão do controle de Zeus (ou de Deus, na modernidade e na contemporaneidade) é retomada pelo Corifeu, mas Prometeu se recusa ao assunto, alegando que ainda não é o Tempo certo para a revelação de tal segredo.

O Corifeu continua questionando e pergunta a Prometeu o porquê de seu amor aos Homens? Que benefícios isso lhe traz? Mas antes que o titã responda, chega à cena a beleza jovem de ÍO que atormentada pelo moscardo (a mosca da madeira) enfeitiçado, corre por todas as direções enquanto pergunta às Oceânidas sobre o prisioneiro atado à rocha, em meio aos seus próprios queixumes.

Prometeu diz conhecê-la, bem como ao seu fardo. De amada de Zeus, passou a ser a perseguida pela ciumenta Hera. Retruca a jovem pedindo-lhe que revele as futuras torturas que ainda passará. Diz que lhe revelará o seu futuro, de forma clara e objetiva. Porém, antes que comece, o Corifeu pede a ÍO que ela própria conte seu males e ela, envergonhada, conta dos sonhos freqüentes que a induziram a receber Zeus em seu corpo; de como seu pai a expulsou de casa, pensando que desse modo agradava aos deuses. E como seu físico e sua mente foram modificados para que ela ficasse parecida com uma novilha; também fala como o moscardo começou a torturar-lhe diuturnamente, impedindo qualquer repouso ou refeição. E mais contaria, mas achou melhor voltar a pedir o vaticínio de Prometeu.

Prometeu inicia seu vaticínio indicando-lhe o caminho a seguir, no qual encontrará e deverá evitar vários povos hostis, exceto o das Amazonas que a tratarão como amiga e lhes darão um breve repouso na dura e longa caminhada, até sair da Europa e adentrar na Ásia. Prometeu compara seu sofrimento com o da jovem e não a persuade de desistir do suicídio. Apenas lamenta o fato de ser imortal, proibido do descanso que a morte promete. Diz-lhe que só terá paz com a queda de Zeus, perspectiva que também alegra ÍO, pois ela entende que foi ele o causador de seus males. O titã lhe conta, então, que Zeus caiará tombado por um filho de sua estirpe, mas não será o filho de ÍO, posto que ele só há de vir após terem se passado treze gerações. Também lhe diz do longo caminho que deverá percorrer em solo asiático e dos perigos que enfrentará até que no território do atual Egito ela funde uma Colônia.

O Corifeu volta a lhe perguntar: quem destronará Zeus? Em resposta o titã diz que na Colônia, ÍO recuperará a forma humana e a sua paz interior. Ali gerará um filho negro, EPAFO, que cultivará a região banhada pelo Nilo criando as bases de uma linhagem real. Dessa linhagem virá o seu libertador, mas não entra em detalhes alegando que seria necessário um longo tempo para chegar ao término da narrativa, o que seria improdutivo para a jovem.

O nobre descendente de ÍO, através da linhagem de Epafo, é Herácles (Hercules, em latim) que efetivamente libertou Prometeu.

Entrementes, novamente aguilhoada pelo moscardo, ÍO chora seus sofrimentos e em desabalada carreira sai de cena.

Note-se a importância dada nos textos antigos aos males causados pelos insetos. Na Bíblia judaico-cristã um dos terrores mais comuns é associado à picada dos escorpiões, ou à praga dos gafanhotos, de moscas etc. Se na atualidade tais ameaças deixaram de ser tão decisivas foi graças ao uso dos inseticidas, mas esses, por sua vez, afetam os ecossistemas. Esses dois aspectos dão força aos argumentos dos que chamam os insetos de piores inimigos da Humanidade. Tanto direta, quanto indiretamente.

Enquanto o Coro relata o erro de ÍO que, como muitos, casou-se deslumbrada pelo dinheiro e pelo poder de Zeus, Prometeu retoma seu discurso sobre a queda de Zeus e se gaba de ser o único que sabe do segredo de Zeus e como minorá-lo. As Oceânidas questionam-lhe se ele não estaria confundindo seus desejos com a real previsão do Futuro, hipótese que o titã rechaça e quando vai contra-argumentar, adentra à cena o deus Hermes, especialmente detestado por Prometeu que não lhe perdoa a servilidade, a covardia perante Zeus. Um Homem que se sujeita a ser um mero “menino de recados”.

Com esse ódio no peito, Prometeu o recebe com escárnio, acentuando sua covardia e sua servil condição de mensageiro. Hermes responde-lhe os insultos chamando-o de “Sofista”, ou seja, enganador, manipulador por meio de discurso vazio, mas convincente pela bela forma. Também lhe chama de “ladrão”, pelo “fogo” dado aos Homens. E entre ataques e contra-ataques, Hermes transmite-lhe a pergunta de Zeus sobre que casamento lhe arruinará? Ordena Zeus que Prometeu esclareça essa profecia, mas como seria de se esperar, o titã se nega a dizer quem o derrubará enquanto continua seu feroz ataque ao mensageiro, insultando-o pela sua mediocridade, sua baixa estima e sua ingenuidade de achar que tanto ele quanto Zeus, serão eternos nos postos que ora ocupam. Ele mesmo, diz Prometeu, já assistiu à queda de dois “Pais dos Deuses”. Primeiro Urano e depois Cronos, avô e pai de Zeus.

Furioso, antes de voltar ao Olimpo, Hermes ameaça Prometeu com novos castigos: o primeiro será o “cão alado” que estraçalhará seu corpo; o segundo será a “branca águia real” que comerá seu fígado diariamente, ou na medida em que ele se regenere. O Corifeu tenta intervir na briga pedindo que Prometeu abrande sua fúria e se submeta ao novo “Rei dos Deuses”. Mas é em vão tal apelo, pois o titã reafirma sua posição e diz nada temer dos novos castigos que Zeus lhe infligirá. É acompanhado nessa determinação pelas leais Oceânidas que se recusam a abandonar o filho de Jápeto. Com isso repelem o conselho de Hermes para se afastarem e não serem feridas pelos raios de Zeus.

E firmes em sua convicção e em seu propósito, Prometeu e as Ninfas são colhidos pela imensa tempestade que se abate sobre eles, cuja fúria pressupõe o extermínio de todos. É o fim da apresentação teatral.

O leitor ou espectador observa que nessa Tragédia o sentimento dominante é a ira e o desejo de vingança contra uma suposta ou real injustiça. Num primeiro momento exalta-se a justeza do caráter de Prometeu. Num segundo instante, essa admiração chega às Oceânidas, cuja lealdade é voluntária. E talvez mais digna de louvor justamente por isso e pelo fato de não terem a mesma imortalidade de Prometeu, tampouco sua proteção como ente divino.

Ao fechar o livro, ou ir para casa após o teatro, o conceito do espectador ou do leitor sobre a firmeza, vai sendo substituído pela dúvida sobre os reais motivos de Prometeu. O que ele fez foi mesmo por “amor aos Homens”? Ou terá sido apenas uma maneira de afrontar alguém (Zeus) que teria usurpado um trono que deveria ser seu? Foram os Homens apenas “massa de manobra”, tola e ingênua? É quase certo que a sua resposta será “Sim”. Pois olhando em retrospectiva, vê-se que o “fogo (a luz, a sabedoria)” dado pelo titã serviu para iluminar um Pensador como Platão; mas, com muito mais ocorrência, serviu para armar os Homens que se matam entre si, por conceitos absurdos. O que adiantou para a Humanidade a “civilização” que o deus lhe ofertou? Só a opressão de uns contra outros, sem que através dela se criasse efetivas melhorias para todos. Tudo que foi dado, e NÃO conquistado, veio com a maldição de todas as heranças: a criação de uma geração de incapazes, inescrupulosos, vadios e fúteis.

Todas essas questões perpassam os Juízos de todos que têm contato com a obra de Ésquilo, cada qual analisando de uma maneira própria. Mas é certo que todos - independentemente do juízo que faça das personagens - concordam que se saboreou um texto de beleza superlativa. Uma das grandezas de Ésquilo, cuja sutileza permite, a quem dele se aproxima, viajar pelos meandros das almas humanas e divinas.

Rio, 12/02/2011